quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Dezessete.

   - Lucas, vamos embora! (Jorge murmurou puxando o colarinho da blusa do filho)

   Estavam em frente ao antigo apartamento de Lucas, o qual ele viveu com Bruna quando eram casados. Jorge tinha o acompanhado, pois o estado do filho ao sair de casa era presságio de uma nova tragédia.


   - Nem sob tortura. Cheguei aqui e vou resolver de uma vez por todas… chega de tentar tapar o sol com a peneira. Quero saber de todos os detalhes pela boca dessa vagabunda.
(Lucas esbravejou encaixando a chave do apartamento na fechadura)


   Jorge respirou fundo e entrou ao lado do filho. Seus batimentos cardíacos estavam acelerados, por saber que ali aconteceria uma conversa pesada e que em partes era culpa dele. Sua consciência nunca esteve tão pesada e se estava ali, era pra tentar se redimir perante suas atitudes autoritárias. E sabia mais do que ninguém que Lucas sempre precisou de um ombro amigo, um ombro de pai. A sala estava silenciosa. Todos os móveis modernos
espalhados harmoniosamente pelo local, mas não tinham mais a alegria que pareciam ter na presença de Lucas. Apesar de ele nunca ter sido feliz enquanto vivia por ali.

   - Acho que não tem ninguém, filho. (Jorge)
   - Tem, eu sei que tem. (Lucas falou observando algo por trás do sofá)

   Seu sangue pareceu ferver e ele disparou pelo corredor do apartamento. Jorge em surpresa com a corrida repentina do filho, andou rápido pelo mesmo caminho traçado por ele e parou ao ver a expressão de Lucas em frente à porta do quarto. Era de um ódio que talvez ele nunca tivesse visto o filho sentir. Bruna estava sentada sobre as pernas de um homem que Lucas desconhecia. Ambos estavam nus e fumavam entre gargalhadas. Quem visse a expressão dele ao observar tal cena, pensaria que talvez fosse ciúme. Mas nunca houve amor
naquela relação, ciúme seria uma conseqüência inexistente desse fato. Era um rancor, uma raiva e talvez certa decepção por perceber que uma mãe que recentemente havia perdido
o prematuro filho, parecia não se importar. Aquilo doía, assim como os pensamentos que lhe vinham à mente.

   "O tumulo da família de seu pai era estranhamente belo, já que apesar de bonito, carregava a tristeza fúnebre. As flores recentes, com seus cheiros desagradáveis
de cemitério e a angústia. Uma lágrima não havia sido derrubada por ele em momento algum. O choque estava estampado em seus olhos. Tantas coisas haviam acontecido num
período tão curto que sua cabeça parecia tombar, de tão cheia que estava.

   - Lucas?

   Era como se sua mente tivesse recebido um choque instantâneo. Virou lentamente o rosto e lá estava ela. Tão acanhada com os olhos levemente preocupados.

   - Lu, Eu sinto muito! (Yasmin exclamou ajoelhando na frente dele)

   Sentia-se tão estúpido, mas ao vê-la ali parada em sua frente, era como se o freio de suas emoções tivesse rompido e o nó na garganta o sufocado ao extremo. As lágrimas brotaram em seus olhos e ele lutava pra que elas não caíssem. Era homem, isso ultrapassava as barreiras de seu orgulho. E na frente dela… depois de tudo. Ela parecia sentir essa luta mental que ele travava.

   - Não segura, p-por favor… Estou aqui pra te c-consolar. (Yasmin murmurou com a voz embargada enquanto traçava uma linha com os dedos, embaixo dos olhos dele)

   Ele piscou os olhos e o filete de lágrimas escorreu. Nunca havia sentido tanto ódio de si.
Desse estúpido amor que o fazia fraqueja em frente a ela. 

   - Logo que fiquei sabendo, fiz o possível pra vir. Foi difícil por ter que atravessar um oceano, mas eu faria o impossível p-por você. Cheguei no final, mas p-precisava estar ao seu lado. (Yasmin)

   Um silêncio mortal por parte de Lucas, mas ela sabia que era a dor lhe consumindo qualquer palavra que pudesse sair de seus lábios. E seus olhos já cheios de lágrimas,
transbordaram ainda mais ao ver que ele estava com o Alcorão que ela havia lhe
presenteado.


   - L-lucas, diz alguma coisa. P-por favor. (Yasmin sussurrou)

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