sábado, 22 de setembro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Trezentos

   E o sorriso mais lindo do mundo ele encontrou quando abriu a porta de vidro do box. Somente aquilo fez com que seu coração acelerasse de uma maneira que, a falta de ar era inevitável e as pernas bambas mal o sustentavam de pé. Algo que ele sempre temeu, mas que ele já sentia tomar conta de seu coração, mesmo que não fosse extravasado pela boca, ele sabia que era amor. O início do amor.

   “Certas vezes me pergunto se eu deveria ter me deixado levar por essa relação, pois depois de uma relação conturbada como foi a minha com a Bruna, talvez eu devesse ter agido precipitadamente ao me entregar dessa maneira. Mas coração é assim, não escolhe lugar, data, hora e nem a pessoa… É algo que acontece quando você menos espera, mas sempre quando você necessita. É algo que completa, que encaixa… Cientificamente falando, como o negativo e o positivo que une de maneira magnética as extremidades de um imã… Biologicamente falando, como o cordão umbilical que une o feto com a mãe… Geograficamente falando, como os continentes que mesmo separados por milhões de quilômetros, se fossem aproximados, se encaixariam perfeitamente, como um quebra-cabeça. Palavra chave… Quebra-cabeça. Talvez o amor seja assim, você vai unindo peça a peça, até que no final ele esteja completo. Pelo caminho encontramos peças que não se encaixam. Ou até mesmo, as perdemos, mas sempre se dá um jeito, mesmo que fique faltando algo, ele está ali formado, dando as caras e te fazendo sorrir por apenas formar algo que na maioria das vezes é abstrato. Simples, mas necessário. É isso que ela me faz, me completa!”


   E foi nesse encaixe perfeito, que pensamentos foram aflorados em questão de segundos, como se agora não mais pudessem seguir adiante sozinhos. Era a dependência que dava seus primeiros passos entre os dois. O medo que atormentava a cabeça de ambos… Um oceano os separava, cultura e religiões diferentes, o preconceito… Um casamento que mesmo acabado, ainda tinha um fruto. Tantas coisas passavam pela mente, mas conseguiam ser esquecidas no momento por poderem sentir a pele alheia escorrendo de suor, devido ao prazer que os unia uma vez mais. Às sensações de proteção e o delicioso gosto de beijos que davam o toque inicial e o toque final a que se pode dizer prazer mútuo… Compartilhado. O ato de se entregar sem pensar. Yasmin parecia estar mais mole nos braços de Lucas, que teve que auxilia-la a sair do box, se enxugar e se vestir. A bebida talvez não tivesse sido a melhor opção. A pegou no colo de frente e sorriu quando ela deitou a cabeça na curvatura de seu pescoço. Como uma menininha, aliás, como sua menininha.

   - Ta tudo bem, bebê? (Lucas perguntou e ela apenas afirmou com a cabeça e continuou com a cabeça apoiada no pescoço dele)


   Ele a deitou na cama e percebeu que os olhos dela estavam repletos de lágrimas. Bem, o último estágio de embriaguez. O choro. Sorriu e acariciou a bochecha dela com carinho, e impediu que as lágrimas escorressem pela lateral de seu rosto.

   - Por que esse choro? (Lucas)
   - E-estou com vergonha… (Yasmin sussurrou com a voz embargada)
   - Vergonha do que? (Lucas)
   - De eu e-estar bêbada… Dando esse show todo, a-arrancando a roupa e me oferecendo. E-estou me sentindo u-uma vadia. (Yasmin sussurrou entre alguns soluços)
   - Ei, não fale besteiras e não precisa ter vergonha de mim. Não é porque você quis transar comigo que isso lhe transforme em uma qualquer, pelo contrário. Nós estamos juntos e não há mal nenhum nisso. (Lucas)
  - A-agora você vai ficar convencido e e-eu nem posso comparar c-com outros. (Yasmin brincou entre as lágrimas e sorriu ao terminar a frase)

   Lucas sorriu e mais uma vez acariciou com carinho o rosto dela.

   - Você já é tão importante, Yasmin. (Lucas)

   Ela engoliu em seco e sem pensar muito...

   - Eu to apaixonada por você! (Yasmin)


   Por mais que não seja um eu te amo, o estar apaixonada soa tão bem aos ouvidos de uma pessoa que está completamente envolvida com a outra. Yasmin não estava preparada pra declarar algo mais relacionado ao amor, mas a paixão já gritava forte dentro de seu coração e ela nem queria pensar que mais uma vez ele iria embora dali, tudo bem que em poucos dias ela estaria de férias no Brasil, mas um minuto já estava parecendo uma eternidade. Algo clichê talvez, mas o que realmente se sente. E pra Lucas tudo era recíproco.

   Na manhã seguinte, Yasmin cambaleou pelo quarto até chegar à varanda, onde Lucas estava sentado mexendo em seu notebook. Ela esfregou os olhos e fez um biquinho pra ele que sorriu e bateu as mãos nas coxas, chamando-a. Yasmin rapidamente se jogou no colo dele, deitando a cabeça em seu ombro esquerdo.

   - Bom dia! (Lucas)
   - Bom dia… (Yasmin sussurrou com a voz mais rouca que de costume)
   - Uma ressaca por aí? (Lucas)
  - Acho que um pouco pior. Parece que fui atropelada trinta vezes por um caminhão… (Yasmin)
   - Descansa hoje o dia todo que vai melhorar isso, e a noite voltamos pro Cairo. (Lucas)

   Yasmin apenas suspirou pausadamente. Voltar ao Cairo significava voltar à rotina e logo depois, vê-lo voltar ao Brasil.



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Nove

   - Por que diz isso? (Lucas perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)
   - Sei lá, quis falar. (Yasmin respondeu sorrindo mais do que o normal)

   Era fraca pra bebida e isso podia ser visto de longe. Quem a olhasse naquele estado, teria a plena certeza de que ela havia virado garrafas de Vodka, Vinho e outros destilados, mas foi pouco mais que três copos. Seu organismo não estava acostumado e um vacilo qualquer e ela já estaria em cima de uma mesa embriagada e tirando a roupa.

  - Minha cabeça ta rodando, bebê. (Yasmin resmungou andando pela areia num zig-zag característico de sua embriaguez)
   - Eu fui um imbecil te deixando beber… (Lucas sussurrou preocupado e aproximando-se dela)

   Sem rodeios, pegou-a no colo, a fazendo rir mais uma vez.

   - Hei… Você é o bebê, então eu que tenho que te pegar no colo. (Yasmin falou sorrindo e apertando o nariz dele)
   - Bebês são pequenos e acho que a única pequena aqui, é você. (Lucas)
  - Você pode ser bem grande no tamanho, mas também é pequeno. Meu pequeno. (Yasmin sussurrou com voz de bebê)


   Lucas sorriu e continuou andando pela areia com ela no colo, que vez ou outra brincava com o cabelo dele, fazia alguma graça ou soltava aquelas pérolas que tinha falado a noite toda, depois de ter ficado bêbada. Ao chegarem no hotel, por sorte Lucas conseguiu passar por desapercebido na recepção do hotel, Yasmin cantava baixinho algumas coisas que ele não conseguia entender, mas estava arrepiado por ser praticamente um sussurro em seus ouvidos. Ele abriu a porta do quarto e com uma delicadeza indescritível, ele deitou-a na cama e a beijou na testa.

  - Quer tomar um banho pra relaxar e curar essa embriaguez ou um café forte? (Lucas perguntou sentando na cama)
   - Quero você. (Yasmin)

  Ela falou de uma maneira tão sensual, que Lucas sentiu os pêlos de seu braço arrepiar-se em frações de segundos, fora o frio no estômago.

   - Min. (Lucas)
   - Luc. (Yasmin brincou sorrindo)
   - Confesso que nunca imaginei que ia te ver bêbada. (Lucas)
   - Eu não e-estou bêbada! (Yasmin)
   - Um pouquinho alegre? (Lucas)
   - Feliz. (Yasmin)
   - É? (Lucas)
   - Muito. (Yasmin)
   - Também estou. (Lucas afirmou tocando a bochecha dela com os dedos)


  Yasmin fechou os olhos, desfrutando daquela carícia e ao virar o rosto pro lado, deu um delicado beijinho na mão dele.

   - Você precisa descansar, porque talvez amanhã não acorde muito bem. (Lucas)
   - Eu vou acordar maravilhosamente bem. (Yasmin)
   - Vai? (Lucas)
   - Vou, porque terei uma noite maravilhosamente sensual. (Yasmin)

   Lucas engoliu em seco aquelas palavras e torcendo pra que ela não levantasse daquela cama ou coisa parecida… Mentira, ele desejou isso. Yasmin empurrou-o pelo peito e levantou-se da cama. Lucas virou o pescoço pra ver o que ela pretendia com aquelas palavras e respirou fundo ao vê-la erguer o vestido e deixar à mostra a calcinha. Em seguida ela o passou pela cabeça, ficando apenas de lingerie. Ele fechou os olhos pra tentar ao máximo respeita-la, pois não era do tipo que faria sexo com ela bêbada, já havia feito com outras mulheres embriagadas, mas Yasmin era diferente. E foi nisso que sentiu o vestido voar em sua cabeça e abriu o olho rapidamente. Ela sorria sensualmente, dando uma imagem de Lolita, algo que mexeu com os instintos masculinos dele.

