A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Treze.
No dia seguinte, Lucas desceu as escadas parecendo um zumbi. Tinha um cansaço mental tão grande, que era difícil conseguir andar sem sentir vontade de deitar no chão. Adentrou na sala de jantar e uma mesa farta para o café da manhã. Helen, Fátima e Jorge degustavam calados o desjejum, mas algo intrigou Lucas. O médico que cuidou de seu filho estava ali.
- Bom dia! (Lucas exclamou com um fio de voz rouca)
- Bom dia! (Todos)
Ele sentou-se ao lado da prima, que carinhosa o beijou na bochecha.
- Querido, o Doutor Simões veio até aqui pra conversar com você sobre algumas coisinhas. (Fátima)
- Sobre o que? (Lucas perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas)
- Acho melhor vocês tomarem café primeiro. (Jorge)
- Como vocês preferirem. (Doutor Simões)
Agora sim, ele estava muito intrigado. Pra que a presença do médico logo cedo em sua casa? Apenas um dia depois do enterro do bebê. Fátima apenas trocava olhares sérios com Jorge. A tensão tomava conta daquela mesa e um silêncio mórbido. O cérebro de Lucas trabalhava tão rapidamente que o choque de pensamentos lhe abatia ainda mais. E uma preocupação que surgira do além, lhe arrepiava a espinha.
- Pode entrar doutor. (Lucas falou indicando a porta do escritório para o médico)
Jorge também entrou. Não deixaria o filho sozinho nessa situação. Algo de errado parecia estar presente e tudo se misturava à angústia de um enterro doloroso. De um bebê.
- Tia, o que será hein? (Helen perguntou sentando no sofá da sala de estar)
- Acho que deve ser alguma coisa bem grave, pra ele vir aqui hoje. (Fátima)
- Só problema… (Helen murmurou)
- Nem me fale querida, nem me fale. (Fátima afirmou aparentemente chateada)
Não suportava Bruna, mas seu coração estava em frangalhos por ter que enterrar o neto tão prematuramente. No escritório, um clima pesado pairou.
- O que aconteceu, doutor? (Lucas)
- Sei que deveria ter esperado algum tempo pra isso, mas acho que têm coisas das quais, você tem que saber. (Doutor Simões)
Lucas ficou ainda mais sério. Era paulada em cima de paulada, então qualquer coisa que viesse não teria tanta força pra deixá-lo pior. Doce ilusão.
- Pode começar. (Jorge)
O médico abriu uma pasta que trouxera e espalhou pela mesa papéis que pareciam exames.
- Bem, nós não fizemos autópsia a pedido de vocês, mas desde que ele nasceu estávamos fazendo exames para ver do que ele sofria… (Doutor Simões)
- E quais são os resultados? (Lucas)
- Bem, o que tínhamos em mente é que tudo havia se agravado pela queda de Milena… (Doutor Simões)
Rapidamente a lembrança veio à mente de Lucas...
O celular de Lucas tocava de maneira irritante, enquanto ele tentava se concentrar em seu trabalho.
- Alô! (Lucas atendeu, sem nem ao menos ver de quem se tratava)
- S-socorro, Lu… (Bruna gemeu)
Lucas levantou da cadeira derrubando sem querer um copo de água em sua mesa e saiu feito uma bala de sua sala. Sabia que se tratava das últimas semanas de gravidez de Bruna e agora seu coração estava pulando pela boca. Sua assistente mal conseguiu contê-lo, e na carteira de habilitação, muitas multas, certamente. Abriu o apartamento com um empurrão apenas e encontrou Bruna caída no chão, na beira da escada. (o apartamento atual dela era um duplex) Ela estava acordada e se contorcendo de dor.
- BRUNA! (Lucas gritou indo na direção dela)
A loira apenas apontou o celular caído ao lado dela.
“Maldito celular” – pensou Lucas voltando à realidade.
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