quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Nove.

   Depois de recuperar-se da tremedeira nas pernas, Yasmin correu para o banheiro, precisava de um banho o quanto antes. Precisava relaxar. Arrancou sua roupa e sem delongas entrou embaixo do chuveiro quente. Não suportaria o gelado, por mais que necessitasse de um. Fechou os olhos e sem perceber, dedilhou seus próprios lábios. Ainda podia sentir a maciez dos lábios de Lucas a beijando. A pegando pela cintura. Yasmin abriu os olhos assustada. Esfregou as mãos no rosto e concentrou-se em apenas tomar banho. Estava cometendo harám… Não podia pensar em coisas tão absurdas.

   
“Eu tento parar de pensar, mas não consigo. Sempre vem em minha mente o rosto dele, o cheiro e o gosto… Porque deixei que ele me beijasse, não poderia ter acontecido, não…”

   Yasmin tomou um susto quando a campainha tocou. Tentou ignorar, mas insistia demais. Não viu outra saída. Saiu do box e vestiu um roupão branco. Correu pelo corredor entre escorregões por estar molhada. Chegou esbaforida na porta, e quase caiu de joelhos quando abriu a porta e viu Lucas parado e a medindo de cima a baixo!

   “Sei que as passagens do Alcorão me condenariam, que todo o povo islâmico me reprovaria com tal pensamento, sei que talvez eu possa estar magoando o meu pai, mas eu queria poder botar pra fora o que estou sentindo, mas eu sinto medo. É como se pesasse sobre minhas costas uma tormenta, uma escuridão… O desejo está aflorando sobre minha epiderme, mas o senso me impede. Ele é casado, vai ser pai… Eu mal o conheço, não sei qual a índole dele, a cor que mais gosta, a comida preferida, preferência musical… Pára tudo, se formou um redemoinho em minha mente e aos poucos ocupa o meu coração…”

  - O q-que… (Yasmin sussurrou arrumando o roupão e sentindo-se completamente envergonhada)
   - Desculpe-me, mas não sei voltar pro hotel. (Lucas falou engolindo em seco e olhando-a nos olhos)
   - Não consegue lembrar o caminho? (Yasmin)
   - Não… (Lucas sussurrou esfregando a mão nos olhos)

   Yasmin engoliu em seco. Aquele jeitinho dele de bebê, a enlouquecia. O olhar desamparado e a voz cansada a faziam deixá-la com vontade de colocá-lo pra dentro e cuidar feito um bebezinho… Foi então que se deparou com o fato de que não era ela que hipnotizava Lucas.

   “Eu que estou hipnotizada por ele…”

   “Já desacreditei no amor, e fiz com que ele permanecesse numa distância mínima de 300 quilômetros, mas quanto mais tentamos afastar, mais ele se aproxima. É como se a vida brincasse com nossos sentimentos, nos colocando num fogo cruzado e testando nossas reações. Nunca tive sorte ao tentar amar uma mulher, sempre saí machucado, magoado e cada vez mais, descrente nesse sentimento… Mas agora, parece que as coisas se esclarecem em minha mente, talvez eu nunca tenha o sentido de maneira pura e verdadeira. Do jeito em que o coração acelera e o chão some toda vez que nos deparamos, ou então, quando ela encanta com seu belo e enigmático olhar. Posso parecer infantil, a conheço há tão pouco tempo, mas parece que já a conheço há anos… Eu a sinto próxima, eu a quero próxima de mim!”

   
- E-entra, não adianta ficar aí fora. Vou me trocar, já volto. (Yasmin falou rápido e disparando até seu quarto)

   Lucas enxugou a gota de suor que se formava em sua testa. Não conseguia segurar-se. Sua vontade era de sair correndo atrás daquela bela morena e arrancar de uma vez aquele roupão. Queria amá-la, de um jeito que talvez ele não amasse nenhuma outra mulher. Sua boca estava seca… Ela o atormentava de tal maneira, que suas pernas pareciam tremer. Qual era o antídoto contra Yasmin? Ou então, qual era o antídoto pra aproximá-la cada vez mais?

   Mas ele tinha em sua mente uma coisa.

  “Ela é diferente, eu sei. Não só pela religião, mas pelo jeito. Não quero assustá-la e nem tão pouco me assustar, vou caminhar devagar, daqui pra frente, a Deus pertence. E o que tiver que ser, será…”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Oito.

   - Pra q-que me bombardear com t-tanta informação? (Yasmin)
   - Não é bombardeio, eu senti vontade de falar. (Lucas)
   - Lucas… Quer dizer, senhor Lucas. (Yasmin)

   Lucas gargalhou na hora.

   - Droga, eu não sei o que falar. (Yasmin murmurou)
   - Yasmin, não precisa falar nada. Aconteceu… (Lucas afirmou aproximando-se dela)
   - Eu sou muçulmana, sabia que uma mulher muçulmana não pode nem beijar antes do casamento? (Yasmin)
   - Está querendo dizer que agora sou obrigado a casar com você? (Lucas perguntou sorrindo de uma maneira que deixou Yasmin encabulada)
  - N-não… Não é i-isso, mas você infringiu as leis do Alcorão, vai a-arder no mármore do inferno. (Yasmin)
   - Mas eu sou católico, então quem infringiu as leis foi a senhorita que é muçulmana. (Lucas)

   Yasmin suspirou, não tinha mais nada pra falar. Queria sair correndo.

   - Olha pra mim… (Lucas)

   Yasmin virou o olhar pra ele. Sentia o queixo tremer e as mãos suavam.

   - Já beijou outra pessoa? (Lucas perguntou)
   - J-já… (Yasmin sussurrou)
   - Sentiu vontade? (Lucas)
   - Sim… (Yasmin)
   - Foi o que aconteceu aqui, sentimos vontade e rolou, não precisa ficar encontrando dez mil empecilhos pra justificar uma coisa que tanto você quanto eu queríamos. Eu posso ser casado e ter trezentos mil filhos, isso não ia fazer com que eu perdesse a vontade de te beijar. (Lucas)


   Yasmin engoliu em seco. Ele conseguia mexer com o organismo dela, poucas palavras que faziam toda sua corrente sangüínea congelar.

   - Mas se quiser isso não acontecerá mais… Mas eu quero. (Lucas sussurrou dedilhando a bochecha dela)

   Yasmin fechou os olhos, o calor lhe invadia o corpo. Sentia o coração queimar e seu corpo formigava. Que sensação era aquela que não saía de sua mente? Pra onde ela deveria correr?
Pros braços dele? Yasmin arregalou os olhos. Estava pensando besteiras novamente. Era muçulmana e devia agir como tal, até mesmo estava pensando em usar o véu na cabeça. Grande piada!

   - Bom, eu vou indo embora. Obrigado pela água e pelos biscoitos, são deliciosos. (Lucas falou sorrindo)
   - O-obrigada você, p-por ter me trazido. (Yasmin)

   Obrigada pelo beijo? Yasmin no exato momento recriminou sua mente impura.

   - Não tem do que agradecer, sabe disso… (Lucas)

   Beijou lentamente a bochecha dela. Yasmin sentiu sua bochecha queimar e seu rosto adormecer. Fechou os olhos por instinto… Lucas sorriu e saiu do apartamento. Ao escutar a porta se fechar, Yasmin sentou-se no sofá tocando seus lábios. O que havia sido aquele contato? Era o primeiro passo?

   Lucas respirava fundo no corredor. Sentia todo seu corpo formigar. O que havia feito? Fora que, nunca havia sido tão direto e decidido. Suspirou e esfregou o rosto com as mãos. Olhou para o zíper de sua calça e caiu na risada. Parecia um adolescente precoce, mas não conseguia segurar. Aquele beijo havia deixado-o em estado de puro nervosismo. Desceu rapidamente as escadas, antes que batesse novamente na porta dela. Quando ia sair, um estalo lhe fez lembrar de uma coisa…

   Egito não era Brasil!

   E ele não havia prestado atenção no caminho, mesmo sendo o que havia dirigido. Era impossível prestar atenção nas ruas do que naquela bela morena que estava no banco do passageiro. O único jeito era ter que voltar ao apartamento dela pra perguntar. Seria obrigado a isso!


   “Estou sem cara para voltar naquele apartamento, será que me precipitei? Enfim, fiz o que senti vontade e que desde que cheguei aqui me atormentava, ela exerce um poder sobre mim que é impressionante. Ela meche com todos os meus hormônios…”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Sete.

   Yasmin correu para o camarim. Precisava urgentemente assuar o nariz devido aos constantes espirros. Trocou-se rapidamente, por sorte tinha uma roupa seca na mochila. Correu o máximo que pôde para que a chuva não voltasse a cair, mas era tarde demais. Quando chegou à portaria, a tempestade há havia voltado. Suspirou frustrada. Ia dar um passo, quando foi segurada pelo braço.

