quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Dezoito.

   Abriu os olhos e ali estava novamente a cena de Bruna. O medo de ter estragado tudo gritava em sua mente. Era a hora de extravasar os sentimentos na pessoa que realmente merecia, na culpada de tudo. Bateu com força na porta pra chamar a atenção. Sentiu Jorge lhe puxando pela blusa, mas o ódio lhe fazia passar pelo exército de Titãs. Os grandes olhos azuis de Bruna arregalaram-se ao ver o ex-marido entrando pela porta. Pulou do colo do amante e enrolou-se rapidamente no lençol, sentindo o rubor nas bochechas ao deparar-se também com Jorge.

   - O q-que… (Bruna sussurrou)
   - Mande-o sair daqui, por favor! (Lucas exclamou num tom calmo)
   - Por que eu deveria? O que você está fazendo aqui? (Bruna perguntou num tom soberbo)
   - Mande-o sair daqui, AGORA! (Lucas esbravejou)
   - Eu vou, eu vou. Não precisa falar duas vezes. (Amante)

   Jorge o observou pegar as roupas caídas no chão e se vestir rapidamente. E na mesma fração de segundo que ele saiu pela porta, escutou o estalo do tapa que Lucas deu no rosto de Bruna.

   - Lucas! (Jorge exclamou assustado, aproximando-se do filho)

   A loira estava caída no chão, não havia suportado o peso da agressão de Lucas. Os olhos exibiam um misto de susto e ódio.

   - DESGRAÇADO! (Bruna gritou apalpando a bochecha esquerda, enquanto lágrimas brotavam de seus olhos)
   - Você arruinou a minha vida, sua vagabunda! (Lucas exclamou mexendo inconstantemente as mãos)
   - Filho, vamos embora. Por favor! (Jorge sussurrou angustiado, puxando o braço de Lucas)
   - Me solta, pai. (Lucas)
   - Você é um covarde! Só se garante batendo em mulher. Frouxo! (Bruna provocou)
   - Enquanto você estava aqui com seu amante, sabe-se lá por quantos dias, seu filho estava sendo enterrado. E SABE POR QUÊ? PORQUE VOCÊ NÃO PASSA DE UMA DROGADA, VAGABUNDA! (Lucas gritou agarrando o braço dela e obrigando-a a levantar-se)
   - NUNCA SENTI NADA POR ELE E NÃO IRIA FINGIR ISSO EM SEU LEITO DE MORTE, ASSIM COMO VOCÊ FEZ. QUER ENGANAR QUEM? O MAIOR ALÍVIO DA SUA VIDA FOI ESSA CRIANÇA TER MORRIDO. ASSIM VOCÊ NÃO TERIA MAIS VÍNCULO ALGUM COMIGO! (Bruna)

   Foi o suficiente para um segundo tapa.

   - Meu Deus! (Jorge exclamou horrorizado)

   O peito de Lucas arfava e se escutasse mais alguma coisa do tipo, poderia chegar a um ataque cardíaco.

   - Você não tem moral pra falar sobre os meus sentimentos. Você não faz ideia do quanto eu sofri pela morte dele, o quanto estou sofrendo. Você não passa de uma prostituta barata! (Lucas)
   - PROSTITUTA IGUAL A SUA NAMORADINHA QUE SE CAMUFLA NUMA BURCA PRA DIZER QUE É SANTA! (Bruna)

   Lucas calou-se, um silêncio que lhe doía a alma.

   - Ficou quietinho por que? Ih, acho que alguém não bateu apenas em uma mulher! É ISSO QUE FEZ NÃO É? TAMBÉM HUMILHOU A DOCE MUÇULMANA! Aposto, porque você é um otário que acreditava em qualquer baboseira. (Bruna)

   Ele apoiou-se ao pé da cama, sentindo a culpa lhe invadir a corrente sanguínea. Não havia batido, mas…


   - Quer saber de tudo? Eu não caí de escada nenhuma e aquele número do celular era da sua prostitutazinha sim, mas não foi ela que ligou. Foi aquele imbecil que você demitiu, ele deu um jeito de roubar o celular dela e me ajudar com isso tudo. E sabe por que fiz isso? Porque eu queria acabar com a sua vida. E sim, me droguei antes daquele moleque resolver nascer, foi a brisa mais alucinante que já tive na vida (exclamou entre gargalhadas) e somada a sua
cara de decepção com a imaculada do Egito, me fez sentir a mulher mais feliz do mundo. E óbvio que eu iria comemorar isso tudo com sexo, e o melhor sexo. Porque nem pra isso você presta. (Bruna despejou cruelmente)
A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Dezessete.

