sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Três.

   Lucas respirou fundo e virou sentando-se na cama novamente.

   - Vamos combinar uma coisa? Você faz uma lista de como um homem tem que agir e ser perfeito, depois me passa. (Lucas)
   - Não quero que mude, quero que continue sendo assim do jeito que é. (Yasmin afirmou deslizando os dedos pelo rosto dele)
   - A cada minuto você vem com uma novidade. (Lucas)
   - É a minha proteção. (Yasmin murmurou suspirando)
   - Por que você quer se proteger de mim? (Lucas)
   - Estou muito envolvida… Isso me assusta. (Yasmin)
   - Deixe fluir, que o dia de amanhã veremos como será. Não programe algo que nem você mesma sabe como será. E às vezes um relacionamento perfeito, se destrói bem mais do que o imperfeito. (Lucas)
   - Não quero viver nada perfeito, isso não existe, mas eu não quero temer às coisas, como temo. (Yasmin)
   - Relaxa Yasmin. Eu não tenho a mesma índole do seu tio… Eu posso não ser o exemplo de ser humano, mas não sou um crápula igual ele. (Lucas)

   Yasmin engoliu em seco as palavras dele, somente ouvir falar algo a respeito de seu tio, a fazia entrar em choque.

   - P-por que ta falando dele? (Yasmin perguntou com a voz entrecortada)
   - Primeiro porque você está idealizando que todos os homens são iguais a ele, e pra você ver como é dolorido quando cutucam sua ferida. (Lucas)
   - O que ele me fez p-passar é bem pior d-do que todos os seus problemas juntos. (Yasmin rebateu)
   - Sabe por que você acha isso? Porque você sentiu na pele. E eu também sinto na pele todos os problemas que tenho. Sei que a proporção da gravidade entre nossos problemas, são bem diferentes, mas cada um sente a sua dor. Logo temos que saber apontar alguma coisa no outro, porque na maioria das vezes e eu arriscaria que em todas elas, temos telhado de vidro, sendo assim não podemos jogar pedra no dos outros. (Lucas)

   
   Lucas havia acertado-a de cheio e no ponto vital. Ela suspirou engolindo o choro… Sabia que nessa de “proteção”, havia falado demais e nem se preocupou que com isso ela o magoaria. Conclusão, havia sido egoísta e isso é um dos pontos que mais deve-se abandonar quando se tem um relacionamento a dois, logo pôde concluir que antes de querer apontar algo de errado em alguém, tem que ver que o outro é como um espelho que reflete suas maiores fraquezas.

   - D-desculpa. (Yasmin sussurrou respirando fundo)
   - Min, eu sei que eu não tenho metade da sua coragem, já que você largou seu país e sua família pra viver num país totalmente oposto dos seus costumes, apesar de estar na mesma religião. Eu me orgulho por estar ao lado de alguém assim, que está me ensinando a ser um pouco mais verdadeiro e a tentar fazer o que quer, juro que estou fazendo o meu máximo, e acho que tenho resultados positivos até o momento. Está sendo difícil engolir meus traumas, mas eu ainda vou ser o cara perfeito pra você. (Lucas)
   - Eu não quero ninguém perfeito, eu s-só quero poder recomeçar a minha vida sentimental. Me perdoa, eu n-não sei agir com as palavras. (Yasmin murmurou com os olhos cheios de lágrima)
   - Nós dois estamos frustrados com o amor, vamos fazer o seguinte… Vamos juntos superar isso tudo, não importa as cabeçadas que daremos pelo caminho, o importante é seguirmos juntos. Eu preciso disso, a minha dependência por você está aumentando a cada dia e confesso que também me assusto, mas eu não quero fugir, eu quero viver isso e sei que se não viver, vou surtar. (Lucas)
   - T-também quero viver… (Yasmin)
   - Então abre seu coração pra mim. (Lucas)

   Yasmin respirou fundo. Era tão complicado poder afirmar pra alguém o quanto ela estava apaixonada, depois de tantas desilusões em vários aspectos de sua vida. Amor era algo que ela guardava dentro de si, principalmente quando os flashes invadiam sua mente, atormentando-a. Mais um segredo, mais um trauma.

   
Thiago era uma pessoa que Yasmin acreditava ser seu futuro. Não sabia afirmar se ele era o amor de sua vida, mas era apegada a ele e sabia o quanto poderia afetar-se caso aquele relacionamento não fosse pra frente. Assim como ela, sua família era de tradições islâmicas, porém não egípcios, e sim marroquinos. Relacionamento que era aprovado pelas famílias, afinal as tradições religiosas seriam seguidas, mas entre os dois, seria o modo ocidental. Sem grandes radicalismos. Mas algo que deveria ser crucial entre os dois, acabou não sendo. Bem, por parte dele e motivo suficiente pra Yasmin sentir o coração despedaçado, pois o amar dela, era o confiar cegamente e achar que jamais seria passada pra trás. Os olhos encheram-se de lágrimas quando ela entrou naquela igreja católica. Apenas duas pessoas na frente do padre. Thiago de mãos dadas com uma mulher, fazendo juramentos de casamento numa religião oposta à sua e ainda comprometido com ela. Não foi o fato de ser numa igreja católica, foi vê-lo enganar a todos e enganado seu coração.

   Yasmin nunca foi do tipo de julgar os outros, talvez eles estivessem apaixonados e isso era algo que não existia entre ela e ele. Havia uma confiança incrível e talvez seja isso que a tenha feito sofrer, pois a decepção teve proporções gigantescas. E como confiaria em algum homem? Era tão difícil, mas agora as coisas eram de certa forma opostas. Yasmin não estava tão entregue à Thiago no sentido do amor, como estava com Lucas e ele havia dado provas suficientes de que também estava entregue. Havia sido grossa por uma defesa, mas sabia que ele não era culpado por suas frustrações, mas temia muito se entregar uma vez mais e mais pra frente, a decepção bater novamente em sua porta. Mas teria que arriscar.

   - E-eu já abri… E e-espero que você cuide bem dele. (Yasmin sussurrou sincera)

   Lucas abriu um lindo sorriso e puxou-a para um abraço, encostando a cabeça dela em seu peito, deixando-a escutar as batidas frenéticas de seu coração.

   - Sei que tem vários traumas, Odalisca. Que nunca sua vida foi um mar de rosas, mas peço que confie em mim, pois eu quero progredir como ser humano e sei que você é a pessoa certa pra me oferecer isso. Fora que quero amar, de verdade. Sem loucuras como já cometi, sem irresponsabilidades. Eu decidi que você tem que estar do meu lado, isso pra mim é essencial hoje em dia, assim como a felicidade de meu filho. Mas eu preciso de um voto de confiança. (Lucas pediu ainda abraçado à ela)

   Escutou apenas um suspiro que ele jurava ser o princípio de um choro e estava certo. Em silêncio, mas de um modo que cortava o coração dele.

   - Meu coração parte em cinco pedaços, quando eu te vejo chorando. Isso me faz um mal imenso. (Lucas)
   - D-desculpa. (Yasmin sussurrou tentando evitar a voz embargada)
   - Pode desabafar o quanto quiser, sei que necessita de um ombro. Mas não se desespera tanto, porque daqui pra frente estaremos juntos, em tudo. Pequena! (Lucas)

   Ele puxou o rosto dela pra cima, desenhando coisas com as pontas dos dedos, acariciando cada parte e fazendo o coração dela explodir de uma felicidade que superava todas as suas expectativas. Um sentimento forte gritando dentro de seu peito e uma vontade imensa de se precipitar quanto à palavras, mas segurou pra não botar os pés pelas mãos. Sabia que aquilo estava entalado em sua garganta, mas enjaulado em seu peito. Demonstrando, Yasmin o puxou pela nuca deliciando-se nos lábios dele. Terminaram pela madrugada, podendo provar novamente da pele e do calor alheio.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Dois.

   - M-medo… (Yasmin sussurrou num fio de voz e abaixou a cabeça)

   Lucas por segundos a analisou. Pegou em uma de suas mãos e com a outra livre, tocou no queixo dela fazendo-a olhar em seus olhos.

   - Medo do que? (Lucas)
   - De me decepcionar. (Yasmin)
   - Você acha que eu seria capaz de te decepcionar? (Lucas perguntou sério)
   - Nenhum ser humano é perfeito, todos nós erramos e não temos a noção da proporção de mágoas que deixamos nas pessoas. Não estou dizendo que você fará isso, mas temo pelo incerto. (Yasmin)
   - Nossa relação é incerta? (Lucas)
   - Ela começou incerta e é na estaca zero que traçamos a linha de algo. Já que se começa errado, é muito difícil conseguirmos endireitá-lo. (Yasmin)
   - Senti um tom pessimista e bem frio no que você acabou de falar. (Lucas)
   - Esse é o meu esconderijo. (Yasmin)
   - Posso ser verdadeiro e falar uma coisa? (Lucas)
   - Quero que sempre seja e pode falar sim. (Yasmin)
   - Você é uma incógnita. Tem um mistério dentro de você que ao mesmo tempo em que me fascina, me incomoda. Sério, eu jurava que se eu falasse sobre namoro você iria aceitar, mas olha como você fala. (Lucas)

   - Eu estaria mentindo se falasse o contrário. (Yasmin)
   - Me responde quem é você… (Lucas)
   - Eu não sou uma princesa e estou longe de ser, acho que nunca nem fui aspirante a isso. Não me encaixo no estereótipo “perfeito” de uma mulher islâmica e também não sou a nativa brasileira Certas atitudes minhas eu também não consigo entender, talvez sejam impulsos, mas é o que meu coração manda fazer. É difícil entender, mas se isso te incomoda, prova que não daríamos certo como namorados. (Yasmin)
   - Isso me incomoda, mas não ao ponto de não aceitar. E eu não procuro uma princesa, Yasmin. Eu procuro uma mulher que consiga me fazer feliz e que me ame de verdade. Não que se importe com dinheiro ou derivados, mas que esteja comigo pelo o que eu sou e acredite, também sou uma incógnita. (Lucas)
   - E sabe qual o meu maior medo de verdade? Você se deixar manipular mais uma vez e não ser homem suficiente pra tomar uma atitude. (Yasmin alfineto
u)

   No mesmo instante ele soltou a mão dela e Yasmin jurou ver um orgulho ferido em seus olhos. Já estava esperando um grito dele ou então que ele a largasse naquele quarto e não aparecesse nunca mais. Palavras eram como tapas na cara, ainda mais faladas pra homens.