   - Min, não faz isso… Por favor! (Lucas implorou)


   Mas Yasmin parecia estar impossível àquela noite e voou um sutiã, mais uma vez na cabeça dele. E claro que o sorriso sensual apareceu novamente num lindo desenho nos lábios dela. Lucas pediu a todos os santos que o fizessem controlar-se perante àquela cena, mas estava sendo tão difícil, fora que Yasmin dificultava demais tudo.

   - Vem e prova ... Este pedacinho de mim! (Yasmin cantarolou entrando no banheiro somente de calcinha)

   Maldição. Maldição. Maldição. Lucas xingou até a vigésima geração de Yasmin nesse momento, com certeza algum faraó havia sido chamado de desgraçado. Contou até dez pra tentar conter seu entusiasmo já crescente e teve a conclusão que muçulmanas são piores do que as mulheres de outras religiões, sensualmente falando, pois elas se escondem por debaixo dos panos, no caso de Yasmin, por debaixo dos véus.

   - Vem e toma ... Uma provadinha de mim! (Yasmin cantarolou uma vez mais, num tom um pouco mais alto pra que ele pudesse escutar)

   E o barulho de chuveiro sendo ligado, ecoou no quarto. Não há ser humano que agüente.

   - Ok, não tenho sangue de barata. Desisto! Nunca fui forte mesmo, sou fraco assumido! (Lucas exclamou levantando-se da cama e andando apressadamente até ao banheiro)

   Pelo caminho, as roupas dele foram voando pelos ares.



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Oito


   “Um dia ouvi um sábio ditado que falava: "Não há mal que não se acabe e não há bem que se perdure". É como se eu pudesse refletir que nada anda constantemente, nunca sabemos o que será do hoje, do amanhã. Mas sabemos que um dia acaba, tudo! E eu consigo sentir que a energia pesada ronda e se um fraquejar durante o caminho, o outro acaba fraquejando junto. Se eu tenho força, você também terá! Se eu não tenho, você também não terá! É um imã que encaixa o positivo e o negativo, mas que se solta caso os lados se modifiquem. O elo se desfaz e apenas a força de vontade e uma grande dose de amor podem conseguir reconstruí-lo. Eu temo…”





   A noite Yasmin e Lucas estavam andando pela região do hotel. Como tradição de uma cidade praiana, tinha quiosques que vendiam alguns quitutes e bebida alcoólica, afinal ali era um ponto turístico do Egito e apesar das tradições serem contrárias ao uso do álcool, eles tinham que respeitar a cultura dos milhares de estrangeiros que por ali passavam. Yasmin, que há tempos não desfrutava de uma bebida, acabou optando por tomar uns drinks, coisa que começou a deixá-la alegre demais.

   - Sabe, há um tempão que eu não bebia nada. Tequila então, nunca mais na minha vida. (Yasmin afirmou num tom um pouco mais alto e rindo ao terminar a frase)
   - Não é bom parar então? (Lucas)
   - Não. Deixa eu tomar? Sabe, de vez em quando é bom parar de ser a santa que não bebe, não se droga e não fo… (Yasmin antes de terminar a frase, caiu na gargalhada)
   - Yasmin. (Lucas falou sorrindo)
   - Apesar que eu não posso ser santa, porque santos fazem parte da igreja católica e eu sou muçulmana. Tudo bem que eu uso decote e que às vezes minha calcinha aparece quando eu uso mini saia, mas eu sou Odalisca ora. E Odaliscas são indecentes. Você sabe o que uma Odalisca faz não é? (Yasmin)
   - Dançam? (Lucas)
   - Não. As Odaliscas na verdade… (chamando-o perto e rindo) Elas são putas. (gargalhando)

   Lucas não conseguiu segurar a risada, pois em dois minutos de bebida, Yasmin já havia mudado completamente o comportamento.

   - Você já pegou alguma puta? E quando digo puta, não me refiro a sua ex, me refiro as que você tem que pagar pra comer. (Yasmin despejou falando um pouco enrolando e sempre gargalhando no final de cada frase)
   - Min, eu não devia ter deixado você beber nem um gole de álcool, sério… (Lucas)
   - Qual o problema de beber? (Yasmin)
   - Faz um mal danado e ainda você fala coisas que não é muito parecido com as suas atitudes sóbrias. (Lucas)

   - Eu me escondo embaixo dos véus, coisa linda. Quer dizer, eu me escondi, mas depois eu apareci pra você e ainda fiquei pelada. (Yasmin falou alto)
   - Yasmin. (Lucas)
   - Você não pode contar pra minha mãe que eu fiquei pelada, ela me mata. Capaz de ela me mandar pro tribunal islâmico e eu apanho e ainda viro Odalisca no literal da palavra. (Yasmin)
   - Eu acho melhor nós irmos andando, assim você toma um banho gelado e eu peço um café forte pra você voltar ao normal. (Lucas afirmou levantando-se)
   - Café não, pede uma vodka. Mas ir embora agora vai ser tão chato. (Yasmin)
   - Não vai, prometo. (Lucas falou com paciência e a ajudou a levantar-se)

   Yasmin acabou dando uma cambaleada e ria sozinha com cada tropeço que dava, apesar de Lucas lhe auxiliar. Lucas acabou optando por andarem pela areia, seria mais fácil pra achar o hotel e também, mais tranqüilo devido ao estado de Yasmin.

   - Você se aproveitaria de uma mulher bêbada? (Yasmin perguntou depois de um silêncio repentino, a voz dela começava a ficar rouca e estava mais enrolada)
   - Por que essa pergunta? (Lucas)
   - Meu ex-namorado uma vez me embebedou, na verdade ele fez isso pra eu ficar bem fácil e… (Yasmin diminuiu o tom de voz e aproximou-se pra falar no ouvido dele) Ele queria me comer. (sussurrando e gargalhando)

   Lucas pôs a mão na testa, sentindo duas coisas naquele momento. Vontade de matar esse tal ex-namorado e arrependendo-se amargamente por ter deixado Yasmin beber, pois ela parecia muito desbocada com algumas gotas de álcool no sangue.

   - Mas ele não conseguiu. Eu não dei! E sabe por quê? Porque o papel de me comer, foi direcionado a você! (Yasmin exclamou gargalhando)
    - Yasmin, olha a boca. (Lucas murmurou sem saber o que fazer)
   - Pode confessar que quando você me viu pela primeira vez, ficou com vontade de me pegar de jeito. Eu sei que é assim. Você devia pensar “nossa que mulher gostosa, essa eu pego”. (Yasmin brincava com os tons de voz, fazendo com que o papo picante na verdade ficasse engraçado)

   - Meu Deus do céu, alguém raptou a Yasmin Rosa ou é impressão minha? (Lucas)
   - Ninguém raptou, eu to aqui. (Yasmin respondeu sorrindo)
   - Só no corpo. (Lucas)
   - No corpinho sexy, confesse. (Yasmin)
   - Ok, confesso. No corpinho super sexy. (Lucas falou sorrindo e beijando-a na bochecha)
   - Seu corpinho também é sexy, muito sexy. (Yasmin falou numa tentativa de assoviar, mas claro que tentativa fracassada)

   Lucas continuou sorrindo e escutando tudo que ela estava liberando, mas claro que sabia que a ressaca seria das bravas.

   - Quando eu te vi pela primeira vez, na hora pensei “esse aí é pra casar”. Mas eu descobri que você era casado, então teria que ser “esse aí é pra ver se divorciando”. (Yasmin)
   - Baixinha, você vai acabar revelando todos os seus segredos. (Lucas)
   - Não tenho segredos, eu sou super transparente. (Yasmin)
   - São segredos da sua alma. (Lucas)
  - Bebê, me bateu um sono agora. (Yasmin falou esquecendo o assunto anterior e bocejando em seguida)
   - Você precisa curar essa bebedeira, senão amanhã nem levanta. (Lucas)
   - Você deveria ter ficado bêbado também. (Yasmin)
   - Sem condições, se eu começo a beber não paro e os dois bêbados não seria recomendável. (Lucas)
   - Mas eu queria te ver bêbado. (Yasmin)
   - Oportunidades não vão faltar. (Lucas)

   E passavam alguns segundos e Yasmin voltava a tagarelar alguma coisa insana. Havia se transformado com poucos copos de bebida alcoólica, provando que era mesmo fraca pra isso, mas as coisas que ela estava soltando eram tão comprometedoras e engraçadas ao mesmo tempo que Lucas dava boas gargalhadas escutando.

   - Posso prever uma coisa? (Yasmin)
   - Que coisa? (Lucas)
   - Você vai ser o cara mais bem sucedido do mundo, mas vai chorar. (Yasmin)

   O tom de voz que Yasmin havia falado foi tão sério, que Lucas acabou sentindo um arrepio percorrer toda sua coluna. Yasmin às vezes o assustava, sendo com atitudes ou palavras que surgiam do nada, quando ele menos esperava.




A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Sete

   Em São Paulo, o clima começaria a esquentar pela visita que Fátima tinha recebido. Suspirou ao ver a ex-nora sentada no espaçoso sofá repleto de almofadas. Bruna, teria que enfrentá-la, pois sabia que se ela estava ali, pra falar coisa boa que não era.

   - Bruna. (Fátima falou suavemente e se aproximou pra cumprimentá-la) 
   - Olá. (Bruna respondeu seca)

   Sempre fora assim, então era algo que Fátima até ignorava.