   - Espera! (Lucas)

   Yasmin olhou pra ele com os olhos arregalados. Havia tomado um susto.

   - Desculpa, te assustei. (Lucas)
   - Sem problemas. (Yasmin)
   - Não vai embora debaixo dessa chuva, vou pegar o carro do hotel e te levar. (Lucas ofereceu-se)
   - Não precisa… (Yasmin)
   - Precisa sim. (Lucas)
   - Eu poderia continua dizendo não por teimosia, mas aceito. Não estou afim de pegar outra chuva. (Yasmin afirmou sorrindo)
   - Então vamos. (Lucas)


   Lucas, como bom cavalheiro, abriu a porta pra ela que entrou em silêncio dentro do carro.
Deu a volta e entrou, fechou a porta e ligou o carro.

   - Bem, vai ter que me ajudar mostrando o caminho, não lembro bem aonde é. (Lucas)
   - Ok, você vira na primeira direita e depois a segunda esquerda, vai ter a avenida principal, pode segui-la até eu avisar quando deve virar. (Yasmin)
   - Ok. (Lucas afirmou dando partida)

   Como o hotel era na parte do Cairo divisa com Luxor, rapidamente estacionou na frente do condomínio que ela morava.

   - Entregue. (Lucas afirmou sorrindo)
   - Bem, está convidado a subir e tomar alguma coisa, sei lá… (Yasmin falou o que sentia vontade e sentiu suas bochechas queimarem de vergonha)

   Lucas sentiu-se surpreso, mas sorriu ao perceber que ela estava envergonhada.

   - Eu poderia dizer que não por teimosia, mas aceito. (Lucas respondeu rindo)

   Yasmin riu e seu coração acelerou. Por Deus, havia convidado um homem pra entrar em sua casa? Ela era uma ovelha negra na religião islâmica, definitivamente. Quando entraram no elevador, Yasmin automaticamente mexeu nos cabelos olhando pro espelho e Lucas a observava disfarçadamente. Chegaram ao andar e Yasmin pegou em sua mochila o chaveiro.
Destrancou a porta e virou-se sorrindo.

   - Não é nenhum castelo de luxo, mas é agradável. Pode entrar e seja bem vindo. (Yasmin afirmou sorrindo e abrindo a porta pra ele entrar)
   - Com licença. (Lucas afirmou limpando os pés no tapete da porta e em seguida adentrou no apartamento)

   Yasmin acendeu as luzes e Lucas pôde perceber o quanto o lugar era bonito. Pequeno, mas a decoração era encantadora.

   - Pode ficar a vontade, quer beber alguma coisa? Chá, café, refrigerante, água? Bem, só não costumo ter bebidas alcoólicas. (Yasmin)
   - Pode ser uma água. (Lucas)
   - Já volto. (Yasmin afirmou sorrindo)

   Lucas sentou-se no sofá e observou cada detalhe dos porta-retratos que Yasmin tinha em uma mesinha. Pegou um nas mãos. Yasmin chegou nesse instante com um copo de água, também trazia um refratário repleto de biscoitos.

   - É a sua família? (Lucas perguntou)
   - Sim. (Yasmin respondeu entregando o copo de água e colocando na mesa de centro os biscoitos)
   - Obrigado. É sua irmã? Caramba, são muito parecidas. (Lucas)
   - É sim. (Yasmin respondeu sorrindo e sentando-se ao lado dele)
   - Vocês não parecem ser muçulmanos, quer dizer, os muçulmanos são mais conservadores. (Lucas)
   - Minha família nunca foi radical, sempre vivemos normalmente, claro que seguindo algumas coisas do Alcorão e rezando pra Ala. Mas sem fanatismo. (Yasmin)
   - Isso é interessante. Ele é seu pai, não é? (Lucas)
   - Sim. (Yasmin respondeu suspirando)
   - Não gosta de falar sobre isso? (Lucas)
   - Sem problemas, falar de meu pai é maravilhoso. (Yasmin respondeu com o queixo tremendo)
   - Por que está aqui? Deveria estar em seu país, ao lado de sua família… (Lucas afirmou não contendo a vontade de tocá-la no rosto)
   - E-eu queria, mas não é possível no m-momento… (Yasmin sussurrou fechando os olhos)

   Lucas engoliu em seco, não poderia mais suportar aquela vontade que tomava conta de seu ser. Estava enfeitiçado.

   - Você me hipnotiza. (Lucas afirmou entre sussurros)

   Yasmin abriu os olhos nesse instante e sentiu uma explosão de sentimentos dentro de si quando ele curvou-se em sua direção. As respirações se chocaram e os lábios encostaram-se como imãs.

   “Eu não suportaria olhar aqueles lábios vermelhos e trêmulos me convidando para aprofundar-se entre seu gosto e não seguir nessa direção. Tentar segurar a vontade de algo que não dá mais pra passar batido. Eu preciso provar de seu gosto, sentir a essência de sua saliva, a maciez da pele de seus lábios. Eu preciso de uma vez por todas, de um beijo dela…”


   Quando Lucas encostou os lábios nos de Yasmin, ela sentiu a paralisação momentânea de todas as células de seu corpo. Mal conseguia mover-se. Mas a vontade de corresponder àquele carinho foi maior do que sua trava. Lucas lentamente roçou apenas os lábios, sentindo a maciez e a textura da pele de Yasmin. O cheiro de sândalo ia invadindo as narinas dele, o deixando num estado de inquietação. E nesse ritmo, não pôde se contentar com aquele roçar que suas bocas executavam, precisava aprofundar e sentir de fato o que ela podia lhe proporcionar com apenas um beijo. Lucas brincou esfregando o nariz no dela e sorriu entre o beijo, abrindo com carinho os lábios dela e tendo o espaço necessário para que houvesse o contato entre suas línguas. Segurou o rosto dela com carinho, e suspirou quando sentiu que ela tocava em sua nuca, o acariciando e envolvendo-se com o gosto de hortelã que vinha de seu hálito. Não podiam mais parar, aquele beijo era envolvente o suficiente para fazer com que eles esquecessem que do lado de fora, existia um mundo.

   Lucas Rodrigues Moura da Silva, filho do empresário Jorge Rodrigues, anuncia casamento com a socialite Bruna Unzueta. Os pombinhos também comemoram a chegada do primeiro filho.

   Yasmin sentiu a força do flashback em sua cabeça, recordando-se que estava beijando um homem casado e que seria pai. Mas o gosto de seus lábios, aquele roçar que estava deixando-a maluca, atrapalhando o procedimento certo para seu pulmão fazê-la respirar. Mas ao poucos se recordou dos preceitos sagrados de sua religião e das palavras de seu pai…

   - Envolver-se com alguém compromissado não é o bem, não por estar escrito no Alcorão, mas porque enquanto você desfruta do prazer, alguém está derramando lágrimas de sangue. Não seja feliz usufruindo a tristeza alheia, por mais que essa pessoa mereça. (Luiz)

   E pra Yasmin, as palavras de Luiz eram tão ou mais importantes que as de Maomé. Separou-se de Lucas e levantou-se do sofá ofegante e com os olhos arregalados.Seu gloss estava borrado e ela não sabia o que falar, o que fazer, como agir. Queria cavar um buraco e enfiar-se dentro. Deus, que beijo era aquele? Piorou, sentiu como suas bochechas queimavam devido a esse pensamento. Mas não tinha como fugir dessa sensação, nunca havia provado um beijo tão delicioso.

   - Y-yasmin… (Lucas sussurrou atônito, limpando o canto de seus lábios)
  - I-isso não podia… Não p-podia ter acontecido. V-você é casado. (Yasmin sussurrou respirando fundo, sem olhar pra ele)

   Lucas olhou-a entre respirações aceleradas. Ela sabia sobre seu casamento?

   - E-eu sou casado. (Lucas falou respirando fundo)
   - S-sim, eu sei… (Yasmin)
   - E não estou nem aí. (Lucas afirmou levantando-se e indo na direção dela)

   Yasmin arregalou os olhos quando sentiu que ele a puxava pela cintura. E quando deu por si, estava beijando-o novamente. Não conseguia controlar-se, era inevitável… Não resistia. Estava entre a razão e o coração… Coração? Yasmin o empurrou andando para o outro lado.
Não conseguia raciocinar nada…

   - V-você é meu patrão, c-casado, sei que vai ser p-pai… Não, isso n-não pode. (Yasmin sussurrou balançando a cabeça)
   - Sabe que eu sou casado e que vou ser pai? Quem te contou? (Lucas perguntou)

   Yasmin ruborizou ainda mais. Não sabia o que responder.

   - Hein Yasmin? (Lucas repetiu)
   - T-trabalho no lugar em que v-você é dono, como n-não iria saber… (Yasmin respondeu qualquer coisa)
   - Eu posso ser casado, mas beijei porque quis e quer saber, tenho um casamento de aparências, não a suporto e é isso. Pronto. Satisfeita? (Lucas soltou)

   Yasmin ficou olhando-o sem entender. Pasma.

