sábado, 22 de setembro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Seis

   Sentiu um pânico enorme tomar conta de seus sentidos. Como se suas artérias tivessem fechado ao mesmo tempo, o deixando sem forças pra respirar. Sempre tinha pânico quando alguém o pegava fazendo algo errado. Letícia respirou fundo, indignada. Odiava ver qualquer tipo de violência, mais ainda contra uma mulher. Uma mulher indefesa… Aliás, todas as mulheres são indefesas perante um homem, por mais corajosas que fossem, seria impossível debater na força física com um homem, apenas as que eram lutadoras. Conclusão, a raiva lhe consumiu.

   A esposa de Marcelo, sem querer deu uma soluçada alta, chamando ainda mais a atenção de Letícia. Ela estava no chão, chorando e pela expressão, envergonhada. Deus do céu, Letícia se revoltou ainda mais.

   - Quero que você saia dessa sala, agora! (Letícia)
   - Eu tenho como expli… (Marcelo tentou se defender)
   - AGORA! (Letícia)

   Marcelo engoliu uma vez mais o orgulho, agora ainda mais por ter que abaixar a cabeça pra uma mulher. Saiu da sala batendo com força a porta, fazendo Letícia fechar os olhos e apertá-los devido ao barulho. Acertaria as contas com Marcelo, na presença de algum homem, pois sabendo sua fragilidade, não teria como enfrentá-lo sozinho, apesar de tudo. Ajoelhou-se na frente daquela pobre moça. A aparência angelical, parecia cansada e envelhecida. Os olhos que passavam uma dor profunda. Teve que morder o lábio pra não chorar com aquela criatura a sua frente.

   - Fala português não é? (Letícia)
   - S-sim… (a esposa murmurou fungando o nariz)
   - Qual seu nome? (Letícia)

   - B-bárbara… (Bárbara)
   - Como ele pôde? Ah que ódio disso… (Letícia resmungou irritada ao ver um vermelhão na bochecha direita dela)
   - E-eu não sei… (Bárbara sussurrou chorando)
   - Há quanto tempo ele faz isso com você? (Letícia)

   Letícia não obteve resposta, concluindo que há tempos ele já fazia isso.

   - Querida, eu sinto muito! (Letícia)

   E buscando um consolo, Bárbara acabou deitando a cabeça no colo de Letícia e caiu num choro ainda mais desconsolável. Letícia arregalou os belos olhos, totalmente surpresa com a reação de Bárbara, mas depois acabou sentindo algumas lágrimas embaçando sua visão por ver a tristeza estampada naquela mulher. Sentiu uma grande pena…

   - Vai ficar tudo bem… (Letícia consolou-a)
   - N-não vai… (Bárbara sussurrou)
   - Vai sim, Deus existe e vai te ajudar! E você tem que se separar desse cafajeste. (Letícia)
  - Eu não posso me separar d-dele, a-agora mais ainda. (Bárbara falou chorando compulsivamente)
   - Claro que pode. Nós mulheres devemos ser guerreiras e lutar contra a violência que sofremos. Não pode continuar com um crápula desses. (Letícia)
   - Meus f-filhos, não tenho como c-cuidar deles com m-meu dinheiro. E agora e-eu to grávida de novo… Vim f-falar isso pro Marcelo. (Bárbara confessou aos prantos)
   - Ai meu Deus! Como grávida? (Letícia)

   Mais um choro forte foi dado por Bárbara e ao não responder, Letícia acabou entendendo o motivo. Sua revolta chegou a picos altos de fúria. Era muita maldade reunida em um só ser humano.

   - Eu vou denunciar esse cara! (Letícia exclamou decidida e levantando-se do chão)
   - NÃO! N-não pode fazer isso… (Bárbara)
   - Não só posso como vou, ele te violentou e ainda te agride… Se você não denuncia as coisas vão piorar cada vez mais. (Letícia falou séria)
   - Estamos n-num país islâmico, o-onde nada disso importa… (Bárbara)
   - Vou à embaixada então. Ainda vou demitir esse mau caráter. (Letícia)
   - O-os meus filhos… (Bárbara)
   - Eu vou te ajudar, se acalme. (Letícia)

   Letícia tirou o iphone de seu bolso e discou pra um número, a fim de resolver de uma vez por todas aquela situação. Não iria interromper os dias que Lucas havia pegado pra viajar, iria tentar contato com Taylor e Jorge, ou então, mesmo temendo uma reação de Marcelo, ela teria que enfrentá-lo.

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