   - E depois eu que posso te decepcionar? (Lucas perguntou em tom de ironia)
   - Pode jogar na minha cara tudo que você acha errado em mim, porque eu não vou te poupar de nada. (Yasmin)
   - Depois dessa, se eu tivesse vergonha na cara eu saía daquela porta e voltava pro Brasil pra nunca mais voltar. (Chris)
   - Não é não ter vergonha na cara, é enxergar que você tem que ouvir críticas e aceitá-las quando são do bem. Eu não quero um relacionamento de mentiras, entenda isso. (Yasmin)
   - Ok, não quer um relacionamento de mentiras, mas também não precisa ser um relacionamento de pauladas. Uma em cima da outra. (Lucas)
    - Você considera verdades como pauladas? Então, assim nomeie, mas não espere de mim uma coisa que jamais farei, que é passar a mão na sua cabeça. (Yasmin)
   - Cutuca bastante a ferida. (Lucas)
   - Cheguei onde eu queria. Você não é capaz de agüentar dois segundos o meu gênio. Achou que eu seria sempre a Odalisca cheia de sorrisos e carinhos? (Yasmin)
   - Só me explica uma coisa, por que essa revolta toda de repente? (Lucas perguntou rindo de nervoso)
   - Não é revolta, estou te testando. (Yasmin)
  - Ah claro, grande teste você jogar as coisas na minha cara, sendo que larguei meu casamento e vale lembrar que estava casado com uma mulher grávida de um filho meu, e tudo isso por causa de você. (Lucas rebateu)
   - Pense que foi por você. (Yasmin)
   - Aonde você quer chegar com todo esse papo? (Lucas perguntou levantando-se da cama e encostando-se à parede mais próxima da cama, cruzando os braços no peito)
   - Se você quer algo sério, acredite, é recíproco. Eu também quero… (Yasmin)
   - Pois não parece, já que de uma hora pra outra você resolveu me atacar. (Lucas)
   - Não estou te atacando, Lucas. Pelo contrário, estou fazendo algo que há muito tempo deveriam ter feito por você. Falar verdades na sua cara. (Yasmin)
   - Ta bom, já deu. Isso está me irritando profundamente e eu não quero estourar com você. (Lucas afirmou voltando pra cama e enfiando-se debaixo das cobertas)
   - Vai me ignorar? (Yasmin)

   Não obteve resposta e automaticamente os olhos encheram-se de lágrimas. Todo esse questionamento e as verdades ditas tête-à-tête eram como uma defesa pra ela manter-se protegida dentro daquele relacionamento. Óbvio que não falaria de um jeito tão grosseiro aquelas coisas, mas precisava manter certa pose pra que seu coração não fosse dilacerado. Estava entregue demais a Lucas e uma escorregada qualquer dele, causaria estragos terríveis em seu coração.

   - Lucas? (Yasmin)
   - Que? (Lucas perguntou sem vontade)
   - Vira pra mim. (Yasmin)
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Um.

   Lucas sorriu olhando-a nos olhos e carinhosamente lhe beijou os lábios. Yasmin arrumou o vestido e sentou-se na areia da praia perdendo os pensamentos ao olhar o mar. Ele abraçou-a por trás e a fez encostar a cabeça em seu tórax.

   - Sabe, eu adoro ficar em silêncio na frente do mar. É gostoso escutar o barulho das ondas batendo contra as águas. (Lucas confessou respirando fundo)
   - O mar é reflexivo. Ele ao mesmo tempo em que te faz bem, te deixa melancólico. (Yasmin)
   - Por que está dizendo isso? (Lucas)
   - Me bateu uma melancolia de repente. Nunca contei a ninguém isso, mas eu sinto quando as coisas não vão bem! (Yasmin respondeu desencostando a cabeça do peito dele e virando à sua frente)
   - Nem pensa nessas coisas. Está tudo bem entre você e eu e continuará estando. (Lucas falou pegando-a pelo rosto e lhe beijando a testa, em seguida encostou novamente a cabeça dela em seu tórax)

   Yasmin suspirou e fechou os olhos desfrutando do cafuné que ele lhe fazia nos cabelos. Sorria despercebidamente e seu coração, explodia de um sentimento novo. Alguns minutos depois de todo o silêncio, Lucas sussurrou baixinho no ouvido dela.

   - Está com sono? (Lucas)
   - Um pouquinho. (Yasmin)
   - Quer subir agora? (Lucas)
  - Acho melhor, senão vamos acabar dormindo aqui. (Yasmin respondeu sorrindo e desencostando-se dele)
   - Não que seria mal dormir a luz do luar, mas essa areia já está impregnada em nós dois e precisamos descansar pra aproveitarmos bastante essa viagem. Vem! (Lucas falou levantando-se do chão e estendendo o braço pra ela)

   Yasmin sorrindo pegou na mão dele e levantou. E antes que fossem caminhar em direção do hotel, Lucas puxou-a pela cintura e lhe deu mais um beijo embaixo do lindo céu estrelado que despontava naquela noite. Andaram de mãos dadas e subiram as escadas em meio à risadas, já que Lucas contava algumas histórias engraçadas dele com Helen. Depois de um relaxante banho, os dois estavam preparados pra dormir, porém Yasmin havia ido pro banheiro e saiu alguns minutos depois.

   - Pronto. (Yasmin afirmou sorrindo e sentando na cama, em seguida deitou)
   - O que foi fazer? (Lucas perguntou apoiando-se pelos cotovelos)
   - Rezar. (Yasmin)
   - No banheiro? (Lucas perguntou sorrindo)
   - É. Não poderia rezar de camisola curta na frente de um homem. Bem é meio hipócrita da minha parte já que meu corpo não está tão puro, mas é a tradição. (Yasmin respondeu rindo)
   - Uma das coisas que acho total ignorância, não somente no Islamismo, já que outras religiões também pregam isso. Essa de virgindade, sexo antes do casamento e tal. Não é pecado transar, pelo contrário, através disso as pessoas se reproduzem. (Lucas)
   - Na verdade pros homens não é pecado, já que só a mulher tem que casar virgem. E eu concordo com você, já que tem muita virgem que é bem pior do que mulheres que tem vida sexual ativa, mas tradição nós não podemos discutir, temos que aceitar e cumprir. Bem, não quando estamos falando de Yasmin Rosa. (Yasmin falou rindo)

   - Você quebra regras, mas o mais importante você carrega que é a filosofia e o ideal da sua religião. Já te falei que acho o Islamismo uma das religiões mais ricas em cultura e que tem uma mensagem linda. E também percebi que não é tão radical como eu achava. (Lucas)
   - Fico feliz que alguém consegue absorver a verdadeira essência da minha religião, ainda mais com toda essa guerra santa que suja o nome dos muçulmanos. E fico mais feliz por esse alguém ser você. (Yasmin)

   Lucas parou por alguns minutos e ficou analisando-a.

   - Que foi? (Yasmin)
   - Você é carinhosa e isso é o que mais eu sentia falta nas mulheres que já tive. (Lucas)
   - Te provei hoje que meu grau de carinhosa às vezes é esquecido. (Yasmin)
   - Você não é perfeita, assim como eu também não sou. Garanto que quando eu der meus ataques, você vai querer me mandar de volta pro Brasil. (Lucas falou rindo)
   - Homens não me intimidam. (Yasmin)
   - Olha que abusada! (Lucas)
   - Brincadeira. Mas não sou do tipo que desiste no primeiro obstáculo, logo se você der algum show eu também darei e teremos que resolver na porrada e depois em beijos. (Yasmin)
   - Combinado. Adoro uma coisa selvagem e sensual. (Lucas brincou maliciosamente)
   - Para! (Yasmin falou sorrindo e sentindo as bochechas ruborizarem)
   - Para de ter vergonha de mim, sabe que não precisa. (Lucas)
   - É inevitável. (Yasmin)
   - Acho lindo isso em você, mas namorados não devem ter vergonha um do outro. (Lucas)
   - Namorados? (Yasmin perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas e suspirando fundo com a surpresa ao escutar essa palavra da boca dele)

   Um silêncio perturbador surgiu no quarto. Claro que não por fugir de certas responsabilidades já que ambos já estavam vivendo uma vida de namorados. Precipitada ou não, estavam. Mas claro que ainda existiam certos “porém's” que talvez atrapalhassem assumir tal coisa. Aquela velha história de namoro às escondidas?

   - Nunca pensou nessa possibilidade? (Lucas perguntou cortando o silêncio)

   Yasmin parou alguns segundos pensando na resposta que daria a ele. Claro que toda mulher sonha com um amor, bem, quase todas já que generalizar não seria o certo, mas existem como dito anteriormente, alguns “porém's” que fazem com que esses sonhos afundem. São como desilusões antecipadas, talvez podemos considerar uma premonição. Existem traumas que marcam e que nos obrigam a nos fechar num calabouço escuro e frio. Uma proteção contra o mundo que no final das contas torna-se uma prisão. Fugir de sentimentos e coisas relacionadas. Talvez o sexo não tenha sido seu maior trauma com relação a um passado que praticamente destruiu sua vida, apesar de não consumado, mas a confiança nos homens ainda esteja afetada, mesmo que se encontre apaixonada por esse homem. Conclusões abstratas, mas que passavam pela mente pensativa de Yasmin.

   - Por que o silêncio? (Lucas perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa.