   - Lucas, vamos embora! (Jorge murmurou puxando o colarinho da blusa do filho)

   Estavam em frente ao antigo apartamento de Lucas, o qual ele viveu com Bruna quando eram casados. Jorge tinha o acompanhado, pois o estado do filho ao sair de casa era presságio de uma nova tragédia.


   - Nem sob tortura. Cheguei aqui e vou resolver de uma vez por todas… chega de tentar tapar o sol com a peneira. Quero saber de todos os detalhes pela boca dessa vagabunda.
(Lucas esbravejou encaixando a chave do apartamento na fechadura)


   Jorge respirou fundo e entrou ao lado do filho. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados, por saber que ali aconteceria uma conversa pesada e que em partes era culpa dele. Sua consciência nunca esteve tão pesada e se estava ali, era pra tentar se redimir perante suas atitudes autoritárias. E sabia mais do que ninguém que Lucas sempre precisou de um ombro amigo, um ombro de pai. A sala estava silenciosa. Todos os móveis modernos
espalhados harmoniosamente pelo local, mas não tinham mais a alegria que pareciam ter na presença de Lucas. Apesar de ele nunca ter sido feliz enquanto vivia por ali.

   - Acho que não tem ninguém, filho. (Jorge)
   - Tem, eu sei que tem. (Lucas falou observando algo por trás do sofá)

   Seu sangue pareceu ferver e ele disparou pelo corredor do apartamento. Jorge em surpresa com a corrida repentina do filho, andou rápido pelo mesmo caminho traçado por ele e parou ao ver a expressão de Lucas em frente à porta do quarto. Era de um ódio que talvez ele nunca tivesse visto o filho sentir. Bruna estava sentada sobre as pernas de um homem que Lucas desconhecia. Ambos estavam nus e fumavam entre gargalhadas. Quem visse a expressão dele ao observar tal cena, pensaria que talvez fosse ciúme. Mas nunca houve amor
naquela relação, ciúme seria uma conseqüência inexistente desse fato. Era um rancor, uma raiva e talvez certa decepção por perceber que uma mãe que recentemente havia perdido
o prematuro filho, parecia não se importar. Aquilo doía, assim como os pensamentos que lhe vinham à mente.

   "O tumulo da família de seu pai era estranhamente belo, já que apesar de bonito, carregava a tristeza fúnebre. As flores recentes, com seus cheiros desagradáveis
de cemitério e a angústia. Uma lágrima não havia sido derrubada por ele em momento algum. O choque estava estampado em seus olhos. Tantas coisas haviam acontecido num
período tão curto que sua cabeça parecia tombar, de tão cheia que estava.

   - Lucas?

   Era como se sua mente tivesse recebido um choque instantâneo. Virou lentamente o rosto e lá estava ela. Tão acanhada com os olhos levemente preocupados.

   - Lu, Eu sinto muito! (Yasmin exclamou ajoelhando na frente dele)

   Sentia-se tão estúpido, mas ao vê-la ali parada em sua frente, era como se o freio de suas emoções tivesse rompido e o nó na garganta o sufocado ao extremo. As lágrimas brotaram em seus olhos e ele lutava pra que elas não caíssem. Era homem, isso ultrapassava as barreiras de seu orgulho. E na frente dela… depois de tudo. Ela parecia sentir essa luta mental que ele travava.

   - Não segura, p-por favor… Estou aqui pra te c-consolar. (Yasmin murmurou com a voz embargada enquanto traçava uma linha com os dedos, embaixo dos olhos dele)

   Ele piscou os olhos e o filete de lágrimas escorreu. Nunca havia sentido tanto ódio de si.
Desse estúpido amor que o fazia fraqueja em frente a ela. 

   - Logo que fiquei sabendo, fiz o possível pra vir. Foi difícil por ter que atravessar um oceano, mas eu faria o impossível p-por você. Cheguei no final, mas p-precisava estar ao seu lado. (Yasmin)

   Um silêncio mortal por parte de Lucas, mas ela sabia que era a dor lhe consumindo qualquer palavra que pudesse sair de seus lábios. E seus olhos já cheios de lágrimas,
transbordaram ainda mais ao ver que ele estava com o Alcorão que ela havia lhe
presenteado.