   - Como está meu netinho? (Fátima perguntou sentando-se no sofá)
   - Bem… (Bruna)
   - Que bom! Quer beber algo? (Fátima)
   - Não. Quero ir direto ao ponto, porque vamos ser sinceras, você não gosta de mim e isso é recíproco. Então sem cerimônias ok? (Bruna)

   Fátima respirou fundo, se não fosse o fato de Bruna estar grávida de um neto dela, com certeza estaria sendo colocada pra fora aos tapas.

   - Ok! (Fátima)

   - Já está sabendo da grande novidade? (Bruna perguntou debochando)
   - Não disse que ia direto ao ponto? (Fátima)
   - É que acabei pensando bem e acho que é melhor eu ir aos poucos, afinal de contas você já não é mais tão jovem, logo poderia ter um ataque do coração e confesso que não gosto desse tipo de cena. (Bruna)
   - Sempre tão gentil e educada. (Fátima debochou)
   - Claro! (Bruna)
   - Fale logo o que quer… (Fátima)
   - Já conheceu sua nova norinha? (Bruna)
   - Que? (Fátima)
   - Como eu imaginava. O Lucas é bem ingrato mesmo, nem pra contar pra mãezinha querida dele que já arranjou uma namorada. (Bruna)
   - Namorada? (Fátima perguntou surpresa)
   - Sim, e com alguns pontos pra começar. Trabalha no hotel do Egito, é uma Odalisca. Sabe o que significa Odalisca não é? Pois é, fora que ouvi falar que naquele hotel tem muita prostituição, principalmente com as que dançam. Fora que deve ser bem interessante você pegar o patrão. Aquela história de golpe sabe? Bem, eu fui chamada de golpista, então pelo jeito tenho uma sucessora. (Bruna envenenou e levantou-se do sofá)

   Fátima estava calada, tentando absorver tudo.

   - E se duvida, aqui estão algumas cenas românticas. (Bruna falou jogando em cima de Fátima as fotos que tinham cenas de Yasmin e Lucas)

   Sorriu de canto e saiu da casa. Fátima respirou fundo tentando digerir todas aquelas palavras ditas por Bruna. Foi um bombardeio de uma só vez. Levantou uma das fotos e suspirou vendo que ela estava falando a verdade. Era Lucas com uma jovem, bastante bonita e ele a abraçava. A jovem sorria de uma maneira que demonstrava felicidade. Pegou outra foto e um beijo. Tudo estava começando outra vez?



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Seis

   Sentiu um pânico enorme tomar conta de seus sentidos. Como se suas artérias tivessem fechado ao mesmo tempo, o deixando sem forças pra respirar. Sempre tinha pânico quando alguém o pegava fazendo algo errado. Letícia respirou fundo, indignada. Odiava ver qualquer tipo de violência, mais ainda contra uma mulher. Uma mulher indefesa… Aliás, todas as mulheres são indefesas perante um homem, por mais corajosas que fossem, seria impossível debater na força física com um homem, apenas as que eram lutadoras. Conclusão, a raiva lhe consumiu.

   A esposa de Marcelo, sem querer deu uma soluçada alta, chamando ainda mais a atenção de Letícia. Ela estava no chão, chorando e pela expressão, envergonhada. Deus do céu, Letícia se revoltou ainda mais.

   - Quero que você saia dessa sala, agora! (Letícia)
   - Eu tenho como expli… (Marcelo tentou se defender)
   - AGORA! (Letícia)

   Marcelo engoliu uma vez mais o orgulho, agora ainda mais por ter que abaixar a cabeça pra uma mulher. Saiu da sala batendo com força a porta, fazendo Letícia fechar os olhos e apertá-los devido ao barulho. Acertaria as contas com Marcelo, na presença de algum homem, pois sabendo sua fragilidade, não teria como enfrentá-lo sozinho, apesar de tudo. Ajoelhou-se na frente daquela pobre moça. A aparência angelical, parecia cansada e envelhecida. Os olhos que passavam uma dor profunda. Teve que morder o lábio pra não chorar com aquela criatura a sua frente.

   - Fala português não é? (Letícia)
   - S-sim… (a esposa murmurou fungando o nariz)
   - Qual seu nome? (Letícia)

   - B-bárbara… (Bárbara)
   - Como ele pôde? Ah que ódio disso… (Letícia resmungou irritada ao ver um vermelhão na bochecha direita dela)
   - E-eu não sei… (Bárbara sussurrou chorando)
   - Há quanto tempo ele faz isso com você? (Letícia)

   Letícia não obteve resposta, concluindo que há tempos ele já fazia isso.

   - Querida, eu sinto muito! (Letícia)

   E buscando um consolo, Bárbara acabou deitando a cabeça no colo de Letícia e caiu num choro ainda mais desconsolável. Letícia arregalou os belos olhos, totalmente surpresa com a reação de Bárbara, mas depois acabou sentindo algumas lágrimas embaçando sua visão por ver a tristeza estampada naquela mulher. Sentiu uma grande pena…

   - Vai ficar tudo bem… (Letícia consolou-a)
   - N-não vai… (Bárbara sussurrou)
   - Vai sim, Deus existe e vai te ajudar! E você tem que se separar desse cafajeste. (Letícia)
  - Eu não posso me separar d-dele, a-agora mais ainda. (Bárbara falou chorando compulsivamente)
   - Claro que pode. Nós mulheres devemos ser guerreiras e lutar contra a violência que sofremos. Não pode continuar com um crápula desses. (Letícia)
   - Meus f-filhos, não tenho como c-cuidar deles com m-meu dinheiro. E agora e-eu to grávida de novo… Vim f-falar isso pro Marcelo. (Bárbara confessou aos prantos)
   - Ai meu Deus! Como grávida? (Letícia)

   Mais um choro forte foi dado por Bárbara e ao não responder, Letícia acabou entendendo o motivo. Sua revolta chegou a picos altos de fúria. Era muita maldade reunida em um só ser humano.

   - Eu vou denunciar esse cara! (Letícia exclamou decidida e levantando-se do chão)
   - NÃO! N-não pode fazer isso… (Bárbara)
   - Não só posso como vou, ele te violentou e ainda te agride… Se você não denuncia as coisas vão piorar cada vez mais. (Letícia falou séria)
   - Estamos n-num país islâmico, o-onde nada disso importa… (Bárbara)
   - Vou à embaixada então. Ainda vou demitir esse mau caráter. (Letícia)
   - O-os meus filhos… (Bárbara)
   - Eu vou te ajudar, se acalme. (Letícia)

   Letícia tirou o iphone de seu bolso e discou pra um número, a fim de resolver de uma vez por todas aquela situação. Não iria interromper os dias que Lucas havia pegado pra viajar, iria tentar contato com Taylor e Jorge, ou então, mesmo temendo uma reação de Marcelo, ela teria que enfrentá-lo.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Cinco

   - A traição é bem complicada. (Yasmin)
   - Eu sempre tomo na cabeça, literalmente falando. Não tenho sorte pra essas coisas. (Lucas)
   - Eu não vou trair você. (Yasmin)
   - Eu acredito, baixinha. (Lucas falou sorrindo)


   No Cairo, Letícia observava de longe as atitudes de Marcelo. Ora inquieto, ora calmo, ora tempestivo. Bipolar talvez? Ou um psicopata? Ela apesar da má fama de limitada a certas coisas, tinha um grande conhecimento sobre pessoas que tinham sérios problemas psicológicos. Sua irmã, Daniele, era formada em Psiquiatria e com a convivência, ela acabou pegando alguns conhecimentos. Em pouco tempo já havia percebido a forte obsessão que ele tinha por Yasmin. Na maneira como a olhava, nos ataques, na perseguição. Não era amor reprimido, era um amor fatal, se é que poderia ser considerado amor. Mas ele guardava dentro de si algo que pra Letícia era indecifrável, uma incógnita. E odiava quando não conseguia desvendar as coisas, apesar de já ter feito muito por esse caso. Foi pensando nisso que viu uma mulher de aparência jovem, mas com um rosto sofrido. Ela conversava com Marcelo e ele não parecia tão confortável com a presença dela. Letícia o viu puxá-la pelo braço e sair dali. Ela sem pensar duas vezes, levantou-se e seguiu o mesmo caminho por entre os corredores do hotel. Encostou com cuidado a cabeça na porta e escutou algo relacionado a um choro. Choro feminino. Segurou-se pra não arrombar a porta, na verdade não teria força pra isso, mas a vontade lhe fazia transformar-se em Hulk e quebrar tudo pela frente. Havia pegado uma raiva grande de Marcelo e ver que uma mulher chorava na presença dele, era motivo suficiente pra matá-lo, mesmo não sabendo o motivo do choro.

   Do lado de dentro.

   - Por que veio? (Marcelo perguntou com raiva)

   Sua esposa havia ido atrás dele, apesar de todas as humilhações que sofria, não tinha pra onde correr. Desde cedo se virava sozinha, mas os filhos pequenos a faziam pensar duas vezes pra cometer uma loucura. Não iria conseguir sustentá-los e conhecendo a índole de Marcelo, com certeza perderia a guarda deles. Algo não citado é a forma como ela se sustentava. Não era uma prostituta, mas trabalhava em um bordel como garçonete, lugar onde pra sua desgraça, falando claro, conheceu Marcelo. Ele sempre que podia jogava essas coisas na cara dela, como se ela tivesse feito parte do grupo das prostitutas.