  Marcelo já em sua casa, olhava repetitivamente o e-mail que havia escrito e enviado. Seria o primeiro passo pra sua cartada contra Yasmin. Era obsessão e sua mente que às vezes lhe dava flashes de sanidade indicava isso, mas a também mente fraca não saberia reagir. A doença estava impregnada em sua pele e nenhum remédio conseguiria lhe curar.
   Sua esposa aproximou-se sedutoramente e passou a delicada mão em seu peito. A repulsa que sentia fez com que seu estômago embrulhasse e violentamente levantou-se da cadeira, mas a imagem refletida lhe fez recuar automaticamente. Yasmin. Estava ali no lugar de sua esposa. Sedutora, linda e do jeito que ele sempre sonhara em ter, como uma doce garota submissa cumprindo todas as ordens sexuais que ele impunha.
   Pegou com força os cabelos pretos e os apertou na mão, cheirando-os e sentindo o quanto seu corpo já correspondia àquilo. Sem pensar muito, rasgou com violência a camisola e explorou o quanto pôde do corpo de “Yasmin”. Ouvia gritos e leves indícios de choro, mas não se importava com nada, apenas com seu próprio prazer. E quando terminou arregalou os olhos e franziu o cenho com ódio. Era apenas sua esposa e não Yasmin.
   Sentiu náuseas e covardemente jogou-a no chão, contendo a vontade de dar-lhe um tapa no rosto. Estava completamente descontrolado. Levantou da cama e pegou a roupa que havia deixado sobre a cadeira, bateu a porta com força e caminhou rumo à saída, deixando sua esposa aos prantos no chão.

   Andava nas ruas e tudo parecia lhe engolir. Estava louco! Louco de ódio e louco de amor. Um amor fatal que estava consumindo sua sanidade e seu bom senso. Estava obcecado. Sentou-se em um banco e imagens de Yasmin dançando lhe invadiam a mente, cruzando com imagens dela com Lucas perto do carro. Maldição. Esfregou as mãos no rosto e engoliu em seco, sentindo a leve brisa bater em sua pele. Estava arrepiado e não de frio, já que mesmo com a brisa, o calor estava insuportável. O arrepio era de um temor camuflado dentro de si. O temor de enlouquecer perante a ela.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Nove.

   O pó branco estava caído sobre o papel que indicava algumas coisas sobre o bebê. Havia ido ao médico alguns dias depois de sua “tentativa” de suicídio. Aliás, sua fracassada tentativa. Seus olhos estavam estalados não apenas pelo resultado não tão positivo, mas também pelo efeito instantâneo da droga. Cocaína.
   Bruna há anos ingeria drogas de diversos tipos, mas seu vício sempre fora cocaína. Algo que ela sofria diariamente de abstinência, pois desde que engravidou foram poucas vezes que havia ingerido pelas narinas tal entorpecente. Sentia-se culpada sempre que fazia isso, mas nada mais poderia ser feito, já era uma viciada que ansiava poder ter a paranóia com aquele pó tão prejudicial.
   Arrumou novamente mais uma carreira e fechou os olhos sentindo como eles umedeciam automaticamente, era o pranto de sua alma que cada vez mais estava no lixo. Mas algo dentro de si a fazia pensar apenas em vingança e já que não se pode ter um casamento de volta, faça-o sofrer e onde mais lhe dói. Pegou o corpo da caneta sem a carga e aproximou-o do nariz, foi de encontro à carreira e respirou fundo, sugando a droga pelo nariz e sentindo a cartilagem quase desfeita queimar e em poucos segundos sua mente e seu coração aceleraram mutuamente. Sentiu um chute na barriga e os olhos umedeciam ainda mais. Culpa e ódio andavam juntos em seu coração, mas a mente fraca a impedia de desistir de qualquer coisa.
   Encostou a cabeça no travesseiro e esticou as pernas desfrutando do efeito drástico, mas também sentindo como as paredes lhe fechavam num mundo paralelo. Transpirava e se não fosse sua experiência, certamente estaria desmaiada ao chão. Queria correr e gritar, rir sem freios e poder fechar os olhos na psicodélica energia que o efeito lhe causava. Estava no auge e mal sabia que aos poucos sua razão seria afetada e também levaria para o buraco pessoas inocentes.

   O notebook estava aberto sobre a cama, pequenas janelas subiam lhe indicando novos e-mails, mas ainda não tinha forças pra conseguir ler algo e entender. Continuava desfrutando do que a droga lhe proporcionava. Apesar de todo o mal envolto, ela a fazia esquecer de que Bruna era um ser humano complicado e cheio de defeitos. Parecia que depois que inalava, conseguia enxergar-se perfeita.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Oito.

   Ela olhava pela sacada a imagem dele sentado na areia branca e fina. Lucas sempre fora amante da praia e estava a alguns minutos vendo o mar. Saiu após a conversa sobre o hotel com Yasmin. Bem, ainda estavam um pouco afastados. Mas Yasmin queria mudar isso e se redimir. Sabia que havia pegado pesado com ele, tudo bem que ele tentou mexer com algo que estava fechado dentro dela e abri-lo novamente era um trauma, mas foi feito de boa vontade e havia sido ignorante demais. E uma qualidade ela tinha, apesar de orgulhosa, ela sabia voltar atrás e pedir desculpas.
   Saiu do quarto arrumando o vestido branco que usava, era comprido e com uma fenda comportada até o joelho. Havia trocado assim que Lucas saiu do quarto. Foi andando devagar pensando em como falar com ele, bem, estava envergonhada. Ao sair pra parte externa do hotel, foi caminhando na direção da praia que era há poucos passos. Logo o viu, com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Observando. Sentou com cuidado atrás dele e mesmo sem virar o rosto, ele esticou um braço pra trás e ela pegou na mão dele.

   - Lu? (Yasmin)
   - Hum? (Lucas)
   - Desculpa! (Yasmin exclamou encabulada e apoiando o queixo no ombro direito dele)

   Lucas deu um pequeno sorriso e com a outra mão, acariciou os cabelos dela.

   - Vem aqui. (Lucas falou puxando-a pra frente e a fazendo sentar em seu colo)

   - To envergonhada. Fui ignorante sem motivo algum. (Yasmin)
   - Vou confessar que fiquei surpreendido. Entendo sinceramente sua situação, mas apesar de não ser o rei da atitude, acho que enfrentarmos o problema é a grande solução de tudo. E sei lá, você sempre foi muito carinhosa, mas desconfiava que por trás dessa carinha de anjo, existia um furacão. (Lucas)
- Eu não quis ser grossa, juro. Odeio esse meu temperamento em certas situações, porque sempre sou explosiva com quem não merece e com quem merece eu me limito. (Yasmin)
   - Quem é esse imbecil que está merecendo ser maltratado? Me conta que eu arrebento a cara dele. (Lucas)

   Yasmin sorriu e acariciou de leve o rosto de bebê que ele tinha, recebendo em troca um sorriso cúmplice.

   - Desculpa, de coração. (Yasmin)
   - Desculpo, porque sei que no seu lugar eu faria o mesmo. É difícil superar uma coisa quando um idiota te pega de surpresa. (Lucas)
   - Você não foi idiota, pelo contrário, fez uma demonstração linda de carinho. Essas coisas marcam no meu coração. (Yasmin)
   - Só isso que marca no seu coração? (Lucas)
   - Não. As pessoas que praticam esses atos também. (Yasmin)

   Lucas ficou sério olhando pra ela por alguns instantes. Uma leve brisa fazia os cabelos ondulados e negros voarem contra o rosto dela e a maneira como ela tentava contê-los, era sedutora e inocente ao mesmo tempo. Fora que sem querer, ela se ajeitou no colo dele triscando em uma parte sensível dele, o fazendo soltar um suspiro pelo contato. Ela claro ficou com o rosto ruborizado.

   - Você continua tendo vergonha de mim. (Lucas falou sorrindo e acariciando as bochechas dela)
   - Isso tudo é muito novo pra mim. Não falo apenas de sexo, falo de tudo. Nunca mantive um relacionamento tão sério, apesar de ter começado de uma maneira não tão normal. E são muitas transformações de sentimentos. Não sei, ta uma bagunça o meu cérebro. (Yasmin)
   - Então nunca namorou sério? (Lucas)
   - Tive um relacionamento um pouco sério. E não é por questão de não ter sexo, é porque ele não me levava a sério, apesar de ser muçulmano. Me decepcionei. (Yasmin)
   - Você gostou muito dele? (Lucas)
   - Na verdade eu confiei muito, porque depois percebi que amor passou longe. E olha que ele era bem aceito por minha família. (Yasmin)
   - A sua família me odiaria não? (Lucas)
   - Meu pai adorava qualquer pessoa que me fizesse feliz, assim como minha mãe, mas claro que no fundo existe aquela preferência por um homem da mesma religião que a minha. (Yasmin)
   - Se você fosse de uma família tradicional e eu aparecesse na sua vida assim como aconteceu, o que você faria? (Lucas)
   - É difícil eu afirmar isso, já que não tenho o mesmo pensamento de uma garota muçulmana submissa, mas creio que sentimento fala por tudo. E apesar de serem obrigadas, qualquer muçulmana carrega dentro de si muito amor. (Yasmin)
   - Eu te seqüestraria. Juro. (Lucas afirmou sorrindo)
   - E eu fugiria. (Yasmin)
   - Engraçado como algumas pessoas fazem nossa vida dar um giro de 360 graus. Depois que te conheci eu me sinto um homem diferente. Um Superman. (Lucas brincou)
   - Então quer dizer que eu sou a sua criptonita? (Yasmin perguntou rindo)
   - Pode ter certeza que sim. (Lucas)
   - É uma honra. Fico muito feliz por saber que ajudei um ser humano e que com isso ganhei um presente. É difícil morar longe do seu país, das pessoas que você ama e tal, mas apesar de estar longe é bom saber que temos um alguém que mesmo longe estará perto através do coração. (Yasmin)

   As palavras foram retribuídas com uma delicada e sedutora mordida em seu lábio inferior. Sem perceber ela acabou suspirando com aquilo, eriçando Lucas a querer mais. Em meio a beijos molhados e passadas de mão um pouco mais insanas, ele lentamente foi deitando-a na areia e ficando por cima dela, levantando um pouco o vestido dela pra poder encaixar-se perfeitamente.

   - L-lucas… aqui? (Yasmin perguntou encabulada)
   - Essa praia parece ser deserta e eu gosto desse contato íntimo perto do mar. (Lucas)
   - É um pouco estranho. (Yasmin)
   - Não! É maravilhoso, Odalisca. É estranho quando não temos o par ideal pra fazer isso, mas te prometo que você vai querer repetir mais vezes e que vai acabar se rendendo e arrancando a minha camisa, como suas mãos querem. (Lucas sussurrou no ouvido dela enquanto sentia as mãos trêmulas dela dedilharem a barra de sua camisa)

   Ajudando-a, ele desabotoou os botões e ela um pouco mais entregue tirou a camisa e segurando a vontade de passear com os dedos pelo peitoral definido dele.