   - Ah tem mais, ela ficou grávida somente pra me encurralar na parede e ser obrigado a casar com ela, entendeu não é? (Lucas)

   “Queria nesse exato minuto, cavar um buraco e me jogar de cabeça. Ficar lá até o dia que eu souber que Lucas Moura é uma pessoa que não existe… Nem sei mais o que é vergonha… Ele não gosta da mulher dele?”

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Seis.

   Yasmin respirou fundo antes de subir ao palco. Sempre ficava tensa, mas conseguia soltar-se na frente das pessoas e dar um show. Hoje seria diferente, a apresentação seria dupla e não individual. Piscou pra Aline que seria a odalisca que entraria com ela. Aline usava uma roupa parecida com a de Yasmin, mas era no tom de verde claro… O lugar escureceu e ambas entraram ao toque do derback, tambor árabe. A morena sentia como os olhares disparavam em suas curvas, sentia-se envergonhada, mas continuava sua belíssima performance. Aline também encantava com seus passos e em suas mãos, tocava um pandeiro envolvido de véus.

   Yasmin desceu do palco e fez com que todos acompanhassem as batidas da música batendo palmas e deixou todos os homens de queixo caído com sua jogada de quadris. Ela sabia enfeitiçar quem ela quisesse. Não menos Lucas, que engolia em seco ao vê-la dançando. A morena passou ao lado dele e jogou um dos véus em suas mãos. Lançou um sorriso e voltou ao palco. Lucas petrificou olhando o véu e Yasmin simultaneamente. Aquilo havia feito-o ficar com as pernas bambas…

   - Segundo uma lenda árabe, quando a odalisca dá de presente um véu, ela te deseja. (Taylor falou no ouvido de Lucas segurando o riso)


   Lucas lançou-lhe um olhar furioso. Mas… Aquela lenda era verdadeira? Olhou o pequeno véu e disfarçadamente levou-o até o nariz. Fechou os olhos aspirando aquele delicioso aroma, em seguida guardou-o no bolso de sua calça. Taylor viu e caiu na risada, tinha certeza: Lucas estava hipnotizado pelos encantos de Yasmin.
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Cinco.

   Lucas entrou no restaurante e suspirou. Helen e Taylor estavam praticamente se engolindo…
Ele não conseguia evitar o ciúme.

   - Duas divergências, a primeira é que aqui não é motel e a segunda que o moçinho ainda está em horário de trabalho. (Lucas resmungou chegando perto dos dois)
   - Só na sua cabeça, sou supervisor querido. (Taylor afirmou divertido)
   - E outra coisa, sem ciúme pra cima de mim, primo lindo. (Helen falou beijando a bochecha de Lucas)
   - Será que vou ter que pedir a mão dela pra você? (Taylor)
   - Para de ser palhaço. (Lucas)
   - Bebê, está de mau humor? (Helen)
   - Não, estou cansado. (Lucas murmurou)
   - Por que não vai descansar então? (Helen)
   - E você acha que ele vai perder o show das Odaliscas? (Taylor)
   - O manda ficar quieto… (Lucas)
   - Fica quieto. Agora você, faz isso que te falei, vai dormir. Ficou tenso hoje por causa do bebê, mas ele já está melhor. (Helen)
   - Estou sem sono. (Lucas)
   - Cara, te aconselho a de verdade arranjar uma namorada no Egito, você está precisando de sexo e isso está visível. (Taylor falou rindo)
   - Taylor sai daqui. Deixa-me conversar seriamente com ele. (Helen)
   - Ok, mas eu no seu lugar faria isso. (Taylor afirmou rindo e batendo a mão no ombro do amigo)
   - Bom saber disso, seu cachorro. (Helen resmungou)
   - É brincadeira, coisa linda. (Taylor afirmou piscando e andando pra saída do restaurante)
   - Agora me fale, o que está te fazendo ficar assim? (Helen)
   - Sei lá, só sei que minha cabeça parece que vai explodir. (Lucas)
   - Está sendo estressante administrar o hotel? (Helen)
   - Não, está sendo estressante controlar a vontade que eu tenho de… (Lucas soltou, mas no final da frase a cortou)
   - Vontade que tem de? (Helen)

   - De nada… (Lucas respondeu suspirando)
   - E você acha que vou acreditar nisso. Pode desembuchando… (Helen)
   - Não é nada… (Lucas)
   - Ai saco, não quer falar não fala. Seu chato. (Helen resmungou curiosa)
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Quatro.

   Yasmin usaria naquela noite, uma roupa bem ao estilo Odalisca. Uma calça larga feita com véus, todos nos tons de azul claro. No quadril, o lenço com pedrarias douradas que se encaixavam perfeitamente com os tons azulados. O sutiã era azul claro e com as mesmas pedras douradas do lenço. Jogou um pouco de purpurina dourada na barriga e no colo. Maquiou-se como sempre, delineando os grandes olhos, as bochechas com o blush terra-cota e os lábios levemente preenchidos com o gloss cor de boca. Puxou a franja para trás, prendendo com um grampo de strass e fazendo um pequeno topete. Pegou seu perfume e borrifou no pescoço e nos braços. A essência de cereja espalhou-se pelo lugar. Virou para o espelho e sorriu satisfeita. Estava belíssima.

   - Salam! (Anaíra exclamou colocando a cabeça pra dentro do camarim)
   - Nana… (Yasmin)
   - Nossa hein, ta querendo conquistar o Ali Babá ou o Aladim? (Anaíra perguntou divertida e beijando a bochecha da amiga)
   - Boba! (Yasmin)
   - Que bom que veio, tem que fazer isso mesmo. Ele já te encheu? (Anaíra)
   - Nem o vi, graças a Ala. (Yasmin respondeu suspirando)
   - Ainda bem. (Sam)
   - Nem quero vê-lo, o que ele fez foi muita cachorrada. (Yasmin)
   - Sem dúvida, fora que é uma verdadeira piada. Como você vai ser prostituta se nem provou do prazer intenso a dois. (Anaíra afirmou rindo)
   - Fica quieta. (Yasmin)
   - É verdade, você morreria de fome. Com toda certeza do mundo! (Anaíra)
   - Vai trabalhar, loira aguada. (Yasmin)
   - Estou indo embora querida, meu expediente acabou agora. (Anaíra)
   - Sorte sua. (Yasmin)
   - Mais sorte é que a chuva parou, porque ninguém merece ir embora caindo o mundo lá fora. (Anaíra)
   - Eu cheguei embaixo de chuva, estava toda molhada. (Yasmin)
   - Cuidado pra não ficar gripada. (Anaíra mal terminou de falar e Yasmin começou a espirrar) Está vendo!
- Fazer o que. (Yasmin murmurou inspirando)

A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Três.

   Bruna dedilhou as teclas do celular e era visível o quanto tremia. As lágrimas escorriam por seu rosto e ela sentia-se bastante fraca. As olheiras que tinha, eram profundas e estava bastante pálida.

   - A-alo. (Bruna sussurrou com a voz embargada)
   - Bruna? (Lucas)
   - L-lucas, eu passei t-tão mal… (Bruna afirmou chorando)
   - Eu sei querida, mas já passou. Agora está melhor e por sorte, não houve nada com o bebê. (Lucas)
   - Q-quero ficar com você… (Bruna sussurrou)

   Lucas engoliu em seco, por mais que não sentisse nada por ela, queria estar no Brasil com ela. Sentia a mesma carência…

   - Eu não posso, mas me ligue quando precisar de qualquer coisa, ou apenas querer conversar. (Lucas)
   - T-ta bom… (Bruna)
   - Agora se acalme e descanse. (Lucas)
   - E-eu to com sono… (Bruna)
   - Durma e se cuida, cuida do nosso filho também. (Lucas sussurrou e Bruna desligou o celular aos prantos)

   A consciência de Bruna, mostrava sinais claros de que estava bastante pesada. Arrependimento? Não seria talvez a palavra certa já que ela teve a sorte de não ter acontecido o que ela queria… Mas ela sentia-se mal com aquela situação e o que mais queria, era estar ao lado de Lucas…


   Lucas olhava sem parar o relógio de seu celular, estava mais calmo com relação à Bruna, porém via que a hora se passava e nenhum sinal de Yasmin. No Egito caía uma forte chuva, que há tempos não acontecia. As tempestades eram esporádicas no ano e quando isso ocorria, era uma grande felicidade para toda a população. Porém, sempre vinha devastadora…

   Havia começado por volta das 18 horas e parecia continuar pela noite inteira.

   - Ela desistiu, tudo culpa daquele desgraçado. (Lucas murmurou levantando-se do sofá, estava no camarim esperando-a)

   Lucas ia dar mais um passo, quando Yasmin apareceu na porta do camarim. Estava completamente ensopada. A roupa estava transparente e marcava perfeitamente sua silhueta.
 Os cabelos molhados escorriam por seu rosto. Os lábios tremiam devido ao frio de estar com o corpo molhado. E ainda mais por olhá-lo. Lucas sentiu o coração acelerar. E sorriu lindamente mirando-a.