   - E-eu… (ela tentava falar, mas não conseguia)
   - Vai embora daqui, sua presença não é agradável. Fora que existem pessoas aqui que freqüentavam o lugar onde você trabalhava e não é bom pra minha imagem ser casado com uma piranha. (Marcelo despejou sem dó)
   - NÃO SOU NADA DISSO. (ela gritou com raiva)

   E nesse momento, o forte estalo da mão dele foi de encontro ao rosto dela. Um tapa que a fez desequilibrar-se e quase ir ao chão. E pra sorte dela, apesar de tudo, a porta havia sido aberta naquele instante e Letícia havia visto tudo. E algo que ela não admitiria nunca, violência contra uma mulher e estando no ambiente de trabalho era motivo suficiente pra colocá-lo pra fora dali.

   Marcelo arregalou os olhos ao ver Letícia parada na porta.

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Quatro

   As fotos eram abertas no notebook e os olhos cheios de ódio direcionavam olhares de repulsa. Inveja! Não poderia pensar que havia sido trocada por uma simples funcionária dos hotéis cujo dono era seu sogro, e que morava num país medíocre. Empregada que deveria implorar por míseros trocados, caso contrário morreria de fome, enquanto Bruna com o mesmo valor nem abastecia o tanque de sua BMW. Nem sua calcinha mais vagabunda custava tão pouco. Yasmin? A mera Odalisca que não era nada, ninguém! Seu orgulho explodia de raiva. Não admitia tal coisa, se fosse uma mulher da alta sociedade, que a desbancasse tudo bem, mas ela? Ah, teria que mudar certas coisas e sabia bem onde atingir.

   O Sol despontou irradiante naquele dia. O céu parecia mais azul que o de costume e nuvens não existiam. Um dia perfeito? Se não fosse perfeito, com certeza chegaria bem perto, ainda mais que resquício de briga no dia anterior, havia ficado pra ontem literalmente. Yasmin vestia um biquíni branco liso, contrastando com seu tom de pele natural, que era mais bronzeado e um short jeans. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto e descalça, já que tinha uma filosofia quanto aos pés no chão. “Energia ruim desce pelos pés e vai pra terra. Energia boa da natureza sobe pelos pés!” Não era de sua religião, apenas algo que ela particularmente acreditava.

   - É engraçado ver uma muçulmana de biquíni. (Lucas falou aproximando-se e sorrindo)

   Yasmin virou dando um sorriso cúmplice e o olhou de cima a baixo. A barba por fazer, sem camisa e com uma bermuda branca. Os óculos escuros e aquela pinta de galã que era sua marca.

   - Sou a ovelha negra do Islamismo, não tem jeito. (Yasmin concluiu rindo)
   - Não, você é exclusiva e isso me soa bem interessante. (Lucas falou puxando-a pra um abraço)
   - Bom saber disso… (Yasmin)
   - Sugere algum lugar que tenha conhecido e que queira me mostrar? (Lucas)
   - Tem um lugar que eu fui e que me encantou. Acho que você também vai gostar. (Yasmin)
   - Então vamos. (Lucas)

   O penhasco ficava à beira do mar. A altura proporcionava uma vista deslumbrante de toda a extensão do Canal de Suéz.

   - Que lindo! (Lucas falou assoviando)
   - Muito lindo e ainda revitaliza energias. (Yasmin falou sentando-se no chão)

   Ficou quieta mirando atentamente as ondas baterem na parte de baixo do penhasco. A natureza daquele lugar lhe fazia lembrar de toda sua vida anterior ao Egito. Havia ido ali quando acabara de se mudar pro Cairo e recordava o quanto havia chorado naquele mesmo pedaço em que agora estava sentada.

   - Você desliga às vezes. (Lucas falou sentando ao lado dela)
   - Reflexões apenas. (Yasmin)
   - Não quer compartilhar? (Lucas)
   - Eu já te encho demais. (Yasmin falou sorrindo)
   - Pode falar, eu gosto de escutar suas histórias, são aprendizados de vida. (Lucas)
   - Sabe, você e a Nana são as únicas pessoas que eu consigo falar tudo, desabafar. Até com minha mãe tenho um pouco de receio de falar, mas com vocês não. (Yasmin)
   - Isso me faz importante não? (Lucas)
   - Bastante. (Yasmin)
   - Então já que sou tão importante assim, fala o que passa dentro dessa cabecinha. (Lucas)

   Yasmin olhou novamente o mar e começou a falar.

   - Eu vim aqui, quando me mudei pro Cairo. Tinha passado por dores irreparáveis a tão pouco tempo. (Yasmin)
   - Posso perguntar uma coisa? (Lucas)
   - Pode. (Yasmin)
   - O que dói mais em você, a perda de seu pai ou a história com seu tio? (Lucas)

   Yasmin respirou fundo, entrar em detalhes nessas duas histórias cutucavam as feridas que ainda estavam em carne viva dentro de sua alma, mas ela precisava cada vez mais se libertar disso.

   - O meu pai. Se ele estivesse vivo, eu estaria pouco me importando com tentativa de estupro ou não. (Yasmin respondeu melancólica)
   - Sente muita falta dele não é? (Lucas)
   - Demais. Ele e eu tínhamos uma relação perfeita, nunca brigamos. É até surpreendente algo assim, mas é verdade. Ele nunca se opôs ao meu jeito mais revolucionário, coisa que pra um muçulmano é difícil de aceitar. Ele várias vezes me defendeu por isso, perante à família e fora o jeito que ele me tratava, que ele me acolhia. (Yasmin)
   - Eu sinto muito por ter o perdido e juro que queria ter o conhecido, pois ele fez algo muito especial, que foi ter sido pai de uma garota tão incrível como você. (Lucas sussurrou dedilhando o rosto dela)

   Yasmin sorriu abaixando a cabeça e respirando fundo, segurando-se pra não desabafar com lágrimas. Bem, sempre fora chorona e falar de seu pai, escutando essas doces palavras de Lucas, era um motivo certeiro.

   - Eu sempre falo de minhas coisas, mas você sempre fala por cima. Me conta alguma coisa. (Yasmin)
   - O que quer saber sobre mim? (Lucas)
   - Ah não sei, fala algo que não tenha me contado. (Yasmin)
   - Não sei o que falar. (Lucas)
   - Fala de suas ex-namoradas, sei lá. (Yasmin)
   - Ok, vou confessar uma coisa. (Lucas)
   - Confesse. (Yasmin)
   - Eu já namorei a Let. (Lucas)
   - Sério? (Yasmin perguntou surpresa)
   - Sim. Na verdade nem podemos considerar um namoro já que foi pouco tempo, mas tive uma relação com ela. (Lucas)
   - E por que acabou? (Yasmin)
   - Ela me traiu. (Lucas respondeu rindo)
   - E você ri? (Yasmin)
   - Dou risada hoje em dia porque a Let não deixa de ser uma diabinha, mas na época fiquei mal. (Lucas)
   - Então significa que se não tivesse a traição, vocês estariam até hoje juntos? (Yasmin)

   Seria muita ilusão da parte de Lucas ou realmente ele havia percebido um pouco de ciúmes da pergunta?

   - Não estaríamos, era pra ser assim. Apesar de adorar a Let, nós dois temos personalidades muito diferentes e no nosso caso não funciona aquilo de os opostos se atraem. Fora que ela sempre foi bastante adepta da traição e isso pra mim é inaceitável. (Lucas)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Três.

   Lucas respirou fundo e virou sentando-se na cama novamente.

   - Vamos combinar uma coisa? Você faz uma lista de como um homem tem que agir e ser perfeito, depois me passa. (Lucas)
   - Não quero que mude, quero que continue sendo assim do jeito que é. (Yasmin afirmou deslizando os dedos pelo rosto dele)
   - A cada minuto você vem com uma novidade. (Lucas)
   - É a minha proteção. (Yasmin murmurou suspirando)
   - Por que você quer se proteger de mim? (Lucas)
   - Estou muito envolvida… Isso me assusta. (Yasmin)
   - Deixe fluir, que o dia de amanhã veremos como será. Não programe algo que nem você mesma sabe como será. E às vezes um relacionamento perfeito, se destrói bem mais do que o imperfeito. (Lucas)
   - Não quero viver nada perfeito, isso não existe, mas eu não quero temer às coisas, como temo. (Yasmin)
   - Relaxa Yasmin. Eu não tenho a mesma índole do seu tio… Eu posso não ser o exemplo de ser humano, mas não sou um crápula igual ele. (Lucas)

   Yasmin engoliu em seco as palavras dele, somente ouvir falar algo a respeito de seu tio, a fazia entrar em choque.

   - P-por que ta falando dele? (Yasmin perguntou com a voz entrecortada)
   - Primeiro porque você está idealizando que todos os homens são iguais a ele, e pra você ver como é dolorido quando cutucam sua ferida. (Lucas)
   - O que ele me fez p-passar é bem pior d-do que todos os seus problemas juntos. (Yasmin rebateu)
   - Sabe por que você acha isso? Porque você sentiu na pele. E eu também sinto na pele todos os problemas que tenho. Sei que a proporção da gravidade entre nossos problemas, são bem diferentes, mas cada um sente a sua dor. Logo temos que saber apontar alguma coisa no outro, porque na maioria das vezes e eu arriscaria que em todas elas, temos telhado de vidro, sendo assim não podemos jogar pedra no dos outros. (Lucas)

   
   Lucas havia acertado-a de cheio e no ponto vital. Ela suspirou engolindo o choro… Sabia que nessa de “proteção”, havia falado demais e nem se preocupou que com isso ela o magoaria. Conclusão, havia sido egoísta e isso é um dos pontos que mais deve-se abandonar quando se tem um relacionamento a dois, logo pôde concluir que antes de querer apontar algo de errado em alguém, tem que ver que o outro é como um espelho que reflete suas maiores fraquezas.