   - Não contenha suas vontades. (Lucas sussurrou pegando a mão dela e colocando no peito dele)

   A falta de experiência e a timidez em excesso ainda faziam Yasmin travar um pouco no começo, mas nas duas vezes em que havia desfrutado com Lucas do prazer recíproco, ela sentia que era apenas um olhar sincero e sedutor dele, que ela se entregava do jeito certo pra poder delirar sob o corpo dele.

   - Eu preciso te falar uma coisa… (Lucas falou abaixando-se novamente e aproximando os lábios do pescoço dela)
   - O q-que? (Yasmin gaguejou fechando os olhos e involuntariamente agarrou os cabelos dele)
   - Eu to louco por você, e já estou quase largando o Brasil pra ficar aqui do seu lado… (Lucas confessou)

   Yasmin sentiu o coração explodir de batimentos cardíacos. Ouvir aquelas palavras da boca de Lucas eram como um incentivo pra ela insistir nessa loucura chamada amor. Sabia que estava se arriscando além do que era sano, mas cada passo que dava era a certeza de que pela primeira vez na vida, um homem a faria feliz, e esse homem não era o pai dela já que muitas vezes acreditou que somente o amor paterno era o único amor transmitido por um homem. Palavras não precisariam mais ser ditas. Atos e toques diriam por si só. E não apenas tratando-se de saciar desejos, tratando-se de aumentar a níveis elevadíssimos sentimentos que em meio à construção, ganhavam novos patamares e caminhos ainda mais longos, já que tudo que é verdadeiro, passa por testes. Ora fáceis e ora difíceis.
   Pra não deixá-la ainda mais constrangida pelo local, apesar de ser mágico fazer amor à luz da Lua, Lucas não tirou o vestido dela. Apenas o ergueu um pouco acima da barriga e abaixou as alças, conseguindo explorar os seios fartos com os lábios, algo que conseguia tirar Yasmin do real, levitando-a ao começo do que se chama prazer. Em meio a esse envolvimento, palavras carinhosas e sensuais eram sussurradas ao pé do ouvido dela e olhares que eram trocados quando sentiam que não mais podiam resistir. Era a necessidade da pele do outro, do cheiro camuflado, do toque carinhoso e forte provando o quanto àquele ato conseguia desvirtuar a sanidade de duas pessoas. A cumplicidade de poder desfrutar junto de sensações agudas e sentimentos mútuos. Não somente o sexual, mas também o sentimental.
   Yasmin ainda sentia-se um pouco desconfortável ao tê-lo dentro de si, mas com jeito Lucas conseguia transformar tudo aquilo em sensações deliciosas. E nessa hora ela conseguia perder a timidez e jogar pra fora tudo o que tinha vontade de fazer. Até mesmo gritar o prazer que ardia por suas veias e escutar o eco pelos ares enquanto o suor escorria por seu corpo e a fazia ficar ainda mais unida a ele, fisicamente falando. Mais incentivo pra ele continuar investindo todo seu potencial no pequeno corpo que o fazia ter dimensões estendidas de prazer. E quando já não mais suportavam, desentalaram o grito preso na garganta e suspiraram aliviados por terem conseguido juntos, chegar aos picos mais altos de um ato quente de amor. E involuntariamente ele conseguia ver flashes do que ela era pra ele. A muçulmana misteriosa que apenas com véus, conseguiu roubar seu coração. Era inevitável pensar nela dançando e jogando o olhar enigmático pra quem passasse ao seu lado. Isso era a maior fantasia sexual dele, a Odalisca.

   “Existe uma chama que começa com uma pequena faísca, dizem que essa faísca se chama atração física, mas a chamo de troca de olhares verdadeira. Depois essa chama vai sendo alimentada e seu fogaréu vai elevando-se em proporções e graus mais altos. Diríamos que ao ponto de você confessar algo pro amado ou o principal, pra si mesmo. A terceira fase da chama pode ser chamada de concretização ou ruína. Já que pra alguns a chama pode fazer com que o alimento seja preparado pra que venhamos a comer, mas também podemos levar em consideração que você pode se queimar ou transformar sua alma em cinzas.”
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Sete.

   Nem precisa ser comentado que durante todo o caminho seguiram calados não é mesmo? Nem o rádio havia feito sua parte, já que Lucas nem se deu ao trabalho de ligá-lo e também não iria entender muita coisa. Apesar de não conhecer nada do local, Lucas seguiu corretamente passo a passo o mapa, conseguindo três horas depois chegar ao Canal de Suéz. Havia recebido uma indicação de hotel no final da pequena cidade que residia à beira do canal, pelas fotos ele sabia que era um local paradisíaco e da maneira que ele gostava. Arriscou um olhar pro lado e deu um singelo sorriso ao ver que ela havia adormecido. Fez um cafuné nos cabelos dela e seguiu dirigindo rumo ao tal hotel.
   Uns quinze minutos depois, estacionou o carro em frente ao hotel. Com cuidado abriu a porta pra não acordá-la e foi conversar com um funcionário que ficava em frente à entrada do hotel. A sorte dele, é que pela cidade ter uma ligação com a Europa, constantemente estrangeiros se hospedavam ali e o inglês era uma obrigação de qualquer um que trabalhasse lá. Talvez regra de qualquer hotel mais requintado. Por sorte, o hotel estava vazio e rapidamente conseguiu um local, mas teria que fazer check-in antes. Abriu o porta-malas pra que tirassem as bagagens e abriu a porta de Yasmin, a fim de acordá-la.

   - Min, acorda… (Lucas sussurrou ao pé do ouvido dela)


   Apenas essa tentativa deu certo, já que seu sono naquele instante não estava tão pesado. Yasmin abriu um olho e se arrumou no banco passando uma das mãos na testa.

   - Chegamos e precisamos fazer o check-in. Vem! (Lucas)

   Yasmin apesar de ter acordado, ainda dormia na mente e apenas o seguiu parecendo não assimilar as coisas. Lucas dava os dados deles, enquanto ela observava o hotel, ainda viajando, mas já entendendo um pouco melhor onde estavam. Suspirou ao ver que era de luxo. Aquilo a deixava temerosa, apesar de conviver diariamente no trabalho, mas… Bem, neuroses de Yasmin.

   - Vamos? (Lucas falou após terminar o check-in)

   Yasmin apenas concordou com a cabeça e foram andando. O hotel tinha apenas um andar, com longos corredores onde abrigavam os quartos de luxo. Era um típico hotel praiano, mas com um requinte especial. Os corredores eram na verdade grandes sacadas que mostravam a bela infra-estrutura do lugar, com três piscinas, alguns quiosques e coqueiros com iluminações dando uma decoração romântica ao local. Chegaram em frente ao quarto destinado à eles e Lucas passou o cartão abrindo a porta.
   As malas já haviam sido colocadas no quarto. As paredes eram tão brancas quanto um pedaço de algodão. Em algumas partes tinha detalhes em tom de dourado que combinava com os abajures seguindo a mesma coloração. Tinha uma espécie de anti-sala, com uma grande TV de plasma e um aparente confortável sofá no tom branco, com almofadas que faziam um degradé com tons de marrom e dourado. Tudo combinava perfeitamente, até mesmo o tapete. No quarto mesmo, a cama king size estava coberta por um edredom branco com travesseiros e almofadas entre os tons que seguiam a decoração do quarto. Uma mesa com internet disponibilizada e o banheiro belamente distribuído com um pia gabinete grande, um box de vidro com um chuveiro potente e ao lado a hidromassagem que sempre fora algo que Lucas adorava desfrutar. Conclusão, um quarto de extremo luxo.

   - Gostou? (Lucas perguntou largando as chaves do carro em cima da mesa)

    Yasmin olhava a vista pela sacada e virou-se ao escutar a pergunta dele.

   - Adorei. Esse hotel é lindo e… (Yasmin)
   - E? (Lucas)
   - Luxuoso. (Yasmin)
   - Isso te incomoda? (Lucas)
   - Um pouco. (Yasmin)
   - E por quê? (Lucas)
   - Eu não tenho dinheiro pra pagar um hotel assim. (Yasmin falou sincera)
   - Mas você não vai pagar nada. (Lucas)
   - Mas… (Yasmin)
   - Sem orgulhos Yasmin, por favor. Eu respeitei você quanto a não querer dirigir, então faz pelo menos isso por mim. (Lucas)

   Yasmin engoliu em seco sentindo um tom de mágoa na voz dele.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Seis.

   “Você é do tipo que acredita que com pequenos tijolos construímos edificações gigantescas? Bem… Foi uma metáfora, claro, mas algo que eu talvez não consiga descrever de maneira menos complexa. Algo como um detalhe que venha a ser despercebido ou insignificante. Às vezes não consigo me expressar, mas sei que uma chama está cada dia mais sendo acesa. Eu sei que com fogo podemos nos queimar, mas arriscar faz parte e já não é mais tão proibido!”

   Yasmin sentou no degrau da portaria com a mala ao lado. Havia saído mais cedo do trabalho pra poder conseguir arrumar suas coisas. Era sexta feira à noite e ela iria viajar. Junto com ele. Yasmin havia sugerido o Canal de Suéz, golfo que liga o Mar Mediterrâneo com o Mar Vermelho. Lugar que abrigava alguns oásis e a ligação econômica com a Europa, devido às navegações que ancoravam diariamente na região. Ficava a poucas horas do Cairo e isso deixou Lucas com uma grande vontade de tentar superar alguns traumas de Yasmin.

   - Demorei? (Lucas perguntou sorrindo e encostando-se de braços cruzados no carro)

   Yasmin sorriu levantando-se e foi ao encontro dele, sem perceber beijou a bochecha dele e o olhou percebendo que a feição dele era de uma criança desolada. Brincadeira dele, claro.

   - Que foi? (Yasmin)
   - Beijo na bochecha? (Lucas)

   - Não estou muito acostumada com isso. (Yasmin respondeu sorrindo e mordendo o lábio inferior)

   Aquilo soou tão sexy aos olhos de Lucas, que sem deixá-la reagir, a puxou pela cintura colando seus corpos e invadindo com a língua, os lábios avermelhados dela, fazendo-a ofegar. E sem perceber a apertava com uma vontade tão grande, que se passasse algum islâmico em volta, com certeza seriam condenados ao pior castigo. Bem, pelo menos Yasmin que carregava essa religião nas costas. Foi nesse pensamento que a fez voltar a si e se soltar entre respirações que beiravam a de um asmático. Lucas fechou os olhos recuperando o fôlego e tentando “esquecer” o fato de que havia se empolgado um pouquinho a mais da conta, anatomicamente falando.

