quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Cento e Sessenta e Sete.

   Yasmin correu para o camarim. Precisava urgentemente assuar o nariz devido aos constantes espirros. Trocou-se rapidamente, por sorte tinha uma roupa seca na mochila. Correu o máximo que pôde para que a chuva não voltasse a cair, mas era tarde demais. Quando chegou à portaria, a tempestade há havia voltado. Suspirou frustrada. Ia dar um passo, quando foi segurada pelo braço.

   - Espera! (Lucas)

   Yasmin olhou pra ele com os olhos arregalados. Havia tomado um susto.

   - Desculpa, te assustei. (Lucas)
   - Sem problemas. (Yasmin)
   - Não vai embora debaixo dessa chuva, vou pegar o carro do hotel e te levar. (Lucas ofereceu-se)
   - Não precisa… (Yasmin)
   - Precisa sim. (Lucas)
   - Eu poderia continua dizendo não por teimosia, mas aceito. Não estou afim de pegar outra chuva. (Yasmin afirmou sorrindo)
   - Então vamos. (Lucas)


   Lucas, como bom cavalheiro, abriu a porta pra ela que entrou em silêncio dentro do carro.
Deu a volta e entrou, fechou a porta e ligou o carro.

   - Bem, vai ter que me ajudar mostrando o caminho, não lembro bem aonde é. (Lucas)
   - Ok, você vira na primeira direita e depois a segunda esquerda, vai ter a avenida principal, pode segui-la até eu avisar quando deve virar. (Yasmin)
   - Ok. (Lucas afirmou dando partida)

   Como o hotel era na parte do Cairo divisa com Luxor, rapidamente estacionou na frente do condomínio que ela morava.

   - Entregue. (Lucas afirmou sorrindo)
   - Bem, está convidado a subir e tomar alguma coisa, sei lá… (Yasmin falou o que sentia vontade e sentiu suas bochechas queimarem de vergonha)

   Lucas sentiu-se surpreso, mas sorriu ao perceber que ela estava envergonhada.

   - Eu poderia dizer que não por teimosia, mas aceito. (Lucas respondeu rindo)

   Yasmin riu e seu coração acelerou. Por Deus, havia convidado um homem pra entrar em sua casa? Ela era uma ovelha negra na religião islâmica, definitivamente. Quando entraram no elevador, Yasmin automaticamente mexeu nos cabelos olhando pro espelho e Lucas a observava disfarçadamente. Chegaram ao andar e Yasmin pegou em sua mochila o chaveiro.
Destrancou a porta e virou-se sorrindo.

   - Não é nenhum castelo de luxo, mas é agradável. Pode entrar e seja bem vindo. (Yasmin afirmou sorrindo e abrindo a porta pra ele entrar)
   - Com licença. (Lucas afirmou limpando os pés no tapete da porta e em seguida adentrou no apartamento)

   Yasmin acendeu as luzes e Lucas pôde perceber o quanto o lugar era bonito. Pequeno, mas a decoração era encantadora.

   - Pode ficar a vontade, quer beber alguma coisa? Chá, café, refrigerante, água? Bem, só não costumo ter bebidas alcoólicas. (Yasmin)
   - Pode ser uma água. (Lucas)
   - Já volto. (Yasmin afirmou sorrindo)

   Lucas sentou-se no sofá e observou cada detalhe dos porta-retratos que Yasmin tinha em uma mesinha. Pegou um nas mãos. Yasmin chegou nesse instante com um copo de água, também trazia um refratário repleto de biscoitos.

   - É a sua família? (Lucas perguntou)
   - Sim. (Yasmin respondeu entregando o copo de água e colocando na mesa de centro os biscoitos)
   - Obrigado. É sua irmã? Caramba, são muito parecidas. (Lucas)
   - É sim. (Yasmin respondeu sorrindo e sentando-se ao lado dele)
   - Vocês não parecem ser muçulmanos, quer dizer, os muçulmanos são mais conservadores. (Lucas)
   - Minha família nunca foi radical, sempre vivemos normalmente, claro que seguindo algumas coisas do Alcorão e rezando pra Ala. Mas sem fanatismo. (Yasmin)
   - Isso é interessante. Ele é seu pai, não é? (Lucas)
   - Sim. (Yasmin respondeu suspirando)
   - Não gosta de falar sobre isso? (Lucas)
   - Sem problemas, falar de meu pai é maravilhoso. (Yasmin respondeu com o queixo tremendo)
   - Por que está aqui? Deveria estar em seu país, ao lado de sua família… (Lucas afirmou não contendo a vontade de tocá-la no rosto)
   - E-eu queria, mas não é possível no m-momento… (Yasmin sussurrou fechando os olhos)

   Lucas engoliu em seco, não poderia mais suportar aquela vontade que tomava conta de seu ser. Estava enfeitiçado.