   - Eu sabia que viria… (Lucas sussurrou)

   Yasmin suspirou ofegante, ficou transtornada ao sentir uma gotícula de amor brotando em seu coração. Estava com medo... Medo de se apaixonar.
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Dois.

   Yasmin não havia dormido quase a noite toda. Estava acordada desde a madrugada, não conseguia desprender-se de seus pensamentos. Abriu seu armário por diversas vezes. Sempre com o mesmo propósito… Observar aquele véu que fora presente de sua mãe.

   
“Quando eu era bem pequena, minha vózinha que também não está mais aqui, sempre me dizia que quando sentimos vontade de fazer alguma coisa, devemos ir até o fim. Devemos seguir o rastro de nossa intuição e mergulhar-se na percepção de um sentimento. Mais sábios que os antigos, impossível. E sei que essa minha vontade, vai aflorar-se cada vez mais e espero em breve poder executá-la da maneira mais mágica, do jeito que sempre sonhei… Eu acredito!”


   Yasmin pegou o véu nas mãos e aspirou o cheiro agradável de sândalo. Era a essência que Yasmin mais gostava e estava presente por onde ela estivesse. O guardou em sua mochila, mas ainda não havia decidido se voltaria ao hotel…

   No hotel, Lucas acabara de saber sobre o estado de saúde de Bruna.

   - Por que não me disse antes? (Lucas perguntou nervoso e discando o número de Fátima)
   - Você estava dormindo, cansado, mesmo te acordando vi o quanto estava exausto. Fora que a tia não me explicou direito. (Helen)
   - Mesmo assim, é meu filho… (Lucas afirmou tenso)
   - Eu sei bebê, me dá seu telefone, está bastante nervoso pra falar com a tia. (Helen)

   Lucas entregou o celular pra prima e estralou os dedos em sinal de nervoso. Já tinha um afeto grande pelo bebê, era seu filho… Não queria perdê-lo. E também se preocupava com Bruna, pois por enquanto, ela era a pessoa que carregava seu filho no ventre.

   - Alô tia? (Helen)

   Lucas ficou observando a conversa da prima com Fátima, estava esbaforido tentando entender o que diziam.

   - E aí, o que houve? (Lucas perguntou aflito após Helen desligar o celular)

   “Sei que perdi a consideração que meu filho tinha por mim. Às vezes paro e penso se não fiz mal em pressioná-lo a fazer uma coisa que não tinha vontade, não o deixei andar com as próprias pernas. Eu fiz isso pensando que fosse o melhor, já não sei se é assim. Tenho um carinho grande pela Bruna, mas amo meu filho acima de tudo.”

   - O que houve doutor? (Jorge perguntou ao entrar no consultório do médico de Bruna, Fátima não o acompanhava)
   - Sente-se… (o médico indicou a cadeira acolchoada à frente de sua mesa)


   Jorge esfregou as duas mãos e olhou para o médico, sua expressão era séria.


   - Bem, a paciente teve uma hemorragia muito grande, por pouco iríamos precisar de transfusão de sangue. Isso foi originado por… (o médico afirmou sem completar seu diagnóstico)
   - Por? Pode dizer a verdade. (Jorge)
   - Ela ingeriu algum tipo de medicamento ou droga. Mandamos as amostras para análise em nosso laboratório. (o médico)
   - Droga? Medicamento? (Jorge perguntou incrédulo)
   - Sim. (o médico)

   Jorge ficou perplexo. Não teria pensando nisso jamais…

   - E o bebê? (Jorge)
   - Bem, foi difícil todo o processo de conter a hemorragia, fizemos de tudo pra não prejudicar o feto e felizmente conseguimos mantê-lo vivo. Não sabemos se haverá algum tipo de seqüela, na verdade é quase provável, mas conseguimos salvá-lo. (o médico)

   Jorge soltou um suspiro de alívio, mas teria que conversar seriamente com Bruna. Sem sombra de dúvidas.

   - Ela está melhor, e seu bebê está fora de perigo. (Helen afirmou sorrindo)

   Helen observou as lágrimas que juntaram nos olhos do primo. Mas percebeu o quanto ele se esforçou para segurá-las.

   - Graças a Deus. (Lucas sussurrou fechando os olhos e respirando fundo)

   “A coisa que mais me deprime, é ver o quanto meu primo necessita de amor… Me dói tanto vê-lo mal, sofrendo. Queria tanto que ele fosse de verdade feliz, e agradeço a Deus por esse bebê ter ficado vivo, talvez ele seja o renascimento da felicidade dentro do coração do meu bebê. Papai do Céu, seria muito pedir uma pitada de felicidade pra ele?”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Um.

   - Lucas… Luuu!

   Era Yasmin chamando-o?

   - LUCAAAAS…

   Lucas deu um pulo da cama assustado… Não sabia onde estava, apenas procurava por Yasmin. Quando caiu em si… Percebeu que era um sonho? Frustração. Lucas respirou fundo tentando conter os fortes batimentos cardíacos. Passou a mão na testa, estava pingando de suor. Estava pálido. Fora que seus ânimos estavam bastante exaltados.

   - Lucas, me desculpe. Te chamei várias vezes, mas não acordava por nada. (Helen disse tensa)
    - T-tudo bem… (Lucas gaguejou)

   Fátima havia ligado pra Helen contando sobre o acontecido. A morena olhou a fisionomia de assustado do primo e, segurou-se…

   - O q-que faz aqui? Que cara é essa? Houve alguma coisa? (Lucas perguntou observando a feição tensa de Helen)

   A morena engoliu em seco. Sentiu o coração pequeno ao ter que acordá-lo e agora contar uma bomba… Tudo bem que não sabia muito o que acontecera com Bruna, já que sua tia mais gaguejava no telefone do que realmente falava. Agora não seria o momento apropriado pra falar aquilo.

   - Eu me esqueci, vim te dar algum recado, mas sumiu da minha mente. (Helen mentiu)
   - Como assim sumiu de sua mente? (Lucas)
   - Estou muito esquecida, logo terei que ir ao médico geriatra. (Helen afirmou forçando um sorriso)
   - Vai mesmo. (Lucas)
   - Desculpe ter te acordado, bebê. Volte a dormir, te amo. (Helen sussurrou beijando a bochecha do primo e traçando com os dedos, o perfil dele)
   - Não se preocupe. Boa noite, também te amo. (Lucas)

   Quando a porta se fechou, Lucas suspirou indo na direção da cama. Deitou novamente e sem perceber, desejou profundamente que o sonho voltasse da onde havia parado.

A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta.

   Lucas deitou a cabeça no travesseiro e olhou para o teto. Sua cabeça estava cheia e não conseguiria dormir tão cedo. Apenas lembrava no choro sentido de Yasmin. O pré-julgamento que a deixara tão mal.

   Bateram na porta e ele suspirou passando a mão na testa. Levantou-se e esfregou o peito que estava suado devido ao calor forte. Arrumou a calça do pijama e abriu a porta…

   Segurou na fechadura, para não cair devido ao susto que tomara. O véu negro que cobria o rosto do nariz até o queixo. Os cabelos pretos que caíam pelas costas e o cheiro de rosas que eram tão marcantes nela. Lucas esfregou os olhos tentando assimilar as coisas. Mas apenas viu que ela o puxava pela mão. Deixou-se guiar. A porta fechou-se e o requebrado dos quadris que ele tanto admirava, começavam a surgir entre o véu que ela segurava com as mãos. Ela estava enfeitiçando-o. Hipnotizando com aqueles pares de olhos que tinham o guisado de uma serpente egípcia, que mostravam o intenso brilho da Lua e encantavam como uma maravilha do mundo.

   Ele não conseguia acreditar na miragem a sua frente. Era o começo de um oásis. Eram os misteriosos grãos de areia do Saara. Era Yasmin, a mais bela Odalisca. A mais linda…

   
“Eu não podia me conter, eu não agüentava mais ficar sentado e a vendo enfeitiçar-me sem que eu pudesse sentir seu cheiro embriagador. Eu precisava senti-la em meus braços, eu precisava provar de seus lábios… Sentir o seu gosto, eu necessitava de um… Beijo!”


   Lucas levantou e Yasmin parou com a dança, correspondendo ao intenso olhar. Eles se comunicavam entre suas pupilas e decifravam suas mentes através da íris. Estavam conectados apenas pela miragem. Lucas aproximou-se, tirou delicadamente o véu do rosto dela. Encostou levemente os lábios nos dela, sentiu como o coração acelerou compulsivamente. Sentiu o estômago retrair-se e ao tocar em sua língua, sentiu como pequenas partículas de paixão, tomavam conta de seu ser…
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Nove.

