quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Dez.

   A madrugada não estava somente tensa para Yasmin. Lucas também vivia certos minutos de tensão.

   - T-tá doendo… (Bruna sussurrava chorando)
   - Você não podia ter viajado, sabe disso. (Lucas afirmava sério enquanto andava de um lado pro outro no quarto)
   - S-sei que fiz errado, m-mas me entenda. Pode p-parecer que não me i-importo com nossa relação, m-mas eu me importo. Acha que é f-fácil e-encarar uma crise no c-casamento quando ele m-mal começou? (Bruna despejou chorando e apertando a barriga, que doía fortemente)
   - Você sabe que não precisávamos de um casamento, tanto a minha vida como a sua foram estragadas, mas agora o que se pode fazer? (Lucas)
   - C-correr atrás do prejuízo, t-tentar salvar nossa relação. (Bruna)
   - Bruna, não se iluda… (Lucas)
   - P-por que não? (Bruna)
   - Porque não, agora é melhor pararmos de discutir essa relação que você sabe muito bem que é perdida. Você está passando mal e acho melhor eu te levar ao médico. (Lucas)
   - Não q-quero ir pra nenhum médico, n-não agüento mais… (Bruna afirmou enfiando-se embaixo das cobertas)
   - Vou pedir um chá pra você então, além de estar com dor, também está nervosa. (Lucas afirmou pegando o telefone)
   - N-não quero. (Bruna)
   - Quer sim! (Lucas)

   Depois de trocar palavras em inglês com a recepção, o serviço de quarto chegou e Lucas pegou o que havia pedido. Bruna mesmo contra vontade, bebia o chá em silêncio.

   - Lucas… (Bruna falou segurando a xícara)
   - Hum? (Lucas)
   - Não quero que me odeie. (Bruna)


   Lucas suspirou e sentou-se na cama. Aquela relação era muito mais do que complicada.

   - Eu não te odeio Bruna. (Lucas)
   - Odeia sim, isso é visível. (Bruna)
   - Não. (Lucas)
   - Se não odeia, não suporta. Ou então, tem repugnância. Ou melhor, nojo! Isso você afirmou hoje. (Bruna)
   - Tenho nojo de atitudes que você toma e isso sempre ficou bem claro pra você, nunca escondi. (Lucas)
   - Eu às vezes me arrependo de certas coisas, mas depois caio na tentação novamente. Eu não sei o que fazer com minha vida, de verdade. (Bruna)
   - Acho que daqui pra frente, tem que pensar no bem estar do bebê e no seu. Faz idéia que daqui a alguns meses você vai ser mãe? Essa é a melhor coisa que acontece na vida de uma mulher. (Lucas)
   - N-não consigo s-sentir isso… (Bruna afirmou com a voz embargada)
   - Isso acontece com algumas mulheres, uma certa rejeição, mas tenho certeza que quando você ver a carinha dele, tudo vai mudar. O mundo será mais colorido pra você. (Lucas afirmou sorrindo e limpando a lágrima que acabara de escorrer pelas bochechas rosadas dela)
   - A-acho que você será melhor d-do que eu, você está f-feliz em ser pai, eu não e-estou feliz em ser mãe. N-não consigo, de verdade… (Bruna)
   - Calma que no final tudo melhora, tenho certeza que você vai aprender a amá-lo. (Lucas)
   - E-eu já o faço s-sofrer muito… (Bruna)
   - Ele sabe que você está confusa, com sentimentos embaralhados, mas que no fundo o ama muito. (Lucas)
   - V-você não entenderia… (Bruna)
   - O que você está querendo me dizer? (Lucas)
   - N-nada… (Bruna afirmou abaixando a mirada)
   - Você tentaria algo pra impedir o fluxo normal dessa gravidez? (Lucas perguntou direto)
   - O q-que? (Bruna deu-se por desentendida)
   - Aborto, Bruna. Interromper uma gravidez de maneira errada. (Lucas)
   - N-não. (Bruna gaguejou)
   - Tem certeza disso? (Lucas)

   Bruna limitou-se a ficar calada. A consciência batia pesadamente e ao mesmo tempo, ser sincera não teria bons resultados, aliás, teriam péssimos resultados, ainda mais pra uma relação como a dela e de Lucas. Fora que ela tinha certeza que Lucas abominava qualquer pratica ilegal sobre aborto, aliás, em qualquer hipótese.

   - Eu prefiro que me diga a verdade, mesmo que seja a coisa mais baixa de todo o mundo. (Lucas afirmou sério)
   - E-eu preciso dormir, e-estou mal. (Bruna desconversou)
   - Bruna, não tente mudar de assunto. (Lucas)
   - Lucas, p-por favor… (Bruna)
   - Você só está afirmando que já tentou sim, interromper essa gravidez. Está bem claro… (Lucas)
   - N-não coloque palavras em minha boca. (Bruna)
   - Bruna, te conheço bem, por mais que pense ao contrário, te conheço. (Lucas)
   - EU NÃO TENTEI ABORTAR… (Bruna esbravejou gritando)
   - Ok, não precisa gritar. (Lucas)
   - D-desculpa… (Bruna)
   - Não se preocupe, agora melhor descansar. (Lucas)
   - P-preciso dormir mesmo. Boa noite e obrigada pela conversa. (Bruna)
   - É sempre bom conversar, boa noite. (Lucas afirmou sorrindo e beijando-a na bochecha)

   
“Têm coisas que realmente passo a não querer fazer, antes mesmo brigado eu a beijaria na boca, um simples selinho… Hoje, já não consigo mais fazer!”

   Mas a vontade de escorregar a mão pelo ventre dela, não se prorrogou muito. Antes de cobri-la, apenas um toque já o fez ter um fim de noite melhor. Bem, pelo menos a tranqüilidade se fez presente.

   Lucas levantou e foi na direção da sala de estar que tinha na suíte luxuosa.

   - E-eu tentei… (Bruna sussurrou chorando)

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