   - D-desculpa. (Yasmin sussurrou respirando fundo)
   - Min, eu sei que eu não tenho metade da sua coragem, já que você largou seu país e sua família pra viver num país totalmente oposto dos seus costumes, apesar de estar na mesma religião. Eu me orgulho por estar ao lado de alguém assim, que está me ensinando a ser um pouco mais verdadeiro e a tentar fazer o que quer, juro que estou fazendo o meu máximo, e acho que tenho resultados positivos até o momento. Está sendo difícil engolir meus traumas, mas eu ainda vou ser o cara perfeito pra você. (Lucas)
   - Eu não quero ninguém perfeito, eu s-só quero poder recomeçar a minha vida sentimental. Me perdoa, eu n-não sei agir com as palavras. (Yasmin murmurou com os olhos cheios de lágrima)
   - Nós dois estamos frustrados com o amor, vamos fazer o seguinte… Vamos juntos superar isso tudo, não importa as cabeçadas que daremos pelo caminho, o importante é seguirmos juntos. Eu preciso disso, a minha dependência por você está aumentando a cada dia e confesso que também me assusto, mas eu não quero fugir, eu quero viver isso e sei que se não viver, vou surtar. (Lucas)
   - T-também quero viver… (Yasmin)
   - Então abre seu coração pra mim. (Lucas)

   Yasmin respirou fundo. Era tão complicado poder afirmar pra alguém o quanto ela estava apaixonada, depois de tantas desilusões em vários aspectos de sua vida. Amor era algo que ela guardava dentro de si, principalmente quando os flashes invadiam sua mente, atormentando-a. Mais um segredo, mais um trauma.

   
Thiago era uma pessoa que Yasmin acreditava ser seu futuro. Não sabia afirmar se ele era o amor de sua vida, mas era apegada a ele e sabia o quanto poderia afetar-se caso aquele relacionamento não fosse pra frente. Assim como ela, sua família era de tradições islâmicas, porém não egípcios, e sim marroquinos. Relacionamento que era aprovado pelas famílias, afinal as tradições religiosas seriam seguidas, mas entre os dois, seria o modo ocidental. Sem grandes radicalismos. Mas algo que deveria ser crucial entre os dois, acabou não sendo. Bem, por parte dele e motivo suficiente pra Yasmin sentir o coração despedaçado, pois o amar dela, era o confiar cegamente e achar que jamais seria passada pra trás. Os olhos encheram-se de lágrimas quando ela entrou naquela igreja católica. Apenas duas pessoas na frente do padre. Thiago de mãos dadas com uma mulher, fazendo juramentos de casamento numa religião oposta à sua e ainda comprometido com ela. Não foi o fato de ser numa igreja católica, foi vê-lo enganar a todos e enganado seu coração.

   Yasmin nunca foi do tipo de julgar os outros, talvez eles estivessem apaixonados e isso era algo que não existia entre ela e ele. Havia uma confiança incrível e talvez seja isso que a tenha feito sofrer, pois a decepção teve proporções gigantescas. E como confiaria em algum homem? Era tão difícil, mas agora as coisas eram de certa forma opostas. Yasmin não estava tão entregue à Thiago no sentido do amor, como estava com Lucas e ele havia dado provas suficientes de que também estava entregue. Havia sido grossa por uma defesa, mas sabia que ele não era culpado por suas frustrações, mas temia muito se entregar uma vez mais e mais pra frente, a decepção bater novamente em sua porta. Mas teria que arriscar.

   - E-eu já abri… E e-espero que você cuide bem dele. (Yasmin sussurrou sincera)

   Lucas abriu um lindo sorriso e puxou-a para um abraço, encostando a cabeça dela em seu peito, deixando-a escutar as batidas frenéticas de seu coração.

   - Sei que tem vários traumas, Odalisca. Que nunca sua vida foi um mar de rosas, mas peço que confie em mim, pois eu quero progredir como ser humano e sei que você é a pessoa certa pra me oferecer isso. Fora que quero amar, de verdade. Sem loucuras como já cometi, sem irresponsabilidades. Eu decidi que você tem que estar do meu lado, isso pra mim é essencial hoje em dia, assim como a felicidade de meu filho. Mas eu preciso de um voto de confiança. (Lucas pediu ainda abraçado à ela)

   Escutou apenas um suspiro que ele jurava ser o princípio de um choro e estava certo. Em silêncio, mas de um modo que cortava o coração dele.

   - Meu coração parte em cinco pedaços, quando eu te vejo chorando. Isso me faz um mal imenso. (Lucas)
   - D-desculpa. (Yasmin sussurrou tentando evitar a voz embargada)
   - Pode desabafar o quanto quiser, sei que necessita de um ombro. Mas não se desespera tanto, porque daqui pra frente estaremos juntos, em tudo. Pequena! (Lucas)

   Ele puxou o rosto dela pra cima, desenhando coisas com as pontas dos dedos, acariciando cada parte e fazendo o coração dela explodir de uma felicidade que superava todas as suas expectativas. Um sentimento forte gritando dentro de seu peito e uma vontade imensa de se precipitar quanto à palavras, mas segurou pra não botar os pés pelas mãos. Sabia que aquilo estava entalado em sua garganta, mas enjaulado em seu peito. Demonstrando, Yasmin o puxou pela nuca deliciando-se nos lábios dele. Terminaram pela madrugada, podendo provar novamente da pele e do calor alheio.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Dois.

   - M-medo… (Yasmin sussurrou num fio de voz e abaixou a cabeça)

   Lucas por segundos a analisou. Pegou em uma de suas mãos e com a outra livre, tocou no queixo dela fazendo-a olhar em seus olhos.

   - Medo do que? (Lucas)
   - De me decepcionar. (Yasmin)
   - Você acha que eu seria capaz de te decepcionar? (Lucas perguntou sério)
   - Nenhum ser humano é perfeito, todos nós erramos e não temos a noção da proporção de mágoas que deixamos nas pessoas. Não estou dizendo que você fará isso, mas temo pelo incerto. (Yasmin)
   - Nossa relação é incerta? (Lucas)
   - Ela começou incerta e é na estaca zero que traçamos a linha de algo. Já que se começa errado, é muito difícil conseguirmos endireitá-lo. (Yasmin)
   - Senti um tom pessimista e bem frio no que você acabou de falar. (Lucas)
   - Esse é o meu esconderijo. (Yasmin)
   - Posso ser verdadeiro e falar uma coisa? (Lucas)
   - Quero que sempre seja e pode falar sim. (Yasmin)
   - Você é uma incógnita. Tem um mistério dentro de você que ao mesmo tempo em que me fascina, me incomoda. Sério, eu jurava que se eu falasse sobre namoro você iria aceitar, mas olha como você fala. (Lucas)

   - Eu estaria mentindo se falasse o contrário. (Yasmin)
   - Me responde quem é você… (Lucas)
   - Eu não sou uma princesa e estou longe de ser, acho que nunca nem fui aspirante a isso. Não me encaixo no estereótipo “perfeito” de uma mulher islâmica e também não sou a nativa brasileira Certas atitudes minhas eu também não consigo entender, talvez sejam impulsos, mas é o que meu coração manda fazer. É difícil entender, mas se isso te incomoda, prova que não daríamos certo como namorados. (Yasmin)
   - Isso me incomoda, mas não ao ponto de não aceitar. E eu não procuro uma princesa, Yasmin. Eu procuro uma mulher que consiga me fazer feliz e que me ame de verdade. Não que se importe com dinheiro ou derivados, mas que esteja comigo pelo o que eu sou e acredite, também sou uma incógnita. (Lucas)
   - E sabe qual o meu maior medo de verdade? Você se deixar manipular mais uma vez e não ser homem suficiente pra tomar uma atitude. (Yasmin alfineto
u)

   No mesmo instante ele soltou a mão dela e Yasmin jurou ver um orgulho ferido em seus olhos. Já estava esperando um grito dele ou então que ele a largasse naquele quarto e não aparecesse nunca mais. Palavras eram como tapas na cara, ainda mais faladas pra homens.