   - Eu poderia ser condenada por isso. (Yasmin sussurrou tampando o rosto)
   - Desculpa, me empolguei. (Lucas)
   - Nenhum ato errado desse tipo, é feito sozinho. E não quero que você se enquadre na minha cultura, até porque eu não tenho cultura islâmica, apenas acredito em Alá e no Alcorão. Enfim, quis brincar pra disfarçar a vergonha. (Yasmin falou sorrindo)
   - Eu sabia disso. (Lucas falou abraçando-a)
   - Eu sou muito diferente do que você está acostumado. (Yasmin)
   - É isso que mais me atrai. (Lucas confessou apertando-a nos braços)

   Yasmin suspirou e desfrutou dos carinhos dele em seus cabelos. Tudo era tão confuso que ela sentia-se como uma pessoa bipolar. Num momento estava se agarrando com ele e no outro se lamentava por ser diferente? Enfim, hormônios femininos que são iguais em qualquer etnia ou religião.
Após pegar a bagagem de Yasmin e colocar no carro, Lucas entrou no lado do motorista e virou de lado olhando pra ela que arrumava o cinto de segurança.

   - Você já foi pra lá não é? (Lucas)
   - Uma vez fui com a Nana. (Yasmin)
   - Vocês foram de ônibus? (Lucas)
   - Não. Fomos com o carro do irmão dela. (Yasmin)
   - Eu peguei o guia daqui e apesar de não entender as escritas, no mapa eu consegui entender mais ou menos o caminho, mas creio que você saiba melhor. (Lucas afirmou esticando a mão na direção dela, ele segurava as chaves do carro)

   Yasmin ficou alguns segundos olhando pra ele e pra chave respectivamente. Tentava entender aonde ele queria chegar.

   - O que está querendo dizer? (Yasmin perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)
   - Vai dirigindo. (Lucas)
   - NÃO! (Yasmin exclamou de prontidão arregalando os olhos)
   - Min, uma hora você vai ter que voltar a dirigir. Eu entendo que seja difícil, mas precisa superar. (Lucas)
   - Não quero ser grossa, mas aconteceu comigo e não com você. (Yasmin atacou)

   Bem, sempre que mexiam com coisas relacionadas a esse passado, a irritavam. Não era de caso pensado. Era uma reação automática. Um forte trauma que a deixava feito uma estátua. Parada no tempo.

   - Eu sei que não aconteceu comigo, mas só podemos superar uma coisa quando a enfrentamos. Você já enfrentou tanta coisa e não pode enfrentar um carro? (Lucas)
   - Não é tão fácil. Não foi somente uma batida de carro, foi na hora que meu pai estava morrendo. Pode não parecer difícil pra você que tem pai, mas comigo não. (Yasmin)

   Outro fato a ser dito, apesar da doçura, Yasmin guardava dentro de si uma forte personalidade que às vezes era um pouco exagerada demais, ao ponto de magoar as pessoas.

   - Min, por favor… (Lucas)
   - Está de noite também e se você continuar insistindo, eu prefiro não ir. (Yasmin)

   Lucas ficou a olhando um pouco incrédulo. Nunca havia visto uma reação dela desse tipo, bem, pouco tempo convivendo, mas foi algo que o surpreendeu. Se fosse em outras ocasiões, quer dizer, com outras mulheres, certamente ele ia dar um grito e colocá-la pra fora do carro dele, mas com Yasmin ele parecia compreender o ataque. Era um trauma e não um capricho.

   - Você não quer ir? (Lucas)

   Yasmin se endireitou no banco e ficou olhando pra frente. Lucas ainda a olhava esperando uma resposta.

   - Q-quero… (Yasmin sussurrou)

   Ele pode sentir um tom meio embargado na voz dela, já que ele sabia que havia tocado numa ferida. Uma ferida que ela havia confessado pra ele, mas que ainda lhe causava dor. Foi inocente tentar ajudá-la, nada proposital, pois o que menos ele queria era magoá-la, mas talvez o magoado da história, bem, o chateado, tenha sido ele. Mas iria respeitar.

   - Eu quis te ajudar, me desculpe se isso te ofendeu. Prometo que não se repetirá. (Lucas afirmou sério)

   Colocou o cinto e calado observou o mapa, em seguida ligou o carro dando partida. Não poderiam considerar aquilo como uma briga, mas um desentendimento talvez. Não havia sido o primeiro, já que anteriormente quando Bruna apareceu no Egito, os dois acabaram tendo um afastamento, mas com um relacionamento sério, havia sido o primeiro e apesar de não ter gritos e escândalo, havia broxado bastante o inicio da viagem.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Cinco.

   Quando chegou na sala, com uma sobrancelha arqueada tentando descontrair, recebeu um sorriso tão sincero que suas pernas bambearam. Batidas frenéticas em seu coração e vergonha. Ela se odiava por te esse defeito, bem, julgava assim. Nunca se intimidava com a timidez, mas incomodava e ela sabia que não precisava ter esse tipo de coisa com Lucas, mas era inevitável. Respirou fundo e ligou o som em uma música árabe de sua preferência, com batidas que a faziam esquecer de qualquer coisa e se soltar. Piscou pra ele ao levantar o véu e o viu endireitar-se no sofá olhando-a de cima a baixo. Olhar intimador que a deixava sem chão. Yasmin deu uma requebrada no quadril e virou-se jogando o véu pra trás. Ficou de costas, mas a sentia queimar imaginando os olhares dele com a dança. Não conseguiu, virou-se e ficou parada com a cabeça tombada levemente pro lado.

   - Se eu te contasse uma coisa, você acreditaria? (Yasmin)
   - Posso analisar se você me contar. (Lucas respondeu sorrindo)
   - To com vergonha. (Yasmin)
   - Observei suas bochechas Odalisca. Bem, sabe que não tem que ter vergonha de mim não é? Mas já que a timidez acabou com sua bela apresentação, então agora vou te recompensar pela anterior. (Lucas falou levantando-se)
   - Como assim? (Yasmin)
   - Sente aqui. (Lucas falou fazendo-a sentar no sofá)
   - O que vai fazer? (Yasmin perguntou sorrindo)
   - Dançar pra você. (Lucas concluiu sorrindo e pegando das mãos dela o véu)


   Yasmin deu uma gostosa gargalhada somente imaginando as cenas que viriam. Imagine um homem como Lucas, que mal sabe como se porta um árabe ao dançar, inventar de dançar pra ela? Ou será que ele iria imitar uma Odalisca? Imitá-la? Bem, era melhor não ficar pensando em suposições e divertir-se com as cenas a seguir. Divertir-se? Ela acabou mudando o conceito ao ver como as cenas engraçadas, haviam se transformado em cenas sensuais. Lucas brincou jogando o véu pra trás que nem ela e depois o colocou no rosto. Cerrando o olhar de uma maneira sexy, ele tirou bem devagar o blazer e jogou no sofá. Será que aquilo viraria um streap tease? Não dava pra raciocinar muito bem ao ver Lucas bailar de um jeito masculino e irresistível, mesmo não entrando nos passos árabes, ele conseguia harmonizar o ritmo com suas mexidas. Mexidas… deliciosas. Yasmin repreendeu-se e tentou manter a admiração na dança e não nele. Impossível.
   O viu desabotoar botão por botão da camisa e foi inevitável engolir em seco e seguir com os olhos o caminho que ele fazia pra ficar despido na parte da cima. Não soube quando, mas ele havia puxado-a do sofá e rindo ficou atrás dela dançando e a incitando-a a dançar também. Yasmin não conseguia pensar ao sentir o peito nu dele roçando em suas costas. Bem, ele todo. Ele sabia seduzir. Indiscutivelmente, ele sabia… E nos últimos toques da música, ela arrepiou-se por completo ao senti-lo morder o lóbulo de sua orelha direita e os sussurros que vinham de seus lábios.

   - Não dá mais pra segurar. (Lucas entre sussurros a puxou colando ainda mais seu corpo no dela)

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Quatro.

   Ao entrarem no apartamento, Lucas rapidamente se esparramou pelo sofá, sempre fora assim nos lugares onde se sentia bem. Mal chegava e já se achava o dono do pedaço, sem levar para o lado pejorativo. Yasmin sorriu com tal cena já que imaginava isso. Apoiou-se na parede pra tirar os sapatos que estavam detonando seus pés, chegou a soltar um suspiro de alívio quando seus pés tocaram o chão gelado.

   - Agora voltou a ficar pequenininha. Não que o salto te deixou gigante. (Lucas brincou sorrindo)
   - Ei, não se fala isso pra uma complexada. (Yasmin)
   - Por que complexada? Acho a coisa mais linda mulheres pequenininhas. (Lucas)
   - Até parece, os homens preferem as mulheres altas que eu sei bem. (Yasmin)
   - Claro que não, todos os meus amigos também preferem as baixinhas. (Lucas)
   - Mas as mulheres querem ser altas. Vou confessar, meu sonho é ser modelo de passarela, ou seja, com esse tamanho só se for pra grife infantil. (Yasmin brincou rindo)
   - Se você desfilar pra uma grife infantil, tenho certeza que só vai dar os pais de todas essas crianças babando por você. (Lucas)
   - Assim o meu ego infla. (Yasmin)
   - Pois pode inflar, porque o que é verdade tem que ser dito. Você é linda da maneira que é, garanto se mudasse uma coisinha que seja, ia estragar. (Lucas falou sincero)
   - Vindo de você é mais do que um elogio. (Yasmin falou tirando a fivela de flor da cabeça e piscando pra ele)


   Yasmin jogou a fivela em cima da mesa de centro da sala e foi andando em direção do sofá em que Lucas estava sentado. Sentou-se ao lado e não segurando seus instintos, deitou a cabeça no ombro dele, recebendo em troca um gostoso afago nos cabelos.