    Yasmin no Egito, havia tomado um refrescante banho. Vestia uma camisola curta branca e meias coloridas, apesar do forte calor, Yasmin não conseguia dormir com os pés gelados. Sentou-se em sua cama para ligar a TV, quando um forte vento fez a cortina clara esvoaçar, e ao mesmo tempo, os pêlos de Yasmin arrepiaram-se.

   A ambulância chegou rapidamente na residência dos pais de Lucas. Fátima foi junto com a nora, estava nervosa demais e talvez os para-médicos conseguissem acalmá-la.

   - Ela perdeu o b-bebê? (Fátima perguntou sussurrando)
   - Ainda não sabemos dizer, no hospital farão todos os exames. Senhora acalme-se, vai dar tudo certo. (o para-médico)
   - Ai m-minha Nossa Sra., protege esse bebezinho, protege… (Fátima sussurrou tremendo de nervoso)

   Mirava profundamente as gotas de sangue que estavam escorrendo pela ambulância. Bruna parecia estar tendo uma hemorragia. Fátima, por mais que condenasse seus pensamentos, não estava nem aí com o estado de saúde da nora, só pensava no neto. Conseqüentemente, no filho. Mas por enquanto o neto dependia de Bruna e o que devia fazer, é rezar pra Deus pra que aquela hemorragia, não fosse o fruto de um aborto… Espontâneo? Ela pensou.

   “Senti um vento passar por meu pescoço, não gosto quando isso acontece. É um aviso, alguém quer me dizer alguma coisa, alguém quer me mostrar alguma coisa… Meu Deus me ilumine!”

   “Não sinto nada do meu corpo, eu pareço flutuar, minha barriga dói e eu sinto que um líquido está saindo de mim. O que foi que eu fiz? O que está acontecendo comigo? Eu sinto um vazio tão grande, uma dor intensa que percorre a minha espinha e se aloja em meu ventre. Eu quero me mover, mas não consigo. Estou sufocando…”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Oito.

   “Irei contar uma breve história de amor. Eu era católica, ele muçulmano. Eu acreditava em Deus, ele em Ala. Eu sou brasileira, ele era egípcio. Eu queria desfrutar do amor, ele queria se apaixonar perdidamente. Eu o encontrei, ele me encontrou. Nada mais será igual, nem as flores têm a cor e o encanto que tinham, os pássaros não cantam mais como antes, o Sol não emite mais o mesmo brilho, o arco-íris tornou-se preto e branco. Não discuto as vontades de Ala, apenas me conformo de que meu coração foi partido em dois. Uma parte para minhas lindas anjinhas e a outra, foi pra debaixo dessa terra, onde você permanece no sono mais profundo, na paz eterna. Seguir-te-ei e guardarei sua memória até o dia que venha me buscar. Esperarei-te…”


   A grama de cor verde bandeira, parecia transmitir uma grande paz. Algo semelhante à vida espiritual. Mas cada passo que Regina dava, a faziam lembrar-se do dia em que teve que despedir-se de Luiz pra sempre. Talvez pra ela, a dor ficara guardada em uma caixinha dourada, que residia no fundo de sua alma. Afinal de contas, ela precisava ser o ombro para suas duas filhas e, principalmente para Yasmin, que mesmo dois anos depois, não se conformava desse acontecido. As flores do campo, misturadas com lírios brancos formavam um encantador buquê, preso com uma fita de cetim azul claro. Regina ajoelhou-se frente à lápide e dedilhou o nome de Luiz que estava escrito com ideogramas árabes. Repousou o buquê em frente, suspirou e sorriu começando a falar.

   - Vim te contar uma novidade, vamos ser avôs… (Regina exclamou emocionada ao relatar a gravidez de Julia, Yasmin ainda não sabia)


   Esfregou os olhos tentando conter algumas lágrimas que insistiam em aparecer. Mas era impossível isso não acontecer.

   - Tem que ver a felicidade da Julia, do marido dela. Quem ainda não sabe é a sua princesa, mas em breve contaremos. (Regina)

   Um lindo pássaro branco, pousou sobre a lápide de Luiz. Regina sorriu, isso sempre acontecia quando ela ia ao cemitério visitá-lo.

   - H’abibe, sinto tanto sua falta. E pra completar tive que me conformar de t-ter que ver n-nossa caçula indo morar l-longe, tudo por uma i-injustiça. Mas só te p-peço uma coisa, ilumine-a, e-esteja ao lado dela. Sinto que e-ela precisa de uma luz, hoje ela me l-ligou chorando e me sinto c-completamente impotente p-por não estar ao lado dela, consolando-a. A proteja j-junto com Ala. (Regina sussurrou chorando)

   Ficou mais algum tempo conversando com Luiz.

   - Ma’as-salama h’abibe! Uhibboki. Que Ala esteja com você sempre! As-salaam (Regina)
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Sete.

   - Ai meu Deus, Bruna. Acorde, acorde… (Fátima sussurrou ajoelhando-se no chão e dando leves tapinhas no rosto de Bruna)

   Fátima olhou assustada para a poça de sangue. Na hora sua mente não havia associado às coisas, mas como um estalo, ela percebeu o que poderia ter acontecido. Levantou-se rápido e correu atrás de um telefone.

   - A-alo. P-por favor, uma ambulância… (Fátima gaguejou)

   Depois de passar o endereço ao socorro, desceu as escadas correndo. Chegou na cozinha pálida feito um papel e ofegava tentando buscar oxigênio.

   - Dona Fátima, o que houve? (Julieta perguntou assustada ao ver a expressão de sua patroa)
  - A B-bruna. C-chamei uma ambulância, tem s-sangue… (Fátima expressou-se vagamente)
   - Dona Fátima, não entendi absolutamente nada. Sente-se que vou lhe dar um copo de água com açúcar. (Julieta)

   Praticamente engoliu a água com açúcar que bebera. Respirava fundo…

   - Agora me conte, o que houve? (Julieta)
   - Tem uma p-poça de sangue no chão, B-bruna está desmaiada. Chamei uma a-ambulância. (Fátima)
   - Minha Nossa Sra. Aaparecida, será que ela perdeu o bebê? (Julieta)
   - N-não sei… (Fátima gaguejou)

   “Meu filho…”

A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Seis.

   “Não sei, mas sinto que algo está para acontecer ou aconteceu. Uma bobagem que de repente veio em minha mente, nunca fui de acreditar nessas coisas, mas estou sentindo um frio na barriga, meus pêlos do braço se arrepiaram, não sei, fiquei estranho de uma hora pra outra…”

   - Não acredito que aconteceu isso. (Helen afirmou pasma)
   - Pois é, ele alegou isso. (Lucas)
   - Mas a Yasmin não tem cara de que faça esse tipo de coisa, ela é tão boazinha. Fora que tenho várias amigas que são mais rodadas que Fusca 70 e são bem diferentes dela. (Helen)
   - Eu não acreditei, por mais que apareça o nome dela na lista. (Lucas)
   - Deve ser algum engano, mas fez certo em conversar com ela e esse tal Marcelo cara a cara. Assim as máscaras caem. (Helen)
   - Eu percebo que existe muita raiva dele pra cima dela. (Lucas)
   - Aposto que é despeito, ou então, ela já deu algum fora nele. (Helen afirmou rindo)

   - É possível. (Lucas)
   - Com certeza, amor reprimido. É sempre assim. (Helen)

   “E se for pensar, talvez ela tenha razão.”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Cinco.

   “A Bruna nunca foi a nora que pedi a Deus, pelo contrário, meu filho merece uma pessoa melhor, que de verdade o faça feliz e ela, não pode se dar ao luxo nem de se fazer feliz. Jorge o pressionou, mas conheço meu bebê, ele casou mesmo por medo de que essa maluca cometesse algo contra o bebezinho, e de certa forma, ele fez o certo. Sei que se não tivesse acontecido essa gravidez, ele jamais teria se casado, pelo menos não com ela. Mas não adianta chorar o leite derramado, agora já foi e só o que eu peço a Deus, é que ilumine a cabeça de meu filho pra que ele consiga ser forte perante essa situação e também espero que após o nascimento dessa criança, ele consiga a guarda e dê um ponto final nesse casamento, que pra mim é mais do que ridículo…”


   - Julieta, a Bruna ainda não acordou? (Fátima perguntou entrando na copa da mansão)
   - Não senhora. (Julieta, uma das empregadas)
   - Ela acha que é saudável acordar tarde dessa maneira, ainda mais grávida. Não sei pra que o Jorge insistiu em trazê-la. (Fátima murmurou irritada e saindo da copa)

   Fátima subiu a escada furiosa, incomodava-se demais com a presença de Bruna em sua casa. Deixando de lado sua fina educação e etiqueta, entrou com tudo no quarto em que Bruna estava. A cama estava vazia. Seguiu para o closet e lá Bruna também não estava. Mas arregalou os olhos ao ver o rastro de sangue que estava no chão. Correu até o banheiro e encontrou Bruna desmaiada e ao seu lado, uma poça de sangue.