   - E depois eu que posso te decepcionar? (Lucas perguntou em tom de ironia)
   - Pode jogar na minha cara tudo que você acha errado em mim, porque eu não vou te poupar de nada. (Yasmin)
   - Depois dessa, se eu tivesse vergonha na cara eu saía daquela porta e voltava pro Brasil pra nunca mais voltar. (Chris)
   - Não é não ter vergonha na cara, é enxergar que você tem que ouvir críticas e aceitá-las quando são do bem. Eu não quero um relacionamento de mentiras, entenda isso. (Yasmin)
   - Ok, não quer um relacionamento de mentiras, mas também não precisa ser um relacionamento de pauladas. Uma em cima da outra. (Lucas)
    - Você considera verdades como pauladas? Então, assim nomeie, mas não espere de mim uma coisa que jamais farei, que é passar a mão na sua cabeça. (Yasmin)
   - Cutuca bastante a ferida. (Lucas)
   - Cheguei onde eu queria. Você não é capaz de agüentar dois segundos o meu gênio. Achou que eu seria sempre a Odalisca cheia de sorrisos e carinhos? (Yasmin)
   - Só me explica uma coisa, por que essa revolta toda de repente? (Lucas perguntou rindo de nervoso)
   - Não é revolta, estou te testando. (Yasmin)
  - Ah claro, grande teste você jogar as coisas na minha cara, sendo que larguei meu casamento e vale lembrar que estava casado com uma mulher grávida de um filho meu, e tudo isso por causa de você. (Lucas rebateu)
   - Pense que foi por você. (Yasmin)
   - Aonde você quer chegar com todo esse papo? (Lucas perguntou levantando-se da cama e encostando-se à parede mais próxima da cama, cruzando os braços no peito)
   - Se você quer algo sério, acredite, é recíproco. Eu também quero… (Yasmin)
   - Pois não parece, já que de uma hora pra outra você resolveu me atacar. (Lucas)
   - Não estou te atacando, Lucas. Pelo contrário, estou fazendo algo que há muito tempo deveriam ter feito por você. Falar verdades na sua cara. (Yasmin)
   - Ta bom, já deu. Isso está me irritando profundamente e eu não quero estourar com você. (Lucas afirmou voltando pra cama e enfiando-se debaixo das cobertas)
   - Vai me ignorar? (Yasmin)

   Não obteve resposta e automaticamente os olhos encheram-se de lágrimas. Todo esse questionamento e as verdades ditas tête-à-tête eram como uma defesa pra ela manter-se protegida dentro daquele relacionamento. Óbvio que não falaria de um jeito tão grosseiro aquelas coisas, mas precisava manter certa pose pra que seu coração não fosse dilacerado. Estava entregue demais a Lucas e uma escorregada qualquer dele, causaria estragos terríveis em seu coração.

   - Lucas? (Yasmin)
   - Que? (Lucas perguntou sem vontade)
   - Vira pra mim. (Yasmin)
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Um.

   Lucas sorriu olhando-a nos olhos e carinhosamente lhe beijou os lábios. Yasmin arrumou o vestido e sentou-se na areia da praia perdendo os pensamentos ao olhar o mar. Ele abraçou-a por trás e a fez encostar a cabeça em seu tórax.

   - Sabe, eu adoro ficar em silêncio na frente do mar. É gostoso escutar o barulho das ondas batendo contra as águas. (Lucas confessou respirando fundo)
   - O mar é reflexivo. Ele ao mesmo tempo em que te faz bem, te deixa melancólico. (Yasmin)
   - Por que está dizendo isso? (Lucas)
   - Me bateu uma melancolia de repente. Nunca contei a ninguém isso, mas eu sinto quando as coisas não vão bem! (Yasmin respondeu desencostando a cabeça do peito dele e virando à sua frente)
   - Nem pensa nessas coisas. Está tudo bem entre você e eu e continuará estando. (Lucas falou pegando-a pelo rosto e lhe beijando a testa, em seguida encostou novamente a cabeça dela em seu tórax)

   Yasmin suspirou e fechou os olhos desfrutando do cafuné que ele lhe fazia nos cabelos. Sorria despercebidamente e seu coração, explodia de um sentimento novo. Alguns minutos depois de todo o silêncio, Lucas sussurrou baixinho no ouvido dela.

   - Está com sono? (Lucas)
   - Um pouquinho. (Yasmin)
   - Quer subir agora? (Lucas)
  - Acho melhor, senão vamos acabar dormindo aqui. (Yasmin respondeu sorrindo e desencostando-se dele)
   - Não que seria mal dormir a luz do luar, mas essa areia já está impregnada em nós dois e precisamos descansar pra aproveitarmos bastante essa viagem. Vem! (Lucas falou levantando-se do chão e estendendo o braço pra ela)

   Yasmin sorrindo pegou na mão dele e levantou. E antes que fossem caminhar em direção do hotel, Lucas puxou-a pela cintura e lhe deu mais um beijo embaixo do lindo céu estrelado que despontava naquela noite. Andaram de mãos dadas e subiram as escadas em meio à risadas, já que Lucas contava algumas histórias engraçadas dele com Helen. Depois de um relaxante banho, os dois estavam preparados pra dormir, porém Yasmin havia ido pro banheiro e saiu alguns minutos depois.

   - Pronto. (Yasmin afirmou sorrindo e sentando na cama, em seguida deitou)
   - O que foi fazer? (Lucas perguntou apoiando-se pelos cotovelos)
   - Rezar. (Yasmin)
   - No banheiro? (Lucas perguntou sorrindo)
   - É. Não poderia rezar de camisola curta na frente de um homem. Bem é meio hipócrita da minha parte já que meu corpo não está tão puro, mas é a tradição. (Yasmin respondeu rindo)
   - Uma das coisas que acho total ignorância, não somente no Islamismo, já que outras religiões também pregam isso. Essa de virgindade, sexo antes do casamento e tal. Não é pecado transar, pelo contrário, através disso as pessoas se reproduzem. (Lucas)
   - Na verdade pros homens não é pecado, já que só a mulher tem que casar virgem. E eu concordo com você, já que tem muita virgem que é bem pior do que mulheres que tem vida sexual ativa, mas tradição nós não podemos discutir, temos que aceitar e cumprir. Bem, não quando estamos falando de Yasmin Rosa. (Yasmin falou rindo)

   - Você quebra regras, mas o mais importante você carrega que é a filosofia e o ideal da sua religião. Já te falei que acho o Islamismo uma das religiões mais ricas em cultura e que tem uma mensagem linda. E também percebi que não é tão radical como eu achava. (Lucas)
   - Fico feliz que alguém consegue absorver a verdadeira essência da minha religião, ainda mais com toda essa guerra santa que suja o nome dos muçulmanos. E fico mais feliz por esse alguém ser você. (Yasmin)

   Lucas parou por alguns minutos e ficou analisando-a.

   - Que foi? (Yasmin)
   - Você é carinhosa e isso é o que mais eu sentia falta nas mulheres que já tive. (Lucas)
   - Te provei hoje que meu grau de carinhosa às vezes é esquecido. (Yasmin)
   - Você não é perfeita, assim como eu também não sou. Garanto que quando eu der meus ataques, você vai querer me mandar de volta pro Brasil. (Lucas falou rindo)
   - Homens não me intimidam. (Yasmin)
   - Olha que abusada! (Lucas)
   - Brincadeira. Mas não sou do tipo que desiste no primeiro obstáculo, logo se você der algum show eu também darei e teremos que resolver na porrada e depois em beijos. (Yasmin)
   - Combinado. Adoro uma coisa selvagem e sensual. (Lucas brincou maliciosamente)
   - Para! (Yasmin falou sorrindo e sentindo as bochechas ruborizarem)
   - Para de ter vergonha de mim, sabe que não precisa. (Lucas)
   - É inevitável. (Yasmin)
   - Acho lindo isso em você, mas namorados não devem ter vergonha um do outro. (Lucas)
   - Namorados? (Yasmin perguntou arqueando uma de suas sobrancelhas e suspirando fundo com a surpresa ao escutar essa palavra da boca dele)

   Um silêncio perturbador surgiu no quarto. Claro que não por fugir de certas responsabilidades já que ambos já estavam vivendo uma vida de namorados. Precipitada ou não, estavam. Mas claro que ainda existiam certos “porém's” que talvez atrapalhassem assumir tal coisa. Aquela velha história de namoro às escondidas?

   - Nunca pensou nessa possibilidade? (Lucas perguntou cortando o silêncio)

   Yasmin parou alguns segundos pensando na resposta que daria a ele. Claro que toda mulher sonha com um amor, bem, quase todas já que generalizar não seria o certo, mas existem como dito anteriormente, alguns “porém's” que fazem com que esses sonhos afundem. São como desilusões antecipadas, talvez podemos considerar uma premonição. Existem traumas que marcam e que nos obrigam a nos fechar num calabouço escuro e frio. Uma proteção contra o mundo que no final das contas torna-se uma prisão. Fugir de sentimentos e coisas relacionadas. Talvez o sexo não tenha sido seu maior trauma com relação a um passado que praticamente destruiu sua vida, apesar de não consumado, mas a confiança nos homens ainda esteja afetada, mesmo que se encontre apaixonada por esse homem. Conclusões abstratas, mas que passavam pela mente pensativa de Yasmin.

   - Por que o silêncio? (Lucas perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa.

