quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Vinte e Um.

   O coração da bela odalisca disparou e ela sentiu a respiração falhar. Seguiria o que sua intuição lhe dizia. Seguiria seu coração! Olhou-o com toda intensidade de seu olhar enigmático. O hipnotizou como uma serpente egípcia. O enfeitiçou com apenas uma mirada! Ela sabia que exercia esse poder sobre ele. Permaneceu em silêncio, sem responder absolutamente nada! Apenas levantou-se e deixou-o sentado no sofá. Andou devagar até seu quarto. Respirava fundo e sentia os olhos encharcados de lágrimas. Só tinha o pai em sua mente. Apenas ele…

   - P-pai… E-eu sei que ele é c-casado e que vai t-ter um filho, m-mas… Eu v-vou dançar… (Yasmin sussurrava chorando e mirando aquele véu que havia sido presente de sua mãe)

   Despiu-se sem se importar que a porta estivesse aberta. Pegou a delicada roupa branca, bordada com pequenas contas no mesmo tom, que apenas transpareciam um tom avermelhado e prateado. O sutiã bordado desenhava perfeitamente o busto de Yasmin, e a saia deixava suas pernas bronzeadas completamente à vista. Era diferente, tinha um tom sensual e misterioso. Era uma roupa que Yasmin jamais havia usado, era de alguma maneira, única!

   Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, lilás e branco. Amarrou cada um desses lenços na cintura e em seu rosto, o vermelho que era presente de Regina. O especial! Borrifou o perfume de maracujá que enfeitiçava qualquer homem. E sem sombra de dúvidas, ela enfeitiçaria! Os cabelos levemente enrolados, ao natural. A maquilagem egípcia e o olhar penetrante. Sensual!

   A Dança dos Sete Véus! A que ela havia guardado a sete chaves. A ocasião especial. O homem certo! A que ela sentia ser o portal pra jogar-se de cabeça naquele amor. O caminho sem volta. A união!

   
“Minha vida se resumirá em sete véus, meus caminhos estarão traçados entre sete cores, minhas decisões serão tomadas entre sete palavras, meu corpo representará sete elementos e meu coração transformará sete chakras em apenas um sentimento. O amor…”

   Caminhou até a sala sentindo como borboletas e libélulas bailavam em seu estômago. Sentia o corpo tremer e a boca estava completamente seca. Estava nervosa, mas ao mesmo tempo, decidida!

   “A Dança dos Sete Véus, a luz que irradiará meu caminho e a certeza de que após isso eu irei lutar perante os olhos de Alá, perante as leis da vida, seguirei em frente com a cabeça erguida, é o meu destino, o meu caminho… Está escrito na linha da vida, está traçado no percorrer de meus suspiros, está alinhado ao meu espírito. Maktub… É a hora e já não posso caminhar pra trás!”

   Lucas respirou fundo. Seus olhos brilhavam ao ver a mais bela Odalisca parada em sua frente. O rosto coberto e apenas aqueles olhos enigmáticos pra fora. O grande causador de toda uma paixão. O olhar! As batidas da música pareciam ser inaudíveis perante os ouvidos de Lucas. Não conseguia raciocinar ao vê-la dançar e envolver-se com cada um dos véus! Pra cada cor, um passo diferente! Os cabelos voavam perante as viradas que ela dava com o corpo. A maneira que gingava com o quadril e as pernas que iam e vinham pra frente e pra trás. As mãos que brincavam com os véus e o rosto que permanecia coberto… O mistério!

   “Extravaso minha raiva com o véu laranja, o jogo pro alto jogando o quadril para esquerda… Esqueço do materialismo quando toco no véu amarelo, fecho os olhos ao passá-lo por meu rosto, o passo pra trás e delicadamente o coloco no chão… Deslizo por minha barriga o véu verde, demonstrando o meu físico e jogando levemente minha perna direita pra frente para que meu quadril gingue com a batida do tambor… Desamarro o véu azul de minha cintura e fico por alguns segundos mirando em seus olhos, a serenidade que eu não alcançaria nem mesmo nos céus, sorrio sem que ele perceba já que meu rosto está coberto e respiro fundo admirada com aquele olhar de menino encantado que tanto me fascina… Pego o véu lilás e me ajoelho no chão, fecho os olhos e apenas o seguro no ar, minha alma, nossas almas se libertando do negativo e deixando apenas fluir energias boas, positivas… Me levanto e puxo o véu branco, a minha pureza, a minha luz, a nossa luz, requebro e viro deslizando minha cintura para os dois lados e gingando junto com minha perna… Suspiro puxando de meu rosto o último véu, o vermelho… O presente de minha mãe, o mais especial! Destampo o meu rosto e gingo meu corpo, escuto as últimas batidas da música e sinto que elas pareciam estar no mesmo compasso de meu coração… Paro no meio da sala e cubro mais uma vez meu rosto com o véu, talvez uma tentativa de conter a vergonha que estou nesse momento…”

   A música aos poucos ia abaixando.

   “Não dá mais pra segurar os meus instintos, ela me hipnotiza e me fascina de uma maneira que não posso mais me controlar…”

   Lucas levantou assim que a música acabou, andou calmamente até ela. Parou em sua frente trocando o mais profundo olhar. Irradiavam um brilho intenso. Delicadamente ele puxou o véu que cobria o rosto de Yasmin. Ao mesmo tempo em que o véu deslizava sobre a bochecha dela, os dedos de Lucas iam desenhando o caminho. Ela fechou os olhos e quando deu por si, sentiu o gosto dos lábios de Lucas sobre os seus. O caminho sem volta já estava sendo seguido. Não mais podia voltar pra trás. Não podia haver desistência…

   Agora o xeque-mate havia sido lançado. Dois corações que já se uniam da mesma maneira que sete véus caíam ao chão…

   Maktub! Esse era o destino.

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