A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Quatro.

   “De vez em quando é bom conversarmos com pessoas que sempre estarão ao nosso lado, mesmo que não fisicamente. Minha mãe fala poucas palavras, mas as suficientes pra que possamos tomar como lição. E até mesmo parece que o problema vai embora, como se ela fosse uma fada madrinha, que realiza todos os sonhos da Cinderela, melhor dizendo, como um gênio da lâmpada mágica, que realiza os desejos do Aladim. Minha mãezinha linda, minha umm, que me faz tanta falta. Queria estar com ela, pois sei que nessa época que se aproxima do aniversário de morte do meu pai, ela fica bastante mal. Acho que tão difícil quanto perder um pai, é perder um companheiro… Um amor!”


   Yasmin sentou-se na cama e abriu seu notebook, havia comprado-o há pouco tempo, depois que por meses havia juntado o dinheiro. Não era o mais luxuoso e nem o mais potente, mas atendiam todas as suas necessidades. Como estava sem fazer nada, e seria assim pela tarde e noite toda, já que naquele dia ela não voltaria pro hotel. Quando ao dia seguinte, ainda não sabia o que fazer, mas hoje, não iria.

   Abriu sua caixa de e-mails e em seguida, entrou em um bate-papo. Apenas pra hora passar, já que assistir televisão também não seria o mais indicado pra fugir do tédio. Mas acabou sentindo uma grande curiosidade com relação aos donos da rede de hotéis que ela trabalhava, mais precisamente, Lucas. Jogou num site de buscas, o nome de Lucas e seu sobrenome.

   - Vamos ver, aqui… Casamento do filho de um dos maiores empresários do Brasil e de todo o mundo. (Yasmim leu o título e clicou no link)


   Yasmin parou pra observar a foto que fazia parte da matéria. Era Lucas em um show. Estava lindo.

   - Lucas Rodrigues Moura da Silva, filho do empresário Jorge Rodrigues, anuncia casamento com a socialite Bruna Unzueta. Os pombinhos também comemoram a chegada do primeiro filho. (Yasmin leu)

   Filho? Yasmin não havia entendido direito aquela parte, eles queriam ter um filho ou Bruna estava grávida?

   - Bruna, confessou que no começo da gravidez, anda enjoando bastante… Ele vai ser pai… (Yasmin sussurrou vendo a notícia)

   “Estranho olhar pra ele e saber que é casado e que terá um filho, ele parece tão novo… Tão… Bebê. De verdade, ele tem carinha de neném e vai ter um neném. Parece gravidez de adolescente, mas ele parece ser bastante responsável e um filho desse cara, se puxá-lo, vai ser lindo demais, ou linda… A esposa dele também deve ser bonita, não tem foto dela, fiquei curiosa, mas é melhor deixar pra lá. Coisa de velha fofoqueira ficar bisbilhotando a vida dos outros.”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Três.

   “Ala, ó poderoso e celestial criador. Peço-lhe que envie um pouco de conforto pro coração da minha pequena anjinha. Força, acima de tudo, coragem e supra a carência dela. Por mim largaria tudo aqui e iria até o Egito dar colo pra ela, mas não tenho essa condição no momento. Proteja-a de todo mal, acalente-a e faça com que todas as aflições, tornem-se pequenas partículas de esperança. Meu querido Luiz, ilumine o caminho do seu grande xodó, esteja com ela, mesmo que não seja fisicamente…”

   Lucas estava tentando comunicar-se com seu pai, quando Marcelo entrou na sala da diretoria. Ele parecia tenso.

   - Bater na porta de vez em quando é bom. (Lucas ironizou)
   - Me desculpa, mas preciso conversar com você. (Marcelo)
   - É pra falar mal de alguma garota que você não gosta? (Lucas)
   - Preciso falar seriamente, tem que ser agora. (Marcelo)
   - Ok, então pode começar. (Lucas disse cruzando os braços)

   - Aquilo que me disse à hora que saiu da sala de reuniões é sério? (Marcelo perguntou aflito)
   - Claro que é sério, não brincaria com uma coisa dessas. (Lucas)
   - E a Yasmin vai voltar a trabalhar? (Marcelo)
   - De verdade eu não sei. Mas eu no seu lugar iria agora correr atrás do prejuízo, pois se ela não voltar, sinto muito. (Lucas)
   - Mas isso não pode acontecer, eu preciso desse emprego. (Marcelo)
   - Pensasse antes de fazer qualquer coisa. (Lucas)
   - Por que não acredita em mim? Todas as provas estão contra ela. (Marcelo)
   - Aquilo não é suficiente pra incriminar alguém, fora que acredito na Yasmin, pois ela é sincera, dá pra ver só no olhar dela. (Lucas)
   - É impressionante como ela consegue dominar as pessoas… (Marcelo)
   - Se veio aqui pra falar dela, por favor, peço que se retire e vá direto ao RH. (Lucas)
   - Não, por favor, te peço. (Marcelo)
   - Então pare de falar sobre isso, acabou. Acreditei na Yasmin e assunto encerrado. Não sei o que acontece entre vocês com relação a todo esse ódio, mas nem quero me meter, apenas me meto quando envolve o profissional, do contrário, problema de vocês. Outra coisa, reze pra que meu pai salve tua pele, senão, é bom arrumar suas coisas e chispar daqui. (Lucas afirmou sério)

   “É impressionante como ela consegue manipular a todos, parece uma feiticeira, ou talvez, uma hipnotizadora. Ela tem a todos na mão e pelo jeito esse é mais um imbecil desses. Mas comigo a história é bem diferente, antes dela me manipular eu a manipulo, mas essa história não vai ficar por isso mesmo. Terei que engoli-la aqui pra manter meu emprego, mas esse jogo vai se reverter e mais uma vez serei o vitorioso. Isso eu garanto…”
A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Dois.

   Yasmin entrou em seu apartamento e jogou a mochila na sala. Foi tirando o tênis pelo corredor e, a blusa jogou em qualquer canto. Atirou-se na cama, encostando a cabeça no travesseiro gelado. Não sabia em que pensava mais. Se nas invenções e barbaridades de Marcelo, ou no abraço…

   “Minha cabeça está parecendo um furacão, mil informações que estão em conflito com uma tempestade de pensamentos. Não sei o que pensar, como agir, ir amanhã ou não… Sei que esse é o meu sustento no Egito, por mais que queira voltar pro Brasil, sei que não é esse o momento e se sair do hotel, terei que voltar pro meu país. É difícil um emprego como o meu, consigo tirar um bom dinheiro e ainda dançando, algo que amo. Mas agüentar as humilhações do Marcelo é muito difícil, incomoda demais. Mas aquele pedido, aquele jeito de pedir me deixaram em cima do muro, não sei o que fazer. Nessas horas que eu sinto a falta da presença da minha mãe, meu pai me defendia e minha mãe, sempre foi minha conselheira.”

   Yasmin engoliu o choro, enquanto discava o número do Brasil. Toda vez que falava com sua mãe, as emoções afloravam em proporções gigantescas e a deixavam ainda mais emotiva.
Ainda mais depois do turbulento dia que ela havia passado.

   - Umm? (Yasmin sussurrou com a voz embargada)
   - Minha querida… (Regina disse emocionada)

  “Ala, traz minha mãe pra perto de mim…”

   - Umm, n-não agüento mais f-ficar sem a senhora… (Yasmin murmurou voltando a chorar)
   - O que aconteceu minha querida? (Regina)
   - E-eu preciso da minha f-família, de um p-pouquinho de carinho… (Yasmin)

A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta e Um.

   Lucas saiu da sala e esfregou as mãos no rosto, estava um pouco assustado com a reação de seu organismo perante o abraço. Suas pernas bambearam, seu coração acelerou, sentiu uma geleira no estômago e o ponto de interrogação em sua mente. Mas apesar de tudo isso, acabou sorrindo. Havia sido bom…

   Andou pelos corredores a procura de Taylor. Não sabia qual atitude tomar perante a Marcelo.
Acreditava em Yasmin, mas não conseguia entender o por quê do nome dela estar entre os hóspedes.