   - Posso confessar uma coisa? (Yasmin sussurrou aninhando-se ainda mais a ele)
   - Deve! (Lucas)
   - Desde que meu pai morreu, acho que é a primeira vez que me sinto feliz de verdade. Sabe quando não é forçado? Quando você sabe que é real, e não está afirmando pra si mesmo pra não sofrer. (Yasmin)
   - Eu entendo e me sinto privilegiado. Sei que o fato de seu pai já ter ido embora te marcou muito e se eu supri um pouco essa dor, significa que sou importante na sua vida e isso é o que mais estou almejando daqui pra frente. (Lucas)
   - Eu me sinto mal com uma coisa… (Yasmin afirmou levantando a cabeça)
   - Com meu filho? (Lucas)
   - Sim. Ele nem nasceu ainda, é pequenininho e nem sabe a confusão que já vai ser a vidinha dele. (Yasmin)
   - Eu o amo, nunca vou faltar com ele, pretendo lutar pela guarda, pois a Bruna não faz muita questão dele. É triste, mas é a realidade. (Lucas)
   - Deve ser lindo ter um bebê, ela deveria estar feliz por isso. É uma dádiva ser mãe. (Yasmin)
   - Esse sentimento materno só desperta em pessoas especiais como você, não em pessoas como a Bruna. (Lucas)
   - Você já chegou a amá-la? (Yasmin)
   - Não. Confesso que quando começamos a namorar, eu até apostava num sentimento, mas depois percebi que era fruto de tesão, falando a real. (Lucas)
   - E como foi a reação dela com essa separação? (Yasmin)
   - Não foi uma das melhores, mas deixa isso pra lá. Eu fiz porque quis e não me arrependo de nada. (Lucas)
   - O seu pai ficou muito bravo? (Yasmin)
   - Meu pai é uma incógnita Min. Descobri isso há pouco tempo, mas às vezes eu tenho medo quando estamos nos dando bem. Já levei tanta paulada, não fisicamente, mas moralmente, dele, que não consigo esperar muita coisa boa. (Lucas)
   - Não fala assim, ele pode fazer essas coisas pra te proteger, cuidar… (Yasmin)

   - Eu sei, mas é estranho. (Lucas)
   - Os pais são assim, o seu caso não é uma exceção. Às vezes ele até estava esperando uma atitude sua, assim como você teve. (Yasmin)
   - Eu contei pra ele que estou com alguém. (Lucas)
   - Você falou? (Yasmin perguntou surpresa)
   - Sim. Não falei quem você era porque isso não interessa agora. Todo relacionamento muito exposto não dá certo. Quero privacidade nesse começo, amadurecer a relação sabe? (Lucas)
   - Penso o mesmo. (Yasmin)
   - Então assim será. (Lucas)

   Yasmin ficou em silêncio, mas alguns segundos depois soltou uma risada e colocou uma mão no rosto.

   - Que foi? (Lucas)
   - Eu estava aqui pensando em uma coisa. Se meus parentes estivessem por perto, você com certeza seria um homem morto. (Yasmin)
   - E você ri por isso? (Lucas brincou fingindo-se ofendido)
   - É tão estranho tudo. Eu me pego fazendo coisas que nem mesmo todo meu feminismo permitiria. (Yasmin)
   - Sabe o que é isso? Amor… Confessa que me ama! (Lucas falou sorrindo e mordendo-a no pescoço)
   - Bobo. (Yasmin)
   - Falando em família muçulmana e tal, cadê a minha Odalisca? (Lucas)
   - Hã? (Yasmin)
   - Não vai me dar o prazer de mais um show particular? (Lucas)

   Yasmin sorriu tentando esconder que estava morrendo de vergonha. Da outra vez havia criado um clima diferente, não sabia explicar como, mas timidez não existiu, apenas uma mágica especial que a fez presenteá-lo com sua dança sagrada. Mas agora? Estava com vergonha, mas não faria essa desfeita. Bem, tentaria… Deu um selinho nele e num sussurro de “já volto”, ela seguiu pra seu quarto e abriu o armário onde estavam suas roupas. Viu à frente uma roupa que ela sempre gostava de usar, era bem ao estilo Odalisca, por ser calça. Seu tom preto com bordados nessa mesma cor encaixavam perfeitamente com o véu que ele havia dado a ela, claro, ela não esqueceria do pedido de na próxima vez, dançar com ele.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Três.

   No carro, já não existia mais aquele silêncio característico da relação dos dois. Apesar de não terem convivido juntos por muito tempo, existia uma química tão forte entre eles que a intimidade parecia ser natural.

   - Senti saudades. (Lucas falou tirando uma mão da direção e afundando nos cabelos dela)
   - Eu também! (Yasmin concordou pegando na mão dele)
   - Precisamos conversar hoje, algo decisivo. (Lucas)
   - Como assim? (Yasmin)
   - É algo bom, te garanto. (Lucas falou piscando)

   Ficaram conversando sobre coisas normais até que chegaram ao condomínio dela. A pedido de Yasmin ele acabou colocando o carro na vaga que ela tinha por direito no prédio, não existia muitos furtos na região, mas era sempre bom evitar. Andaram lado a lado até se aproximarem de uma espécie de praça que tinha dentro do condomínio. Lucas a puxou pela mão.

   - Que foi? (Yasmin)
   - Achei legal esse lugar, podemos ficar aqui um pouco? (Lucas)
   - Se você quiser, por mim tudo bem. (Yasmin)

   Alguns bancos ficavam espalhados pelo lugar. Lucas escolheu um e por instinto andou até ele de mãos dadas com ela. Yasmin sentiu-se feliz apenas com esse ato dele.
Sentaram-se e Lucas virou pro lado, ficando por cima de uma perna. Sorriu e a puxou de um jeito que a cabeça dela ficava encostada no peito dele.

   - Como você tem passado esses dias? (Lucas)
   - Fiquei bem… E você? (Yasmin sussurrou fechando os olhos)
   - Também, ainda mais que resolvei coisas sobre minha vida, aliás, sobre nossas vidas. (Lucas)

   Yasmin desencostou a cabeça do peito dele e olhou-o nos olhos.

   - Como assim nossas vidas? (Yasmin)
   - Min, depois que você apareceu no aeroporto, eu senti uma felicidade tão grande que me fez decidir o que eu deveria ter feito há tempos, tomar uma atitude… (Lucas)
   - O que você está querendo dizer com isso? (Yasmin)
   - Me separei da Bruna. (Lucas respondeu de uma vez)

   Yasmin automaticamente arregalou os olhos com tal notícia. Claro que não queria bancar a amante, isso nunca foi do feitio dela, mas não esperava que isso fosse acontecer até o filho dele nascer, como ele mesmo tinha dito. Mas isso a deixava de uma maneira tão realizada… Feliz! Ele havia separado por algo que ela fez e isso significa que ele havia se separado por ela. Pela relação que os dois juntos começam a cultivar. Isso fez com que seu coração explodisse de batimentos cardíacos.

   - Separou? (Yasmin)
   - Não adianta eu ficar dando murro em ponta de faca e nem ficar amargando um casamento por causa de uma gravidez. Ele é meu filho e não vai deixar de ser por causa disso. (Lucas)
   - Isso é verdade… (Yasmin)
   - Me diz o que acha disso tudo? (Lucas perguntou sorrindo)
   - Eu confesso que estou sem ação, não que eu não esperasse uma atitude sua, mas fiquei surpresa, não sei dizer… Pra falar a verdade, eu até sentiria um peso na consciência por isso, mas é algo que eu quero e que me faz feliz, eu também tenho direito de ser feliz! (Yasmin exclamou não conseguindo deixar de escapar um lindo sorriso)
   - Merece e muito! (Lucas)

   Sem pensar duas vezes, Yasmin o puxou pelo rosto fazendo um carinho na bochecha esquerda e selando os lábios na boca dele. Quando ela ia afastar, ele a segurou fazendo com que aquele selinho se aprofundasse mais com um beijo de língua.

   - Posso fazer uma pergunta? (Lucas perguntou passando a mão no canto de sua boca tirando o excesso do gloss dela)
   - Pode. (Yasmin)
   - Vi o Marcelo quase te derrubando antes da palestra e tentando te tirar pra dançar. Não quero que me esconda nada, ele continua te importunando? (Lucas perguntou sério)

   Yasmin ficou quieta por alguns segundos. Será que seria certo contar pra ele que Marcelo, em termos, já sabia sobre a relação dos dois? Não pensava somente na história dele ter filhos e ter que sustentá-los, também sabia que isso podia causar um desgaste desnecessário em Lucas e, conseqüentemente, na relação dos dois que mal havia começado. Ok, era certo que já não suportava mais os ataques contínuos de Marcelo, mas não tinha necessidade causar esse mal estar ao expor isso pra Lucas.

   - Hein? (Lucas insistiu)
   - N-não. (Yasmin mentiu)
   - Tem certeza? (Lucas)
   - Tenho. Ele deu uma trégua, sério. (Yasmin)
   - Ele tentou te derrubar, como deu uma trégua? (Lucas)
   - Ele esbarrou sem querer. (Yasmin)
   - Yasmin eu quero que seja sincera. Se você mentir pra mim a respeito disso, vou ficar muito chateado. (Lucas)

   Yasmin uma vez mais ficou calada. Mentir em nenhum tipo de relação era bom, mais uma vez dizendo, ainda mais na relação mal começada dos dois. Mas o seu problema com Marcelo era algo que não deveria interferir entre eles dois. Não poderia. Ele também não era um maluco que acabaria com a relação dos dois, era somente implicância com ela e uma hora ou outra isso pararia. Bem, ela esperava isso.

   - Estou falando a verdade. (Yasmin)
   - Se ele te fizer algo, você me avisa? (Lucas)
   - Aviso, pode deixar! (Yasmin respondeu sorrindo, mas sentindo-se mal por esconder dele isso)

   Uma brisa acabou passando e Yasmin esfregou os braços sentindo frio.

   - Quer meu blazer? (Lucas perguntou já preparado pra tirá-lo)
   - Não é necessário, mas acho melhor subirmos antes que esfrie mais. (Yasmin)
   - Com todo prazer eu vou subir com você. (Lucas afirmou sexy)

   Claro que ela transpareceu a timidez já característica e sorriu depois que ele a apertou nas bochechas. Levantaram-se e caminharam de mãos dadas, algumas pessoas que estavam pelo condomínio os observavam, os dois não ligavam pra isso, pois estavam se tratando como deveria se tratar um casal de namorados.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Dois.

