sábado, 22 de setembro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Quatro

   As fotos eram abertas no notebook e os olhos cheios de ódio direcionavam olhares de repulsa. Inveja! Não poderia pensar que havia sido trocada por uma simples funcionária dos hotéis cujo dono era seu sogro, e que morava num país medíocre. Empregada que deveria implorar por míseros trocados, caso contrário morreria de fome, enquanto Bruna com o mesmo valor nem abastecia o tanque de sua BMW. Nem sua calcinha mais vagabunda custava tão pouco. Yasmin? A mera Odalisca que não era nada, ninguém! Seu orgulho explodia de raiva. Não admitia tal coisa, se fosse uma mulher da alta sociedade, que a desbancasse tudo bem, mas ela? Ah, teria que mudar certas coisas e sabia bem onde atingir.

   O Sol despontou irradiante naquele dia. O céu parecia mais azul que o de costume e nuvens não existiam. Um dia perfeito? Se não fosse perfeito, com certeza chegaria bem perto, ainda mais que resquício de briga no dia anterior, havia ficado pra ontem literalmente. Yasmin vestia um biquíni branco liso, contrastando com seu tom de pele natural, que era mais bronzeado e um short jeans. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto e descalça, já que tinha uma filosofia quanto aos pés no chão. “Energia ruim desce pelos pés e vai pra terra. Energia boa da natureza sobe pelos pés!” Não era de sua religião, apenas algo que ela particularmente acreditava.

   - É engraçado ver uma muçulmana de biquíni. (Lucas falou aproximando-se e sorrindo)

   Yasmin virou dando um sorriso cúmplice e o olhou de cima a baixo. A barba por fazer, sem camisa e com uma bermuda branca. Os óculos escuros e aquela pinta de galã que era sua marca.

   - Sou a ovelha negra do Islamismo, não tem jeito. (Yasmin concluiu rindo)
   - Não, você é exclusiva e isso me soa bem interessante. (Lucas falou puxando-a pra um abraço)
   - Bom saber disso… (Yasmin)
   - Sugere algum lugar que tenha conhecido e que queira me mostrar? (Lucas)
   - Tem um lugar que eu fui e que me encantou. Acho que você também vai gostar. (Yasmin)
   - Então vamos. (Lucas)

   O penhasco ficava à beira do mar. A altura proporcionava uma vista deslumbrante de toda a extensão do Canal de Suéz.

   - Que lindo! (Lucas falou assoviando)
   - Muito lindo e ainda revitaliza energias. (Yasmin falou sentando-se no chão)

   Ficou quieta mirando atentamente as ondas baterem na parte de baixo do penhasco. A natureza daquele lugar lhe fazia lembrar de toda sua vida anterior ao Egito. Havia ido ali quando acabara de se mudar pro Cairo e recordava o quanto havia chorado naquele mesmo pedaço em que agora estava sentada.

   - Você desliga às vezes. (Lucas falou sentando ao lado dela)
   - Reflexões apenas. (Yasmin)
   - Não quer compartilhar? (Lucas)
   - Eu já te encho demais. (Yasmin falou sorrindo)
   - Pode falar, eu gosto de escutar suas histórias, são aprendizados de vida. (Lucas)
   - Sabe, você e a Nana são as únicas pessoas que eu consigo falar tudo, desabafar. Até com minha mãe tenho um pouco de receio de falar, mas com vocês não. (Yasmin)
   - Isso me faz importante não? (Lucas)
   - Bastante. (Yasmin)
   - Então já que sou tão importante assim, fala o que passa dentro dessa cabecinha. (Lucas)

   Yasmin olhou novamente o mar e começou a falar.

   - Eu vim aqui, quando me mudei pro Cairo. Tinha passado por dores irreparáveis a tão pouco tempo. (Yasmin)
   - Posso perguntar uma coisa? (Lucas)
   - Pode. (Yasmin)
   - O que dói mais em você, a perda de seu pai ou a história com seu tio? (Lucas)

   Yasmin respirou fundo, entrar em detalhes nessas duas histórias cutucavam as feridas que ainda estavam em carne viva dentro de sua alma, mas ela precisava cada vez mais se libertar disso.

   - O meu pai. Se ele estivesse vivo, eu estaria pouco me importando com tentativa de estupro ou não. (Yasmin respondeu melancólica)
   - Sente muita falta dele não é? (Lucas)
   - Demais. Ele e eu tínhamos uma relação perfeita, nunca brigamos. É até surpreendente algo assim, mas é verdade. Ele nunca se opôs ao meu jeito mais revolucionário, coisa que pra um muçulmano é difícil de aceitar. Ele várias vezes me defendeu por isso, perante à família e fora o jeito que ele me tratava, que ele me acolhia. (Yasmin)
   - Eu sinto muito por ter o perdido e juro que queria ter o conhecido, pois ele fez algo muito especial, que foi ter sido pai de uma garota tão incrível como você. (Lucas sussurrou dedilhando o rosto dela)

   Yasmin sorriu abaixando a cabeça e respirando fundo, segurando-se pra não desabafar com lágrimas. Bem, sempre fora chorona e falar de seu pai, escutando essas doces palavras de Lucas, era um motivo certeiro.

   - Eu sempre falo de minhas coisas, mas você sempre fala por cima. Me conta alguma coisa. (Yasmin)
   - O que quer saber sobre mim? (Lucas)
   - Ah não sei, fala algo que não tenha me contado. (Yasmin)
   - Não sei o que falar. (Lucas)
   - Fala de suas ex-namoradas, sei lá. (Yasmin)
   - Ok, vou confessar uma coisa. (Lucas)
   - Confesse. (Yasmin)
   - Eu já namorei a Let. (Lucas)
   - Sério? (Yasmin perguntou surpresa)
   - Sim. Na verdade nem podemos considerar um namoro já que foi pouco tempo, mas tive uma relação com ela. (Lucas)
   - E por que acabou? (Yasmin)
   - Ela me traiu. (Lucas respondeu rindo)
   - E você ri? (Yasmin)
   - Dou risada hoje em dia porque a Let não deixa de ser uma diabinha, mas na época fiquei mal. (Lucas)
   - Então significa que se não tivesse a traição, vocês estariam até hoje juntos? (Yasmin)

   Seria muita ilusão da parte de Lucas ou realmente ele havia percebido um pouco de ciúmes da pergunta?

   - Não estaríamos, era pra ser assim. Apesar de adorar a Let, nós dois temos personalidades muito diferentes e no nosso caso não funciona aquilo de os opostos se atraem. Fora que ela sempre foi bastante adepta da traição e isso pra mim é inaceitável. (Lucas)

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