  Marcelo já em sua casa, olhava repetitivamente o e-mail que havia escrito e enviado. Seria o primeiro passo pra sua cartada contra Yasmin. Era obsessão e sua mente que às vezes lhe dava flashes de sanidade indicava isso, mas a também mente fraca não saberia reagir. A doença estava impregnada em sua pele e nenhum remédio conseguiria lhe curar.
   Sua esposa aproximou-se sedutoramente e passou a delicada mão em seu peito. A repulsa que sentia fez com que seu estômago embrulhasse e violentamente levantou-se da cadeira, mas a imagem refletida lhe fez recuar automaticamente. Yasmin. Estava ali no lugar de sua esposa. Sedutora, linda e do jeito que ele sempre sonhara em ter, como uma doce garota submissa cumprindo todas as ordens sexuais que ele impunha.
   Pegou com força os cabelos pretos e os apertou na mão, cheirando-os e sentindo o quanto seu corpo já correspondia àquilo. Sem pensar muito, rasgou com violência a camisola e explorou o quanto pôde do corpo de “Yasmin”. Ouvia gritos e leves indícios de choro, mas não se importava com nada, apenas com seu próprio prazer. E quando terminou arregalou os olhos e franziu o cenho com ódio. Era apenas sua esposa e não Yasmin.
   Sentiu náuseas e covardemente jogou-a no chão, contendo a vontade de dar-lhe um tapa no rosto. Estava completamente descontrolado. Levantou da cama e pegou a roupa que havia deixado sobre a cadeira, bateu a porta com força e caminhou rumo à saída, deixando sua esposa aos prantos no chão.

   Andava nas ruas e tudo parecia lhe engolir. Estava louco! Louco de ódio e louco de amor. Um amor fatal que estava consumindo sua sanidade e seu bom senso. Estava obcecado. Sentou-se em um banco e imagens de Yasmin dançando lhe invadiam a mente, cruzando com imagens dela com Lucas perto do carro. Maldição. Esfregou as mãos no rosto e engoliu em seco, sentindo a leve brisa bater em sua pele. Estava arrepiado e não de frio, já que mesmo com a brisa, o calor estava insuportável. O arrepio era de um temor camuflado dentro de si. O temor de enlouquecer perante a ela.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Nove.

   O pó branco estava caído sobre o papel que indicava algumas coisas sobre o bebê. Havia ido ao médico alguns dias depois de sua “tentativa” de suicídio. Aliás, sua fracassada tentativa. Seus olhos estavam estalados não apenas pelo resultado não tão positivo, mas também pelo efeito instantâneo da droga. Cocaína.
   Bruna há anos ingeria drogas de diversos tipos, mas seu vício sempre fora cocaína. Algo que ela sofria diariamente de abstinência, pois desde que engravidou foram poucas vezes que havia ingerido pelas narinas tal entorpecente. Sentia-se culpada sempre que fazia isso, mas nada mais poderia ser feito, já era uma viciada que ansiava poder ter a paranóia com aquele pó tão prejudicial.
   Arrumou novamente mais uma carreira e fechou os olhos sentindo como eles umedeciam automaticamente, era o pranto de sua alma que cada vez mais estava no lixo. Mas algo dentro de si a fazia pensar apenas em vingança e já que não se pode ter um casamento de volta, faça-o sofrer e onde mais lhe dói. Pegou o corpo da caneta sem a carga e aproximou-o do nariz, foi de encontro à carreira e respirou fundo, sugando a droga pelo nariz e sentindo a cartilagem quase desfeita queimar e em poucos segundos sua mente e seu coração aceleraram mutuamente. Sentiu um chute na barriga e os olhos umedeciam ainda mais. Culpa e ódio andavam juntos em seu coração, mas a mente fraca a impedia de desistir de qualquer coisa.
   Encostou a cabeça no travesseiro e esticou as pernas desfrutando do efeito drástico, mas também sentindo como as paredes lhe fechavam num mundo paralelo. Transpirava e se não fosse sua experiência, certamente estaria desmaiada ao chão. Queria correr e gritar, rir sem freios e poder fechar os olhos na psicodélica energia que o efeito lhe causava. Estava no auge e mal sabia que aos poucos sua razão seria afetada e também levaria para o buraco pessoas inocentes.

   O notebook estava aberto sobre a cama, pequenas janelas subiam lhe indicando novos e-mails, mas ainda não tinha forças pra conseguir ler algo e entender. Continuava desfrutando do que a droga lhe proporcionava. Apesar de todo o mal envolto, ela a fazia esquecer de que Bruna era um ser humano complicado e cheio de defeitos. Parecia que depois que inalava, conseguia enxergar-se perfeita.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Oito.

   Ela olhava pela sacada a imagem dele sentado na areia branca e fina. Lucas sempre fora amante da praia e estava a alguns minutos vendo o mar. Saiu após a conversa sobre o hotel com Yasmin. Bem, ainda estavam um pouco afastados. Mas Yasmin queria mudar isso e se redimir. Sabia que havia pegado pesado com ele, tudo bem que ele tentou mexer com algo que estava fechado dentro dela e abri-lo novamente era um trauma, mas foi feito de boa vontade e havia sido ignorante demais. E uma qualidade ela tinha, apesar de orgulhosa, ela sabia voltar atrás e pedir desculpas.
   Saiu do quarto arrumando o vestido branco que usava, era comprido e com uma fenda comportada até o joelho. Havia trocado assim que Lucas saiu do quarto. Foi andando devagar pensando em como falar com ele, bem, estava envergonhada. Ao sair pra parte externa do hotel, foi caminhando na direção da praia que era há poucos passos. Logo o viu, com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Observando. Sentou com cuidado atrás dele e mesmo sem virar o rosto, ele esticou um braço pra trás e ela pegou na mão dele.

   - Lu? (Yasmin)
   - Hum? (Lucas)
   - Desculpa! (Yasmin exclamou encabulada e apoiando o queixo no ombro direito dele)

   Lucas deu um pequeno sorriso e com a outra mão, acariciou os cabelos dela.

   - Vem aqui. (Lucas falou puxando-a pra frente e a fazendo sentar em seu colo)

   - To envergonhada. Fui ignorante sem motivo algum. (Yasmin)
   - Vou confessar que fiquei surpreendido. Entendo sinceramente sua situação, mas apesar de não ser o rei da atitude, acho que enfrentarmos o problema é a grande solução de tudo. E sei lá, você sempre foi muito carinhosa, mas desconfiava que por trás dessa carinha de anjo, existia um furacão. (Lucas)
- Eu não quis ser grossa, juro. Odeio esse meu temperamento em certas situações, porque sempre sou explosiva com quem não merece e com quem merece eu me limito. (Yasmin)
   - Quem é esse imbecil que está merecendo ser maltratado? Me conta que eu arrebento a cara dele. (Lucas)

   Yasmin sorriu e acariciou de leve o rosto de bebê que ele tinha, recebendo em troca um sorriso cúmplice.

   - Desculpa, de coração. (Yasmin)
   - Desculpo, porque sei que no seu lugar eu faria o mesmo. É difícil superar uma coisa quando um idiota te pega de surpresa. (Lucas)
   - Você não foi idiota, pelo contrário, fez uma demonstração linda de carinho. Essas coisas marcam no meu coração. (Yasmin)
   - Só isso que marca no seu coração? (Lucas)
   - Não. As pessoas que praticam esses atos também. (Yasmin)

   Lucas ficou sério olhando pra ela por alguns instantes. Uma leve brisa fazia os cabelos ondulados e negros voarem contra o rosto dela e a maneira como ela tentava contê-los, era sedutora e inocente ao mesmo tempo. Fora que sem querer, ela se ajeitou no colo dele triscando em uma parte sensível dele, o fazendo soltar um suspiro pelo contato. Ela claro ficou com o rosto ruborizado.

   - Você continua tendo vergonha de mim. (Lucas falou sorrindo e acariciando as bochechas dela)
   - Isso tudo é muito novo pra mim. Não falo apenas de sexo, falo de tudo. Nunca mantive um relacionamento tão sério, apesar de ter começado de uma maneira não tão normal. E são muitas transformações de sentimentos. Não sei, ta uma bagunça o meu cérebro. (Yasmin)
   - Então nunca namorou sério? (Lucas)
   - Tive um relacionamento um pouco sério. E não é por questão de não ter sexo, é porque ele não me levava a sério, apesar de ser muçulmano. Me decepcionei. (Yasmin)
   - Você gostou muito dele? (Lucas)
   - Na verdade eu confiei muito, porque depois percebi que amor passou longe. E olha que ele era bem aceito por minha família. (Yasmin)
   - A sua família me odiaria não? (Lucas)
   - Meu pai adorava qualquer pessoa que me fizesse feliz, assim como minha mãe, mas claro que no fundo existe aquela preferência por um homem da mesma religião que a minha. (Yasmin)
   - Se você fosse de uma família tradicional e eu aparecesse na sua vida assim como aconteceu, o que você faria? (Lucas)
   - É difícil eu afirmar isso, já que não tenho o mesmo pensamento de uma garota muçulmana submissa, mas creio que sentimento fala por tudo. E apesar de serem obrigadas, qualquer muçulmana carrega dentro de si muito amor. (Yasmin)
   - Eu te seqüestraria. Juro. (Lucas afirmou sorrindo)
   - E eu fugiria. (Yasmin)
   - Engraçado como algumas pessoas fazem nossa vida dar um giro de 360 graus. Depois que te conheci eu me sinto um homem diferente. Um Superman. (Lucas brincou)
   - Então quer dizer que eu sou a sua criptonita? (Yasmin perguntou rindo)
   - Pode ter certeza que sim. (Lucas)
   - É uma honra. Fico muito feliz por saber que ajudei um ser humano e que com isso ganhei um presente. É difícil morar longe do seu país, das pessoas que você ama e tal, mas apesar de estar longe é bom saber que temos um alguém que mesmo longe estará perto através do coração. (Yasmin)

   As palavras foram retribuídas com uma delicada e sedutora mordida em seu lábio inferior. Sem perceber ela acabou suspirando com aquilo, eriçando Lucas a querer mais. Em meio a beijos molhados e passadas de mão um pouco mais insanas, ele lentamente foi deitando-a na areia e ficando por cima dela, levantando um pouco o vestido dela pra poder encaixar-se perfeitamente.