   A música chegou ao fim e ao se separarem, Yasmin acabou ganhando um beijo na bochecha. Sorriu tímida e se afastou vendo que Letícia puxava o amigo pra dançar. Seria bom pra que não reparassem em algo a mais entre eles. Algum tempo depois, Yasmin foi pegar suas coisas no camarim e acabou continuando com a mesma roupa. Apenas colocou a mochila nas costas e ficou com o celular nas mãos aguardando alguma mensagem de Lucas. E não demorou nem cinco minutos pra recebê-la.

   
"Estou na rua de trás te esperando.
   Beijos, Lucas."


   Sorriu fechando o celular e saindo com pressa do hotel. Mas como sempre algo não dá certo, mesmo que ela não tenha percebido. Marcelo a observava do outro lado da rua, não havia ido embora como tinha previsto. A seguiu de maneira disfarçada. Yasmin, sentindo alguém a observando, virou o rosto pro outro lado da rua, mas não viu nada e continuou andando. Até conseguir avistar Lucas de braços cruzados encostado em um carro. O viu abrir um lindo sorriso quando viu que ela se aproximava. Sorte foi ele ter segurado os impulsos e apenas ter aberto a porta pra ela, já que eram observados pelo outro lado, mas também isso já não iria servir de nada, já estava provado pra Marcelo o envolvimento dos dois.

   - O que será que a esposa dele dirá se souber disso? (Marcelo sussurrou olhando com ódio Yasmin entrar no carro de Lucas)

   E com o mesmo ódio ficou observando até que ele desse partida.

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Um.

   Yasmin ficou sem reação enquanto ele a puxava pela mão seguindo para a pista de dança. Não sabia nem qual tinha sido a reação de Marcelo, já que ficou tão incrédula que tudo a sua volta parecia ter sumido. Estava conversando com ele, bem, tendo aquela pequena discussão e do nada aparece Lucas e tudo aquilo… Estava zonza! O sentiu abraçá-la e segurar em sua cintura. Escutava ao fundo uma música lenta e em espanhol enquanto via outros casais entrando no embalo. Era tudo tão surreal! Ele a entrelaçou em seus braços devagar e ela acompanhou sentindo o coração acelerar forte. As pessoas ao lado nem percebiam que aquela cena era de um casal de “namorados”, já que muitos funcionários dançavam entre si e não se relacionavam. Mas os dois, somente os dois, compartilhavam a emoção de a primeira vez serem vistos em público, bem, não de maneira que assumisse algo, mas que mostrasse a eles mesmos que agora nada estaria entre eles..

   - Assustada? (Lucas sussurrou no ouvido dela)

   A sentia um pouco tensa em seus braços, mas ela parecia longe. Tão alheia a tudo que não escutou a pergunta dele e continuou dançando lentamente e esquecendo de tudo que estava em volta. De qualquer problema! Nada seria relevante perante àquele momento e chegava à insanidade de querer beijá-lo. Estava louca de vontade, mas tudo não passara de apenas uma vontade… Ela sabia se controlar!
   Marcelo engoliu em seco a raiva ao ver àquela cena. Não estava preparado pra ver Lucas chegando e tirando sua oportunidade. Pra que negar se o que ele mais almejava era levá-la a cama? Tentadora! Sempre fora aos olhos dele e aquilo despertava seus instintos mais diabólicos… Estranho pensar que o “amor” o levaria a atos insanos, mas tudo estava desvirtuado em sua mente e ao invés de tentá-la conquistar do jeito certo, ele sempre queria vê-la no chão, no fundo do poço e essa vontade aumentava cada vez mais, de maneira descontrolada e o que ele desejava além do seu corpo e alma, era vê-la suplicar por sua ajuda. Mas Lucas? Seu patrão e sem discutir assuntos peculiares como ele ainda não é o dono. Enfim… Apesar de desconfiar do bilhete caído dos braços de Yasmin, ele tinha a esperança de tudo não passar de um engano, ou só mais um flerte de homens que tanto a cobiçavam. Mas não era! Não o que parecia e isso o deixava num estado ainda mais diabólico. Vê-los dançando… Aquilo estava sendo insuportavelmente terrível pra sua alma.

   - Isso vai ter troco! (Marcelo jurou para si e saiu dali)

   Iria embora e no caminho pensaria tudo a respeito. Sentia-se até mal com seus pensamentos, mas o que mais ele queria era sentir o gosto do sangue da vingança. Às vezes sua mente tinha flashes de sanidade, mas a tentação lhe era maior.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta.

   - O que disse? (Jorge)
   - É que tem uma das Odaliscas que não está aí. Uma baixinha que dança super bem. (Lucas)
   - Já ouvi falar dessa Odalisca… (Jorge)
   - Como já ouviu? (Lucas perguntou um pouco temeroso)
   - Já falaram coisas boas dela, elogios. (Jorge)
   - E quem falou? O Taylor? (Lucas)
   - Não, foi o Marcelo. (Jorge)

   Lucas arregalou os olhos. Aquilo era surpreendente demais, Marcelo a elogiando. Por mais que tenha percebido a atração dele por ela, isso era demais.

   - O Marcelo elogiando a Yasmin? (Lucas)
   - Ela chama Yasmin? (Jorge)
   - Chama, mas não entendo isso dele a elogiando, lembra que contei sobre a história de prostituição? (Lucas)
   - Lembro sim. (Jorge)
   - Ele acusou a Yasmin disso. (Lucas)
   - Como é? Espere aí, ele acusou a menina que ele elogia? Acho que estou um pouco velho pra entender certas coisas. (Jorge)
   - Bem, depois conversamos disso. (Lucas)
   - Acho melhor, porque além de velho, o Martini também subiu um pouco na minha cabeça. (Jorge)
   - Quero ver quando a dona Fátima ficar sabendo que o senhor andou bebendo. (Lucas brincou)
   - Ela só ficará sabendo se você contar, se você contar eu falo pra ela que você andou me confidenciando que já tem outra na parada. (Jorge)
   - Na parada? (Lucas perguntou rindo)
   - Posso envelhecer em alguns quesitos, mas no linguajar nunca. (Jorge)
   - Ok, não conto nada. (Lucas)
   - E acho bom você me contar depois direitinho essa história de apaixonado. Não pense que esqueci disso… (Jorge)
   - Conversaremos. (Lucas)
   - E juro que dessa vez não irei me meter, apesar de achar precipitado você já estar com alguém. (Jorge)


   Taylor vinha na direção dos dois sorrindo. Desviava às vezes o olhar pras Odaliscas, porque ninguém tem sangue de barata, digamos.

   - Curtindo a festa, tio? (Taylor perguntou chegando ao lado de Jorge e o abraçando pelo ombro de brincadeira)
   - Ficou melhor quando as Odaliscas entraram. (Jorge falou entrando na brincadeira)
  - Só que não fica de olho na Odalisca baixinha, porque ela é o xodó do Lucas. (Taylor falou rindo)
   - Ei! (Lucas)
   - A tal de Yasmin? (Jorge)
   - Está vendo, até já contou pro senhor dela! O Lucas se joga no chão de quatro por ela, ficava babando quando ela dançava. (Taylor)
   - Na minha terra nós calamos a boca de uma pessoa na base do soco. (Lucas)
   - Tio, estou falando sério. (Taylor falou ignorando Lucas)
   - Até eu quero ver essa tal Yasmin... (Jorge)
   - Mas nem se apaixone, senão vai ter guerra em família. (Taylor)

   Lucas o fuzilou com a mirada, por sorte Jorge não percebeu nada quando ao interesse dito por Taylor. Bem, nem Taylor sabia! A conversa foi desviada pelo celular de Taylor vibrar em seu bolso, quando ele o pegou acabou arregalando os olhos pelo número identificado.

   - Que foi? (Lucas)
   - Espere… Alô! (Taylor falou respirando fundo)

   Pôde escutar claramente o suspiro do outro lado do telefone e em segundos a metralhada.

   - Ok, não sou de enrolar então vou logo ao xis da questão. Estou grávida e você é o pai. (Helen disparou e em seguida bateu o telefone no gancho)

   Taylor continuou segurando o celular e onde estavam a iluminação mostrava claramente que acabara de ficar pálido. Seus olhos estavam arregalados e sua boca aberta em sinal de surpresa. Sem fala…

   - O que foi? (Lucas perguntou preocupado)

   Taylor entregou o celular na mão dele e apontou aonde indicava quem acabara de ligar. Lucas mexeu no celular e ao ver o nome de Helen identificado começou a entender do espanto do amigo.

   - Quem ligou? (Jorge)
   - A Helen. (Lucas)
   - Nossa, deve ter falado… (Jorge)
   - E pode apostar que depois do olho arregalado é desmaio. (Lucas)
   - Eu nem vou duvidar, porque sei como ficamos surpresos quando recebemos uma notícia dessas. (Jorge)
   - Eu não desmaiei. (Lucas)
   - Mas em compensação quase quis se jogar da janela. (Jorge)
   - Pela mãe dele, mas não por ele… (Lucas)
   - Ok. Não vamos discutir isso agora. (Jorge)
   - É melhor não mesmo, pois iremos perder um tempinho… Ops, falei. (Lucas)

   Taylor cambaleou pra frente e em poucos segundos caiu pra frente desacordado. Um alvoroço formou-se em volta, eram os convidados assustados pelo desmaio de Taylor. Jorge tentava os acalmar enquanto Lucas tentava reanimar o amigo.

   - O que houve? (Yasmin perguntou chegando ao lado de Lucas)
   - Recebeu uma notícia bombástica e acabou nisso. (Lucas falou rindo e dando uns tapinhas no rosto de Taylor)
   - Acho melhor pegar álcool. (Yasmin)
   - Já devem estar trazendo. (Lucas)   

   E alguns segundos depois, apareceram com algodão e álcool. Lucas passou lentamente embaixo do nariz de Taylor. O moreno deu um pulo do chão, assustado e sem saber onde estava.

   - O que foi? (Taylor perguntou assustado e suado)

   Sentou-se no chão após perguntar isso, pois o impacto de levantar rápido quase o fez desmaiar novamente.

   - Você desmaiou e acho melhor ir até o ambulatório. (Jorge)
   - Eu desmaiei depois que a Helen me ligou… (Taylor)

   E novamente arregalou os olhos.