   - L-lucas, diz alguma coisa. P-por favor. (Yasmin sussurrou)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Dezesseis.

   Jorge abriu a boca completamente pasmo. Agora a bola de neve estava sobre a cabeça dele e a culpa gritava em sua mente. Ele havia obrigado Lucas a se casar com Bruna por uma gravidez que nem havia sido provocada por ele. Se arrependimento matasse, ele no mínimo estaria a sete palmos do chão. Lucas havia sido infeliz por alguns meses e no momento, por sua atitude patética. Ele, Lucas, estava parado tentando assimilar tudo. Todas as palavras despejadas sobre a mesa. Tudo que havia acontecido com ele. Um rodamoinho de informações que o faziam sentir enjoo e tontura. Era provação do Divino, era uma seqüência insuportável de bofetadas.

   Levantou-se de um pulo e abriu a porta do escritório de uma maneira que Jorge pensou que seria espatifada no meio. Helen e Fátima levantaram assustadas pela maneira brusca de Lucas ao sair do escritório, e pelo jeito apressado dele ao subir as escadas. Parecia um raio.

   - O que houve? (Fátima perguntou aflita ao ver Jorge e o médico saírem do escritório)
   - Eu já lhe explico… (Jorge falou fazendo menção de subir às escadas)

   Mas ele já aparecia novamente por ali, descendo a escada da mesma maneira apressada como subiu.

   - Aonde você vai? (Jorge)
   - Eu vou matar a Bruna! (Lucas exclamou entre dentes)
A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Quinze.

   Ok, Lucas sabia do envolvimento dela com drogas, mas ela havia garantido pra ele que durante a gestação não tinha ingerido nenhum entorpecente. Deus, ela era uma inconsequente.

   - Cocaína? (Jorge perguntou perplexo)
  - E no dia da queda fictícia, foi encontrado no organismo dela uma quantia razoável de ecstasy. (Doutor Simões)

   Cada coisa falada pelo médico parecia aumentar a bola de neve que estava estacionada sobre a cabeça de Lucas. Ele havia errado, piorou a coisa e muito.

   - Então a morte dele foi por culpa da Bruna? (Jorge perguntou com um tom de voz chateado)
   - Não posso afirmar se foi intencional, já que o usuário de drogas sofre por esse vício. Não sei a que ponto ela tentou se livrar disso na gestação, mas sim… Intencional ou não, ela foi a culpada. (Doutor Simões)

   Lucas deu um longo suspiro.

   - Tem outra coisa… (Doutor Simões)
   - Mais? (Jorge)
   - Infelizmente… estou me sentindo péssimo por ser porta-voz de coisas tão tristes, mas eu acho que o Lucas tem o direito de saber disso. (Doutor Simões)
   - Pode falar. Nada mais me choca. (Lucas)

   Mais uma ilusão.

   - Quando ele nasceu, foi preciso sangue e você foi o primeiro doador. Se tratando do caso em questão, precisávamos saber o nível de compatibilidade entre vocês. E foi descoberto que… (Doutor Simões)
   - Que? (Lucas)
   - Ele não era seu filho. (Doutor Simões)
A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Quatorze.

   - Tudo havia se agravado? Mas não foi apenas por isso? (Jorge perguntou intrigado)
   - Não foi por isso. Aliás, duvido até do tombo… (Doutor Simões afirmou com sinceridade)
   - Como assim? (Lucas)
   - A Bruna não teve uma fratura no corpo. A escada que ela supostamente rolou provocaria ossos quebrados e muitos hematomas. (Doutor Simões)

   - Bruna, o que houve? Me fala, PELO AMOR DE DEUS. (Lucas)
   - E-eu caí… (Bruna choramingou com a mão no ventre)
   - COMO? COMO? (Lucas perguntou desesperado)
   - O-olha… meu c-celular. (Bruna falou num fio de voz)

   Os flashes insistiam em voltar e Lucas tentava entender tudo o que o médico falava, e associava com as imagens que tinha visto.