   - Até que enfim te encontrei. (Lucas disse assim que viu Taylor sentado no restaurante, mexendo em seu notebook)
   - Também estava te procurando, e aí, como foi com a Min? Conseguiu falar com ela? (Taylor)
   - Consegui. (Lucas afirmou sentando na frente dele)
   - E aí? O que ela falou? (Taylor)
   - Bem, ela queria pedir de demissão, mas eu falei algumas coisas pra que ela ficasse e tal. (Lucas)
   - Mas ela aceitou ficar? (Taylor)
   - Falei pra ela ir pra casa hoje, refrescar a cabeça e vir amanhã, tenho certeza que ela virá. (Lucas)
   - Será? (Taylor)
   - Eu tenho certeza, apesar dela estar magoada, cansada de humilhações que ela não me detalhou, ela é bastante responsável. (Lucas)
   - Mas ela disse mais alguma coisa? (Taylor)
   - Só me agradeceu e… (Lucas)
   - E? (Taylor)
   - Nada, era só isso mesmo. (Lucas desconversou)
   - Ah sim… (Taylor disse não acreditando muito)
   - Agora eu não sei o que fazer com o Marcelo. (Lucas confessou)

  - É bastante complicado. Eu suspeito de que ele esteja envolvido com essa história de prostituição, mas não temos como provar apenas com suposições. E fora que, apesar dele ser do jeito que é, é super competente na gerência. (Taylor)
   - Mas não é por causa disso que tem o direito de humilhar quem ele quiser, as coisas não são assim. (Lucas)
   - Você tem razão, mas para substituí-lo, precisamos de alguém que seja tanto ou mais qualificado que ele e no momento isso é quase impossível. (Taylor)
   - Mas dessa maneira, ele vai achar que o hotel só funciona por causa do trabalho dele. (Lucas)
   - Então o mude de cargo ou rebaixe-o. (Taylor)
   - Vou primeiro conversar com meu pai, também não posso tomar qualquer atitude sem avisá-lo. (Lucas)
   - Isso sim, seu pai conhece o Marcelo e talvez saiba algo sobre ele, não sei. (Taylor)
   - Vou explicar toda a situação, mas te falo já, não fui com a cara dele. Sujeito petulante demais, fora que usou palavras muito ofensivas com a Yasmin. (Lucas)
   - Realmente, ele destratou muito a Min, ela não merece. (Taylor)
   - Com certeza não merece, ela é tão doce e frágil, tão meiga… (Lucas)
   - Moura, cuidado pra não cair de quatro por ela. (Taylor disse entre risos)
   - Nem comece, por favor. (Lucas)

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Cento e Cinquenta.

   Como explicar algo que nem mesmo possamos entender. Como decifrar ou como saber ao menos quando ele começa. Quais são suas características e como evitá-lo. Quais as faces do amor e o que fazer, quando ele bater em nossas portas?

   Yasmin engoliu em seco, olhares e palavras que vinham dele e que a faziam perder o rumo. Perder o chão. Ele tinha o dom e o jeito certo para desconcertá-la, deixá-la ainda mais tímida frente a um elogio tão sincero, a uma declaração…

   - Yasmin, você é uma peça importante aqui, fora que é um emprego e se está aqui é porque precisa. Não se sacrifique por uma injustiça. (Lucas)
   - N-não quero ficar, é difícil… (Yasmin murmurou limpando os olhos)
   - Vamos fazer o seguinte, vai embora agora pra sua casa, refresca a cabeça e pensa com carinho. Nem precisa voltar hoje, mas volte amanhã. Vou estar te esperando, inclusive vai ser anunciado a sua dança, eu confio em você e sei que não vai me deixar na mão. (Lucas afirmou sorrindo e levantando-se)

   Ele sorriu mais uma vez e preparou-se para sair do camarim…

   - E-espera. (Yasmin sussurrou levantando-se do sofá)
   - Sim? (Lucas perguntou virando-se pra ela)

   Yasmin havia sentindo-se bastante amparada com as poucas, mas profundas palavras dele.
E o que mais queria, era agradecê-lo, mas no impulso, acabou abraçando-o.

   - Shokran, shokran h’abibe. (Yasmin sussurrou abraçando-o pela cintura, atitude que deixou Lucas sem ação)


   “Não sei por qual razão, sentimento ou o que for… Simplesmente senti vontade, e fiz o que estava querendo fazer. Se fui atrevida? Talvez, mas não interessa, não importa. Quis abraçá-lo e pronto, agüentarei as conseqüências, não tem problema. O que interessa é que em apenas um abraço, consegui suprir um pouco da carência que anda me afetando ultimamente.”

   Lucas respirou fundo ao mesmo tempo em que fechou os olhos. A essência de sândalo mesclada com a suavidade do aroma de rosas brancas, que vinham das longas madeixas dela, o enlouquecia. Um cheiro que já parecia fazer parte dela, era característico. Era único.

   
“Se eu quisesse descrever esse momento, com certeza iria gaguejar. Mal sinto minhas pernas, de verdade, estou com medo da onde isso tudo possa chegar…”


   - Está me agradecendo? (Lucas perguntou entre sussurros ao mesmo tempo em que tocava em uma mecha dos cabelos dela)
   - S-sim… (Yasmin murmurou com a cabeça encostada no peito dele)
   - Não precisa agradecer, você faz por merecer essa confiança e esse respeito. (Lucas)

   Yasmin sorriu e saiu do abraço com as bochechas coradas, havia caído em si de sua atitude. Mas ao mesmo tempo, não estava nem um pouco arrependida.

   - Agora tenho que ir, mas já sabe… Estarei te esperando. (Lucas disse sorrindo e beijando a bochecha direita dela, proporcionando ainda mais timidez nela)

A Dança dos Sete Véus
Cento e Quarenta e Nove.

   Yasmin sentia como as lágrimas desciam queimando por suas bochechas. Aquela situação havia sido humilhante demais. Antes de sentir ódio por Marcelo, sentia-se envergonhada por ter que escutar uma barbaridade daquelas e ainda ter que provar que tudo não passava de uma mentira. Entrou feito um furacão no camarim das Odaliscas, pegou sua mochila de qualquer jeito. Queria sair dali rapidamente! Nem sabia como iria se sustentar, mas ali não passava mais um segundo. Não agüentava mais as constantes humilhações de Marcelo, sua paciência já havia ultrapassado todos os limites. Mas seu sentimentalismo, a fez sentar-se no sofá e continuar no choro sentido de uma menina sonhadora, que aos poucos percebeu que a vida não é um conto de fadas.

   “São nessas horas que vejo o quanto os seres humanos estão decaídos, como a mentira reina sobre todas as pessoas e como o ódio transforma pequenos milagres, em terríveis assombrações. Nunca havia sido tão humilhada, apenas com meu tio, mas isso parece ter superado qualquer coisa. Prostituta, eu? Nunca na minha vida provei de uma relação sexual, que dirá me vender por isso. Eu gostaria apenas de saber o que fiz pra ele, qual motivo pra tanta raiva, eu só queria fazer meu trabalho e me sustentar com isso, fazer o que amo que é dançar e não querer criar inimizades. E agora sinto mais falta daquele que em qualquer situação me defendia, que sempre estava do meu lado em todos os momentos. Queria entender por que Ala o tirou de mim… Aonde está meu ab pra me salvar? Cadê meu herói?”

   Lucas mais uma vez parou e encostou-se no batente da porta. Mas dessa vez não era pra vê-la dançar e sim pra tentar consolá-la. Consolá-la?

   
“Me sinto como uma leve pena perdida por entre o oceano, me sinto um nada ao vê-la chorar dessa maneira. Odeio ver qualquer mulher chorando, ainda mais quando se trata de uma injustiça. Claro que é injustiça, sei que ela não tem culpa de nada, agora está mais do que provado pra mim. Ela é inocente! Sei que é, o belo e enigmático olhar dela, me diz isso. Me sinto um lixo em vê-la assim, juro por Deus…”


   - Posso entrar? (Lucas perguntou)

   Yasmin levantou a cabeça com os grandes olhos castanhos arregalados e molhados de lágrimas, no mesmo instante ela tentou limpá-los, mas não adiantava. Ele já havia visto que ela chorava.

   - P-pode. (Yasmin respondeu com a voz embargada e mexendo em sua bolsa, estava envergonhada)

   Lucas sentou-se ao lado dela no sofá, estralou alguns dedos depois de um suspiro. Não sabia o que dizer…

   - Com q-quem posso falar s-sobre minha d-demissão? (Yasmin perguntou com voz de choro)
   - Com ninguém, não vai pedir demissão. (Lucas)
   - E-eu já pedi. (Yasmin)
  - Mas eu não aceito, não é assim que as coisas funcionam Yasmin. Não pode fugir dos problemas. (Lucas)
   - Fugir d-dos problemas? É f-fugir de humilhações, n-não agüento mais e-essa situação… (Yasmin sussurrou voltando a chorar)

   - Yasmin não chore, por favor, não gosto de ver isso… (Lucas sussurrou sincero e mirando profundamente a íris dos olhos de Yasmin)

   Yasmin engoliu em seco ao mesmo tempo em que sentiu a respiração falhar. Apenas um olhar profundo de Lucas e, ela já perdia a sensibilidade no corpo. Com Lucas, o aceleramento cardíaco já se fazia presente desde o momento que a viu pela primeira vez. Ela mexia de alguma maneira com ele.