   - Ok. Se for desmaiar de novo, melhor ir agora ao ambulatório. (Lucas)
   - Ambulatório? A minha vontade é de ir pro Brasil esganar a Helen. COMO ELA ME FALA UMA COISA DESSAS PELO TELEFONE E RÁPIDO. MEU DEUS, UM FILHO… (Taylor)

   E mais uma vez desmaiou.

   - Melhor chamar alguém do ambulatório, não é bom ficar desmaiando assim. (Yasmin afirmou preocupada e ajoelhando-se ao lado de Taylor)
   - Melhor mesmo. (Lucas)

   Em poucos minutos, Taylor foi retirado do local em uma maca, sempre voltava a si e berrava demais provocando mais desmaios. Estava tendo uma crise nervosa.

   - Imagine então se for gêmeos, ele morre. (Jorge deduziu rindo)

   Virou a mirada e viu Lucas e uma baixinha, próximos. Pela roupa dela sabia que era funcionária e deduziu ser a tal Odalisca. A famosa!
Vê-la com o filho lhe deixou com a pulga atrás da orelha, afinal de contas as coisas que Taylor tinha dito e as revelações de Lucas em Dubai. Era tudo muito suspeito!

   Mais tarde, alguns convidados dançavam animados. Tocava música brasileira e alguns pagodes. Já estava liberado para os funcionários aproveitarem a festa, tudo com a concepção de Jorge.

   - Vamos dançar Yasmin. (Anaíra falou dando uma leve "sambadinha")
   - Nem vou. (Yasmin)
   - Por que não? Vai dizer que não sente falta das danças da nossa terra? (Anaíra)
   - Ah sinto claro, mas vou depois… (Yasmin)
   - Eu vou agora lá! Tchauzinho. (Anaíra falou sorrindo e se afastando)

   Yasmin sorria observando Anaíra quando Marcelo com seu olhar malicioso aproximou-se sorrindo sarcasticamente.

   - Me concede essa dança? (Marcelo)
   - Está brincando ou o que? (Yasmin perguntou incrédula)
   - Digamos que eu aceitaria, já que se recusar eu posso contar pro Dom Jorge que o filho dele tem um caso com uma funcionária de quinta. (Marcelo disse baixo e sorrindo de maneira irônica)
   - Já falei que não tenho nada com ele e, por favor, me deixe em paz… (Yasmin suplicou)
   - Não tem? Então por que os dois entraram sozinhos no camarim? (Marcelo)

   Yasmin ficou muda.

   - Então Yasmin, me concede essa dança? (Marcelo perguntou novamente entendendo a mão pra Yasmin)
   - Não! Porque ela vai dançar comigo. (Lucas falou chegando ao lado dos dois)
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Setenta e Nove.

   O coquetel continuava enquanto as Odaliscas davam seu show por entre os convidados. Sempre eram bem aplaudidas e faziam jus aos elogios que recebiam, mas claro que aquela apresentação não tinha o mesmo brilho sem Yasmin, a mais carismática sem dúvidas. Não desmerecendo a dança das outras garotas, que assim como ela dançavam de maneira espetacular e com certeza se igualavam a ela nesse conceito, mas Yasmin tinha algo a mais que nunca nenhuma garota daquele local conseguiu superar e por incrível que pareça isso não era um grande problema pra ela, pois em circunstâncias atuais em outros lugares, ela seria alvo de inveja, mas ali o problema de Yasmin chamava-se Marcelo e não era inveja e sim obsessão.
   Lucas conseguia observar de longe isso, pois na hora em que as garotas dançavam, Yasmin no canto ia no embalo da música e de maneira discreta seguia os mesmos passos, claro que mais encantadora. Mas não passava desapercebida e não era Lucas o único a vê-la dançar. Marcelo! Como um leão prestes a dar o bote, ele a observava, faminto… Aumentando ainda mais a ira de Lucas com ele. Agora estava muito claro pra ele a perseguição de Marcelo com Yasmin, era um amor reprimido… Aliás, amor fatal, pois nem de longe uma pessoa que ama faria o que ele faz com ela. Lista negra. O lugar onde Marcelo já estava na opinião de Lucas.

   - As garotas dançam bem de verdade. Da última vez que vim pra cá, essas apresentações não eram tão boas. (Jorge falou tirando Lucas do transe)
   - Ah sim, elas são ótimas mesmo, mas não são todas que estão dançando. Garanto que tem uma bem melhor. (Lucas)

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Setenta e Oito.

   Anaíra pareceu dar uma trégua e mostrava-se bem interessada em tudo que falavam. Já Yasmin, por mais que estivesse calada viajava em pensamentos. Nunca foi de demonstrar ciúme por ninguém, bem, só por seu pai, sentiu até vontade de rir das brigas ridículas que tinha com sua irmã pelo carinho de Luiz. E claro que ela era sempre a que mais recebia dele, ou seja, as discussões eram intermináveis. Agora com homens que estava se relacionando? Bem, não teve muitos namoros, pra falar a verdade eram namoricos de criança, já que nunca havia passado de beijo na boca. Tudo se iniciou com Lucas e agora havia tido uma crise contida de ciúme. Sentiu vontade de bater em Anaíra por ela ter falado que ele tava mais lindo. Ele era dela. Só dela! Assustou-se ainda mais imaginando que poderia fazer um barraco por ele, já que sua língua coçava pra gritar pra Anaíra quem era o dono dele. Deus, ela é sua amiga e… Caiu em si quando se lembrou de Bruna. Isso sempre martelava em sua mente, já que Lucas talvez fosse mais de Bruna que dela.
   Do outro lado, Lucas também não parava de pensar em Yasmin. Claro que também pensava em Marcelo, pois vê-lo quase derrubar Yasmin o deixou num estado tão profundo de irritação que se ele aparecesse em sua frente pelos próximos vinte anos, com certeza seria um homem morto. Mas o que mais o deixara distraído, é a vontade que estava de contar logo pra ela que não estava mais com Bruna e também pra estar mais uma vez com ela. Não vamos ser hipócritas em pensar que ele não queria que logo acabasse aquele evento pra que ele pudesse correr rapidamente pro apartamento dela.


   E depois de muitas explicações, a palestra deu-se por encerrada. Dali pra frente ia começar o coquetel em homenagem àquele evento e claro que teriam as apresentações das Odaliscas.

   - Quem é vivo sempre aparece. (Taylor brincou aproximando-se de Lucas)
  - Quem vê pensa que estamos há séculos sem nos ver. Tudo bem? (Lucas falou rindo e abraçando o amigo)
   - Digamos que estou indo… (Taylor)

   Lucas percebeu que o "estou indo" era por causa de Helen e até sentiu certo remorso por não poder falar logo pro amigo que ele seria pai. Claro que ia ver Taylor ficar pálido e alguns segundos depois cair desmaiado, mas sabia que apesar da crise nervosa, ele iria ficar muito feliz. Helen ia lhe escutar, por isso.

   - Como ela está? (Taylor)

   Mais remorso ainda. Ele perguntando dela? Bem, não poderia dizer que ela estava sofrendo diariamente com enjôos devido à gravidez, mas sua língua estava coçando.

   - Ela quem? (Lucas perguntou pra perder um tempo pensando no que falar)
   - Como quem? A Helen ora! (Taylor)
   - Ah sim! Ela está bem. Isso, ta bem, acho… (Lucas)
   - Deve estar ótima mesmo. (Taylor ironizou)
   - Você nem imagina o quanto. (Lucas)
   - O que? (Taylor)
   - Não, nada… Cadê a Let? A vi antes da palestra e ela sumiu depois. (Lucas)
   - Deve estar por aí, e seu pai? (Taylor)
   - Foi fazer o social. (Lucas)
   - Coitado, vai ter que cumprimentar todo mundo. (Taylor)
   - Ainda bem que hoje vou poder dar uma de mal educado, já que ele é mais patrão que eu. (Lucas falou rindo)
   - Até parece, se o conheço daqui a pouco ele te chama pra conhecer todo mundo. (Taylor)
   - Obrigado pela praga animal, ele está vindo pra cá. (Lucas)
   - Viu, se ferrou… (Taylor concluiu rindo)

   Jorge aproximou-se dos dois sorrindo.

   - Filho, venha ver uns amigos que encontrei. Eles são da Espanha e há anos não os vejo. (Jorge)
   - Claro que vou. (Lucas)

   Os dois passaram por Taylor, que caiu na gargalhada recebendo em troca um olhar fulminante de Lucas.

   - Gostou da palestra? Eu achei bem interessante. (Jorge)
   - Foi bem interessante, bem mesmo… (Lucas mentiu, pois não havia prestado atenção em nada)
   - Depois conversamos mais sobre ela, agora vamos! (Jorge)

   Continuaram andando e sorrindo para todos. Eram os anfitriões daquela festa. Por mais que os profissionais que estivessem ali pra palestrar fossem os donos do evento, o hotel era de Jorge, e como há tempos não ia ali, as atenções eram todas voltadas a ele e consequentemente a Lucas. Após ser apresentado pra milhares de pessoas, Lucas conseguiu se livrar e sorriu malicioso ao ver Yasmin parada ao lado do bar. Estava distraída escrevendo coisas em um papel que estava preso em uma prancheta. Com certeza estava averiguando algo ali. Mas claro que ele não se contendo, foi pro lado dela e disfarçou pedindo uma bebida ao barman.

   - Posso saber por que a Odalisca mais linda desse lugar ainda não foi se arrumar? (Lucas sussurrou)

   Yasmin deu um pulo de susto. Estava distraída ao ponto de nem vê-lo ao seu lado.

   - Esqueci que de vez em quando você desliga. Perdão pelo susto… (Lucas falou sorrindo)

   Yasmin também sorriu, mas colocou a mão no coração que estava fortemente acelerado pelo susto e pela aproximação dele também, óbvio.

   - Eu estava distraída mesmo e não precisa se desculpar. E respondendo sua pergunta… Não vou me arrumar porque não fui escalada hoje pra dançar. (Yasmin)
   - Pois então acaba de ser escalada pra dançar, mas não agora e não aqui. Te encontro depois que seu expediente acabar. (Lucas falou entre sussurros e dando um sorriso que a fez ficar mole)

   Bebeu um gole de sua Vodka e saiu de perto dela.