A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Doze.
Helen adentrou no quarto do primo e sentou-se na espaçosa cama. De fundo ela escutava o barulho do chuveiro. Ele precisava revigorar as energias naquele banho, mesmo que aquilo fosse apenas uma tentativa. Ela teria que apoiá-lo, estar ao seu lado, dar carinho de prima. Helen sempre fora o maior colo que Lucas possuía, depois de Fátima, e como amava aquela prima, qualquer coisa que viesse dela, seria um conforto.
- Bebê, vou dormir aqui hoje. (Helen falou vendo o primo sair do closet)
A aparência abatida de Lucas foi capaz de expressar apenas um singelo sorriso. Um sorriso sem brilho, vazio.
- Não precisa se preocupar comigo, Helenzinha. Você no momento só tem de se preocupar com essa princesa. (Lucas falou sentando-se na cama e passando de leve a mão no ventre dela)
- Não tenho porque me preocupar com ela, ela está ótima! Claro que muito triste por ver o “primo tio” tão pra baixo. (Helen)
- Vai passar… (Lucas)
Helen mordeu a unha do dedão pensando se poderia tocar naquele assunto. Bem, sempre fora impulsiva e agora não seria diferente. Claro que com cautela, pra não machucar ainda mais o coração do primo.
- Onde você estava depois que saímos do…
- Helen, não quero falar… (Lucas a interrompeu antes mesmo dela terminar a pergunta)
- Ok, vou te respeitar. (Helen afirmou sem graça)
Lucas por dentro, queria poder falar tudo. Mas estava tão magoado… tão ressentido! Queria tanto desabafar com Helen, mas o nó dentro de sua garganta o impedia. Ele queria gritar, sair quebrando qualquer objeto que estivesse a sua frente, mas precisava de autocontrole pra poder levantar a cabeça. Pra respirar.
- A Yasmin estava lá. Ela teve coragem. (Lucas falou soltando um sorriso irônico)
Helen voltou a prestar atenção nele, receosa em falar algo. Apenas permaneceu escutando atentamente.
- Parecia brincadeira vê-la ali, depois de tudo… (Lucas)
- Lu, eu acho que você está sendo precipitado. (Helen)
Lucas olhou nos olhos da prima de um jeito frio, algo que assustou Helen. Ele estava transtornado…
- Precipitada foi a morte de um bebê de quinze dias. (Lucas)
- L-lucas… (Helen)
- Quinze dias! Apenas quinze dias meu filho viveu… SÓ QUINZE DIAS! (Lucas esbravejou)
Os olhos de Helen encheram-se de lágrimas. A situação despedaçava o coração da jovem.
Lucas precisava colocar pra fora toda aquela dor.
- Eu rejeitei tanto essa gravidez no começo que eu fui castigado. As pessoas costumam morrer quando elas já tiveram uma vida pela frente. Mas me fala Helen, fala se é justo um bebê de quinze dias morrer? ME FALA! (Lucas)
- E-eu sei o quanto deve estar doendo, querido. (Helen)
- Eu não sei nem o que eu estou sentindo… se é dor, se é tristeza, se é ódio! Eu perdi duas coisas que eu amava de uma só vez! O mundo tá caindo bem em cima da minha cabeça! Eu não sei o que f-falar… não sei como agir… parece que estou em choque. (Lucas)
- Você precisa colocar p-pra fora toda essa angústia… E saiba que estamos do seu lado, todos nós. Sua família! (Helen)
- Eu to me sentindo impotente. Um t-trapo… (Lucas)
- Deus quis a-assim… infelizmente! Mas de tudo isso temos que tirar uma lição. (Helen)
- Ele me castigou, por tudo que já fiz na vida… e por ter se enganado com uma… (Lucas)
- Não fale coisas da qual você se arrependerá depois. (Helen)
- A única coisa que me arrependo, é ter me envolvido com ela. (Lucas)
A voz de Lucas ao falar de Yasmin era de uma frieza inexplicável, mas Helen conseguia captar uma forte decepção. Tudo estava tão mal contado. E aquela morte prematura do filho dele. Uma avalanche de tragédias.
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