   - O que ele te faz? (Lucas)
   - E-ele não gosta de m-mim e fala algumas c-coisas, mas deixe pra l-lá. (Yasmin)
   - Yasmin, pode confiar em mim, fale o que te aflige… (Lucas)
   - N-não, deixa tudo isso p-pra lá. Eu s-saio e ele continua. (Yasmin)
   - Não vai sair, não quero isso. (Lucas)
   - E-eu saio por d-dignidade, eu não s-sou prostituta, nunca fiz n-nada disso. (Yasmin sussurrou chorando)
   - Eu acredito em você, sinto que é uma garota decente e íntegra. E acima de tudo especial… (Lucas disse passando o polegar abaixo dos olhos de Yasmin, impedindo que algumas lágrimas caíssem)

   Yasmin fechou os olhos sentindo aquele toque. E em seu estômago, uma geladeira já residia.

   - Não podemos ficar sem a melhor Odalisca, o seu encanto em dançar perfeitamente a Dança do Ventre já faz parte desse hotel, você consegue transmitir uma beleza sensual, mas ao mesmo tempo enigmática, misteriosa. Escuto elogios de você desde o momento que cheguei aqui e concordo com todos, você é linda e uma ótima funcionária. Te conheço há alguns dias, mas algo me diz que você não está envolvida em nada que esse Marcelo disse. Yasmin, eu sinto que você não é apenas mais uma aqui dentro, você é a soma de uma união. Não posso permitir que percamos uma jóia tão rara. (Lucas confessou sentindo a garganta secar)
A Dança dos Sete Véus
Cento e Quarenta e Oito.

   - Disse a verdade, que você é uma prostituta. (Marcelo)

   A forte palavra de Marcelo provocou uma grande irritação em Lucas. Mas ele permaneceu quieto, queria ver a reação dela.

   - Eu juro que não escutei o que você disse. Juro. (Yasmin sussurrou fechando os olhos tentando conter o ódio que começava a surgir em seu peito)
   - Preciso repetir então, você faz parte do grupo de meninas que se prostitui, aliás, é uma das poucas. (Marcelo)
   - V-você é maluco. (Yasmin gaguejou)
   - Não, sou verdadeiro. (Marcelo)
   - C-como você pode ser tão mentiroso, t-tão… T-tão desgraçado? (Yasmin disse segurando-se ao máximo)
   - Não sou mentiroso, fora que nesses papéis deixam claro que seu nome está em diversos dias como hóspede, ou seja, pra encontrar com seus clientes. (Marcelo afirmou colocando na mesa os relatórios de hospedagem)

   Yasmin pegou os papéis e era visível como suas mãos estavam trêmulas. A garganta estava seca e ela não sabia o que dizer. Como seu nome havia surgido ali? Nunca nem sonhou em se hospedar no hotel, sabia o quanto era caro. E prostituição? Por Deus, ela nem havia tido uma relação sexual em sua vida. Parecia mentira, aquilo não era realidade. Era um sonho, aliás, um pesadelo.

   - E-eu não sei… (Yasmin sussurrou sem saber o que falar)
   - Viram? Quem cala consente. (Marcelo debochou)

   Foi nesse exato momento que Yasmin explodiu, levantou-se da cadeira a fim de encher a cara dele de tapas.

   - V-você é um louco, desgraçado. (Yasmin disse em meio ao ódio que sentia e tentando andar até ele, mas no caminho Lucas a segurou)

   - Se acalma. (Lucas disse impedindo-a de ir pra cima de Marcelo)
   - Ela é assim mesmo, se acha a toda poderosa, que pode bater em quem quiser. (Marcelo)
   - V-você é mentiroso, s-sempre me induziu a prostituição, m-mas eu sempre neguei. E-eu nunca quis e n-nunca fui pra cama com ninguém p-por causa de dinheiro, e-eu não sou prostituta e n-não preciso provar isso pra ninguém, m-minha consciência sabe d-disso. (Yasmin gaguejou tentando segurar o choro que estava entalado em sua garganta, Lucas continuava segurando-a)
   - Nunca te induzi a nada, você sempre fez isso, desde que entrou aqui. Tenho certeza que seu pai morreu de desgosto, por ter uma filha vagabunda. (Marcelo)
   - Hei, olha a maneira de falar, abaixe seu tom. (Taylor exclamou irritado)
   - Pare de falar dessa maneira, contenha suas palavras. (Lucas)
  - Não t-toque nunca mais no n-nome do meu pai, s-seu animal. (Yasmin sussurrou não conseguindo segurar as lágrimas que invadiam seus olhos)
   - Não quer que eu toque por que? Arrependimento? (Marcelo)

   Yasmin não conseguia responder nada. Voltou a sentar na cadeira e soltou um soluço, desabando em lágrimas. Lucas sentiu o coração apertar, odiava ver uma mulher chorando.

   - Sai daqui. (Lucas)
   - Não, essa reunião ainda não acabou, não falei nem metade do que ela merece escutar. (Marcelo)
   - Escute o que ele disse, sai. (Taylor)
   - N-não, quem vai sair d-daqui sou eu. E-eu não preciso disso, a pior coisa que p-poderia ter acontecido c-comigo já a-aconteceu. Eu n-não suporto mais a h-humilhação q-que ele me faz passar. E-eu quero ir embora daqui, a-agora. Já. (Yasmin afirmou chorando e saindo da sala desnorteada)

   Lucas respirou fundo, sentindo uma forte raiva o consumir por dentro. Queria enfiar um soco na cara de Marcelo.

   - Fica esperto, senão te jogo pra fora desse hotel. Vou atrás dela e se ela não quiser continuar trabalhando aqui, considere-se demitido! (Lucas exclamou irritado indo atrás de Yasmin)
A Dança dos Sete Véus
Cento e Quarenta e Sete.

   - Yasmin, teria como você me acompanhar? (Lucas perguntou)
   - Te acompanhar pra onde? (Yasmin perguntou confusa)
   - Até a sala de reuniões, preciso conversar com você. (Lucas)
   - Ta bom. (Yasmin respondeu)

   Ela estava de fato confusa, não entendendo o por quê daquilo, mas Lucas era seu chefe, bom, praticamente seu chefe e teria que obedecê-lo, mas estava muito temerosa. Uma angústia estranha havia surgido em seu peito do nada. A intenção de Lucas era conversar apenas com ela. Apesar de ter combinado outra coisa, ele havia decidido que a conversa seria somente entre os dois, mas ao entrar na sala de reuniões, Taylor e Marcelo estavam lá e pareciam estar esperando-os. Conclusão, teria que conversar com Yasmin na presença de Marcelo e Taylor.

   Yasmin havia colocado um moletom justo por cima do top, e como era com zíper, ainda era possível ver parte de seu decote e de sua barriga. Marcelo praticamente a engoliu com o olhar, e Lucas percebeu isso na hora. Algo que sem ele perceber, o tirou do sério. E Yasmin, sentiu-se invadida com aquele olhar que era um misto de raiva e desejo.

   - O que aconteceu, que conversa é essa? (Yasmin perguntou assustada e virando seu olhar pra Lucas)
   - Apenas irei confirmar certas coisas, fique calma. (Lucas disse num tom suave que de certa forma, tranqüilizou-a)
   - Oi Min, está tudo bem? (Taylor a cumprimentou sorrindo e Marcelo, apesar de medi-la de cima abaixo, não dirigiu uma palavra sequer a ela)

   - Está sim. (Yasmin respondeu tensa)
   - Pode sentar-se Yasmin. (Lucas afirmou puxando a cadeira pra ela)
   - Obrigada. (Yasmin)

   Marcelo deu um sorrisinho irônico pra ela, Yasmin permaneceu séria. Não estava entendendo nada, estava completamente confusa e temerosa. Seu peito parecia explodir de tensão e suas mãos, começavam a suar de nervoso. Isso porque ela nem sabia do que se tratava.

   - Bom Yasmin, te chamamos aqui porque está acontecendo um sério problema no hotel e acho que o Marcelo é a pessoa indicada pra dizer do que se trata. (Lucas disse olhando para Marcelo que engoliu em seco)
   - Pode começar, Marcelo. (Taylor)
  - Bom, o problema que está acontecendo no hotel é sobre prostituição. E isso não é permitido aqui, claro que tentei impedir, mas infelizmente não consegui… (Marcelo)

   Yasmin escutou atentamente as palavras de Marcelo e olhou-o incrédula. Como ele poderia ser tão mentiroso?

   - Vá direto ao ponto. (Lucas afirmou categoricamente)
   - E bem, o Lucas pediu os nomes das Odaliscas que estão envolvidas com isso, sinto muito, mas tive que dizer a verdade Yasmin Rosa, você é uma das envolvidas com isso. (Marcelo afirmou esboçando um sorriso quase inexistente nos lábios)

   Yasmin levou um choque com o que ele havia dito, parecia não entender.

   - Você disse o que? (Yasmin perguntou incrédula)