   - L-lucas… aqui? (Yasmin perguntou encabulada)
   - Essa praia parece ser deserta e eu gosto desse contato íntimo perto do mar. (Lucas)
   - É um pouco estranho. (Yasmin)
   - Não! É maravilhoso, Odalisca. É estranho quando não temos o par ideal pra fazer isso, mas te prometo que você vai querer repetir mais vezes e que vai acabar se rendendo e arrancando a minha camisa, como suas mãos querem. (Lucas sussurrou no ouvido dela enquanto sentia as mãos trêmulas dela dedilharem a barra de sua camisa)

   Ajudando-a, ele desabotoou os botões e ela um pouco mais entregue tirou a camisa e segurando a vontade de passear com os dedos pelo peitoral definido dele.

   - Não contenha suas vontades. (Lucas sussurrou pegando a mão dela e colocando no peito dele)

   A falta de experiência e a timidez em excesso ainda faziam Yasmin travar um pouco no começo, mas nas duas vezes em que havia desfrutado com Lucas do prazer recíproco, ela sentia que era apenas um olhar sincero e sedutor dele, que ela se entregava do jeito certo pra poder delirar sob o corpo dele.

   - Eu preciso te falar uma coisa… (Lucas falou abaixando-se novamente e aproximando os lábios do pescoço dela)
   - O q-que? (Yasmin gaguejou fechando os olhos e involuntariamente agarrou os cabelos dele)
   - Eu to louco por você, e já estou quase largando o Brasil pra ficar aqui do seu lado… (Lucas confessou)

   Yasmin sentiu o coração explodir de batimentos cardíacos. Ouvir aquelas palavras da boca de Lucas eram como um incentivo pra ela insistir nessa loucura chamada amor. Sabia que estava se arriscando além do que era sano, mas cada passo que dava era a certeza de que pela primeira vez na vida, um homem a faria feliz, e esse homem não era o pai dela já que muitas vezes acreditou que somente o amor paterno era o único amor transmitido por um homem. Palavras não precisariam mais ser ditas. Atos e toques diriam por si só. E não apenas tratando-se de saciar desejos, tratando-se de aumentar a níveis elevadíssimos sentimentos que em meio à construção, ganhavam novos patamares e caminhos ainda mais longos, já que tudo que é verdadeiro, passa por testes. Ora fáceis e ora difíceis.
   Pra não deixá-la ainda mais constrangida pelo local, apesar de ser mágico fazer amor à luz da Lua, Lucas não tirou o vestido dela. Apenas o ergueu um pouco acima da barriga e abaixou as alças, conseguindo explorar os seios fartos com os lábios, algo que conseguia tirar Yasmin do real, levitando-a ao começo do que se chama prazer. Em meio a esse envolvimento, palavras carinhosas e sensuais eram sussurradas ao pé do ouvido dela e olhares que eram trocados quando sentiam que não mais podiam resistir. Era a necessidade da pele do outro, do cheiro camuflado, do toque carinhoso e forte provando o quanto àquele ato conseguia desvirtuar a sanidade de duas pessoas. A cumplicidade de poder desfrutar junto de sensações agudas e sentimentos mútuos. Não somente o sexual, mas também o sentimental.
   Yasmin ainda sentia-se um pouco desconfortável ao tê-lo dentro de si, mas com jeito Lucas conseguia transformar tudo aquilo em sensações deliciosas. E nessa hora ela conseguia perder a timidez e jogar pra fora tudo o que tinha vontade de fazer. Até mesmo gritar o prazer que ardia por suas veias e escutar o eco pelos ares enquanto o suor escorria por seu corpo e a fazia ficar ainda mais unida a ele, fisicamente falando. Mais incentivo pra ele continuar investindo todo seu potencial no pequeno corpo que o fazia ter dimensões estendidas de prazer. E quando já não mais suportavam, desentalaram o grito preso na garganta e suspiraram aliviados por terem conseguido juntos, chegar aos picos mais altos de um ato quente de amor. E involuntariamente ele conseguia ver flashes do que ela era pra ele. A muçulmana misteriosa que apenas com véus, conseguiu roubar seu coração. Era inevitável pensar nela dançando e jogando o olhar enigmático pra quem passasse ao seu lado. Isso era a maior fantasia sexual dele, a Odalisca.

   “Existe uma chama que começa com uma pequena faísca, dizem que essa faísca se chama atração física, mas a chamo de troca de olhares verdadeira. Depois essa chama vai sendo alimentada e seu fogaréu vai elevando-se em proporções e graus mais altos. Diríamos que ao ponto de você confessar algo pro amado ou o principal, pra si mesmo. A terceira fase da chama pode ser chamada de concretização ou ruína. Já que pra alguns a chama pode fazer com que o alimento seja preparado pra que venhamos a comer, mas também podemos levar em consideração que você pode se queimar ou transformar sua alma em cinzas.”
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Sete.

   Nem precisa ser comentado que durante todo o caminho seguiram calados não é mesmo? Nem o rádio havia feito sua parte, já que Lucas nem se deu ao trabalho de ligá-lo e também não iria entender muita coisa. Apesar de não conhecer nada do local, Lucas seguiu corretamente passo a passo o mapa, conseguindo três horas depois chegar ao Canal de Suéz. Havia recebido uma indicação de hotel no final da pequena cidade que residia à beira do canal, pelas fotos ele sabia que era um local paradisíaco e da maneira que ele gostava. Arriscou um olhar pro lado e deu um singelo sorriso ao ver que ela havia adormecido. Fez um cafuné nos cabelos dela e seguiu dirigindo rumo ao tal hotel.
   Uns quinze minutos depois, estacionou o carro em frente ao hotel. Com cuidado abriu a porta pra não acordá-la e foi conversar com um funcionário que ficava em frente à entrada do hotel. A sorte dele, é que pela cidade ter uma ligação com a Europa, constantemente estrangeiros se hospedavam ali e o inglês era uma obrigação de qualquer um que trabalhasse lá. Talvez regra de qualquer hotel mais requintado. Por sorte, o hotel estava vazio e rapidamente conseguiu um local, mas teria que fazer check-in antes. Abriu o porta-malas pra que tirassem as bagagens e abriu a porta de Yasmin, a fim de acordá-la.

   - Min, acorda… (Lucas sussurrou ao pé do ouvido dela)


   Apenas essa tentativa deu certo, já que seu sono naquele instante não estava tão pesado. Yasmin abriu um olho e se arrumou no banco passando uma das mãos na testa.

   - Chegamos e precisamos fazer o check-in. Vem! (Lucas)

   Yasmin apesar de ter acordado, ainda dormia na mente e apenas o seguiu parecendo não assimilar as coisas. Lucas dava os dados deles, enquanto ela observava o hotel, ainda viajando, mas já entendendo um pouco melhor onde estavam. Suspirou ao ver que era de luxo. Aquilo a deixava temerosa, apesar de conviver diariamente no trabalho, mas… Bem, neuroses de Yasmin.

   - Vamos? (Lucas falou após terminar o check-in)

   Yasmin apenas concordou com a cabeça e foram andando. O hotel tinha apenas um andar, com longos corredores onde abrigavam os quartos de luxo. Era um típico hotel praiano, mas com um requinte especial. Os corredores eram na verdade grandes sacadas que mostravam a bela infra-estrutura do lugar, com três piscinas, alguns quiosques e coqueiros com iluminações dando uma decoração romântica ao local. Chegaram em frente ao quarto destinado à eles e Lucas passou o cartão abrindo a porta.
   As malas já haviam sido colocadas no quarto. As paredes eram tão brancas quanto um pedaço de algodão. Em algumas partes tinha detalhes em tom de dourado que combinava com os abajures seguindo a mesma coloração. Tinha uma espécie de anti-sala, com uma grande TV de plasma e um aparente confortável sofá no tom branco, com almofadas que faziam um degradé com tons de marrom e dourado. Tudo combinava perfeitamente, até mesmo o tapete. No quarto mesmo, a cama king size estava coberta por um edredom branco com travesseiros e almofadas entre os tons que seguiam a decoração do quarto. Uma mesa com internet disponibilizada e o banheiro belamente distribuído com um pia gabinete grande, um box de vidro com um chuveiro potente e ao lado a hidromassagem que sempre fora algo que Lucas adorava desfrutar. Conclusão, um quarto de extremo luxo.

   - Gostou? (Lucas perguntou largando as chaves do carro em cima da mesa)

    Yasmin olhava a vista pela sacada e virou-se ao escutar a pergunta dele.

   - Adorei. Esse hotel é lindo e… (Yasmin)
   - E? (Lucas)
   - Luxuoso. (Yasmin)
   - Isso te incomoda? (Lucas)
   - Um pouco. (Yasmin)
   - E por quê? (Lucas)
   - Eu não tenho dinheiro pra pagar um hotel assim. (Yasmin falou sincera)
   - Mas você não vai pagar nada. (Lucas)
   - Mas… (Yasmin)
   - Sem orgulhos Yasmin, por favor. Eu respeitei você quanto a não querer dirigir, então faz pelo menos isso por mim. (Lucas)

   Yasmin engoliu em seco sentindo um tom de mágoa na voz dele.