   - Mas… (Jorge)
  - Sei que tudo parece muito estranho, mas pra nós também não tem explicação uma mentira dessas… mas… (Doutor Simões)
   - Fala tudo de uma vez, Doutor. Por favor… (Lucas implorou temendo coisas mais graves)
  - Tombo descartado. Aí vocês com certeza vão me perguntar a causa dos problemas do bebê e da morte. (Doutor Simões)
   - Certamente. (Jorge afirmou com certa perplexidade no rosto)
  - Ele sofria de Cardiomegalia, que é o aumento anormal do coração. Mas isso tem cura e não seria nossa maior dor de cabeça… mas existiam tantas complicações como falta de oxigênio no cérebro e também anomalias no sistema urinário. (Doutor Simões)
   - É algum problema genético? (Jorge)
  - Não… (dando uma pausa) é provocado pelo uso de entorpecentes, mais precisamente cocaína. (Doutor Simões)

   Jorge e Lucas arregalaram os olhos.
A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Treze.

   No dia seguinte, Lucas desceu as escadas parecendo um zumbi. Tinha um cansaço mental tão grande, que era difícil conseguir andar sem sentir vontade de deitar no chão. Adentrou na sala de jantar e uma mesa farta para o café da manhã. Helen, Fátima e Jorge degustavam calados o desjejum, mas algo intrigou Lucas. O médico que cuidou de seu filho estava ali.


   - Bom dia! (Lucas exclamou com um fio de voz rouca)
   - Bom dia! (Todos)

   Ele sentou-se ao lado da prima, que carinhosa o beijou na bochecha.

   - Querido, o Doutor Simões veio até aqui pra conversar com você sobre algumas coisinhas. (Fátima)
   - Sobre o que? (Lucas perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas)
   - Acho melhor vocês tomarem café primeiro. (Jorge)
   - Como vocês preferirem. (Doutor Simões)

   Agora sim, ele estava muito intrigado. Pra que a presença do médico logo cedo em sua casa? Apenas um dia depois do enterro do bebê. Fátima apenas trocava olhares sérios com Jorge. A tensão tomava conta daquela mesa e um silêncio mórbido. O cérebro de Lucas trabalhava tão rapidamente que o choque de pensamentos lhe abatia ainda mais. E uma preocupação que surgira do além, lhe arrepiava a espinha.

   - Pode entrar doutor. (Lucas falou indicando a porta do escritório para o médico)

   Jorge também entrou. Não deixaria o filho sozinho nessa situação. Algo de errado parecia estar presente e tudo se misturava à angústia de um enterro doloroso. De um bebê.

   - Tia, o que será hein? (Helen perguntou sentando no sofá da sala de estar)
   - Acho que deve ser alguma coisa bem grave, pra ele vir aqui hoje. (Fátima)
   - Só problema… (Helen murmurou)
   - Nem me fale querida, nem me fale. (Fátima afirmou aparentemente chateada)

   Não suportava Bruna, mas seu coração estava em frangalhos por ter que enterrar o neto tão prematuramente. No escritório, um clima pesado pairou.

   - O que aconteceu, doutor? (Lucas)
   - Sei que deveria ter esperado algum tempo pra isso, mas acho que têm coisas das quais, você tem que saber. (Doutor Simões)

   Lucas ficou ainda mais sério. Era paulada em cima de paulada, então qualquer coisa que viesse não teria tanta força pra deixá-lo pior. Doce ilusão.

   - Pode começar. (Jorge)

   O médico abriu uma pasta que trouxera e espalhou pela mesa papéis que pareciam exames.

   - Bem, nós não fizemos autópsia a pedido de vocês, mas desde que ele nasceu estávamos fazendo exames para ver do que ele sofria… (Doutor Simões)
    - E quais são os resultados? (Lucas)
   - Bem, o que tínhamos em mente é que tudo havia se agravado pela queda de Milena… (Doutor Simões)

   Rapidamente a lembrança veio à mente de Lucas...


   O celular de Lucas tocava de maneira irritante, enquanto ele tentava se concentrar em seu trabalho.

   - Alô! (Lucas atendeu, sem nem ao menos ver de quem se tratava)
   - S-socorro, Lu… (Bruna gemeu)


  Lucas levantou da cadeira derrubando sem querer um copo de água em sua mesa e saiu feito uma bala de sua sala. Sabia que se tratava das últimas semanas de gravidez de Bruna e agora seu coração estava pulando pela boca. Sua assistente mal conseguiu contê-lo, e na carteira de habilitação, muitas multas, certamente. Abriu o apartamento com um empurrão apenas e encontrou Bruna caída no chão, na beira da escada. (o apartamento atual dela era um duplex) Ela estava acordada e se contorcendo de dor.

   - BRUNA! (Lucas gritou indo na direção dela)

   A loira apenas apontou o celular caído ao lado dela.

   “Maldito celular” – pensou Lucas voltando à realidade.
 A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Doze.

   Helen adentrou no quarto do primo e sentou-se na espaçosa cama. De fundo ela escutava o barulho do chuveiro. Ele precisava revigorar as energias naquele banho, mesmo que aquilo fosse apenas uma tentativa. Ela teria que apoiá-lo, estar ao seu lado, dar carinho de prima. Helen sempre fora o maior colo que Lucas possuía, depois de Fátima, e como amava aquela prima, qualquer coisa que viesse dela, seria um conforto.

   - Bebê, vou dormir aqui hoje. (Helen falou vendo o primo sair do closet)

   A aparência abatida de Lucas foi capaz de expressar apenas um singelo sorriso. Um sorriso sem brilho, vazio.

   - Não precisa se preocupar comigo, Helenzinha. Você no momento só tem de se preocupar com essa princesa. (Lucas falou sentando-se na cama e passando de leve a mão no ventre dela)
   - Não tenho porque me preocupar com ela, ela está ótima! Claro que muito triste por ver o “primo tio” tão pra baixo. (Helen)
   - Vai passar… (Lucas)

   Helen mordeu a unha do dedão pensando se poderia tocar naquele assunto. Bem, sempre fora impulsiva e agora não seria diferente. Claro que com cautela, pra não machucar ainda mais o coração do primo.

   - Onde você estava depois que saímos do…
   - Helen, não quero falar… (Lucas a interrompeu antes mesmo dela terminar a pergunta)
   - Ok, vou te respeitar. (Helen afirmou sem graça)

   Lucas por dentro, queria poder falar tudo. Mas estava tão magoado… tão ressentido! Queria tanto desabafar com Helen, mas o nó dentro de sua garganta o impedia. Ele queria gritar, sair quebrando qualquer objeto que estivesse a sua frente, mas precisava de autocontrole pra poder levantar a cabeça. Pra respirar.

   - A Yasmin estava lá. Ela teve coragem. (Lucas falou soltando um sorriso irônico)

  Helen voltou a prestar atenção nele, receosa em falar algo. Apenas permaneceu escutando atentamente.

   - Parecia brincadeira vê-la ali, depois de tudo… (Lucas)
   - Lu, eu acho que você está sendo precipitado. (Helen)

   Lucas olhou nos olhos da prima de um jeito frio, algo que assustou Helen. Ele estava transtornado…

   - Precipitada foi a morte de um bebê de quinze dias. (Lucas)
   - L-lucas… (Helen)
   - Quinze dias! Apenas quinze dias meu filho viveu… SÓ QUINZE DIAS! (Lucas esbravejou)

   Os olhos de Helen encheram-se de lágrimas. A situação despedaçava o coração da jovem.
Lucas precisava colocar pra fora toda aquela dor.

   - Eu rejeitei tanto essa gravidez no começo que eu fui castigado. As pessoas costumam morrer quando elas já tiveram uma vida pela frente. Mas me fala Helen, fala se é justo um bebê de quinze dias morrer? ME FALA! (Lucas)
   - E-eu sei o quanto deve estar doendo, querido. (Helen)
   - Eu não sei nem o que eu estou sentindo… se é dor, se é tristeza, se é ódio! Eu perdi duas coisas que eu amava de uma só vez! O mundo tá caindo bem em cima da minha cabeça! Eu não sei o que f-falar… não sei como agir… parece que estou em choque. (Lucas)
   - Você precisa colocar p-pra fora toda essa angústia… E saiba que estamos do seu lado, todos nós. Sua família! (Helen)
   - Eu to me sentindo impotente. Um t-trapo… (Lucas)
   - Deus quis a-assim… infelizmente! Mas de tudo isso temos que tirar uma lição. (Helen)
   - Ele me castigou, por tudo que já fiz na vida… e por ter se enganado com uma… (Lucas)
   - Não fale coisas da qual você se arrependerá depois. (Helen)
   - A única coisa que me arrependo, é ter me envolvido com ela. (Lucas)

   A voz de Lucas ao falar de Yasmin era de uma frieza inexplicável, mas Helen conseguia captar uma forte decepção. Tudo estava tão mal contado. E aquela morte prematura do filho dele. Uma avalanche de tragédias.