   - Você me hipnotiza. (Lucas afirmou entre sussurros)

   Yasmin abriu os olhos nesse instante e sentiu uma explosão de sentimentos dentro de si quando ele curvou-se em sua direção. As respirações se chocaram e os lábios encostaram-se como imãs.

   “Eu não suportaria olhar aqueles lábios vermelhos e trêmulos me convidando para aprofundar-se entre seu gosto e não seguir nessa direção. Tentar segurar a vontade de algo que não dá mais pra passar batido. Eu preciso provar de seu gosto, sentir a essência de sua saliva, a maciez da pele de seus lábios. Eu preciso de uma vez por todas, de um beijo dela…”


   Quando Lucas encostou os lábios nos de Yasmin, ela sentiu a paralisação momentânea de todas as células de seu corpo. Mal conseguia mover-se. Mas a vontade de corresponder àquele carinho foi maior do que sua trava. Lucas lentamente roçou apenas os lábios, sentindo a maciez e a textura da pele de Yasmin. O cheiro de sândalo ia invadindo as narinas dele, o deixando num estado de inquietação. E nesse ritmo, não pôde se contentar com aquele roçar que suas bocas executavam, precisava aprofundar e sentir de fato o que ela podia lhe proporcionar com apenas um beijo. Lucas brincou esfregando o nariz no dela e sorriu entre o beijo, abrindo com carinho os lábios dela e tendo o espaço necessário para que houvesse o contato entre suas línguas. Segurou o rosto dela com carinho, e suspirou quando sentiu que ela tocava em sua nuca, o acariciando e envolvendo-se com o gosto de hortelã que vinha de seu hálito. Não podiam mais parar, aquele beijo era envolvente o suficiente para fazer com que eles esquecessem que do lado de fora, existia um mundo.

   Lucas Rodrigues Moura da Silva, filho do empresário Jorge Rodrigues, anuncia casamento com a socialite Bruna Unzueta. Os pombinhos também comemoram a chegada do primeiro filho.

   Yasmin sentiu a força do flashback em sua cabeça, recordando-se que estava beijando um homem casado e que seria pai. Mas o gosto de seus lábios, aquele roçar que estava deixando-a maluca, atrapalhando o procedimento certo para seu pulmão fazê-la respirar. Mas ao poucos se recordou dos preceitos sagrados de sua religião e das palavras de seu pai…

   - Envolver-se com alguém compromissado não é o bem, não por estar escrito no Alcorão, mas porque enquanto você desfruta do prazer, alguém está derramando lágrimas de sangue. Não seja feliz usufruindo a tristeza alheia, por mais que essa pessoa mereça. (Luiz)

   E pra Yasmin, as palavras de Luiz eram tão ou mais importantes que as de Maomé. Separou-se de Lucas e levantou-se do sofá ofegante e com os olhos arregalados.Seu gloss estava borrado e ela não sabia o que falar, o que fazer, como agir. Queria cavar um buraco e enfiar-se dentro. Deus, que beijo era aquele? Piorou, sentiu como suas bochechas queimavam devido a esse pensamento. Mas não tinha como fugir dessa sensação, nunca havia provado um beijo tão delicioso.

   - Y-yasmin… (Lucas sussurrou atônito, limpando o canto de seus lábios)
  - I-isso não podia… Não p-podia ter acontecido. V-você é casado. (Yasmin sussurrou respirando fundo, sem olhar pra ele)

   Lucas olhou-a entre respirações aceleradas. Ela sabia sobre seu casamento?

   - E-eu sou casado. (Lucas falou respirando fundo)
   - S-sim, eu sei… (Yasmin)
   - E não estou nem aí. (Lucas afirmou levantando-se e indo na direção dela)

   Yasmin arregalou os olhos quando sentiu que ele a puxava pela cintura. E quando deu por si, estava beijando-o novamente. Não conseguia controlar-se, era inevitável… Não resistia. Estava entre a razão e o coração… Coração? Yasmin o empurrou andando para o outro lado.
Não conseguia raciocinar nada…

   - V-você é meu patrão, c-casado, sei que vai ser p-pai… Não, isso n-não pode. (Yasmin sussurrou balançando a cabeça)
   - Sabe que eu sou casado e que vou ser pai? Quem te contou? (Lucas perguntou)

   Yasmin ruborizou ainda mais. Não sabia o que responder.

   - Hein Yasmin? (Lucas repetiu)
   - T-trabalho no lugar em que v-você é dono, como n-não iria saber… (Yasmin respondeu qualquer coisa)
   - Eu posso ser casado, mas beijei porque quis e quer saber, tenho um casamento de aparências, não a suporto e é isso. Pronto. Satisfeita? (Lucas soltou)

   Yasmin ficou olhando-o sem entender. Pasma.

   - Ah tem mais, ela ficou grávida somente pra me encurralar na parede e ser obrigado a casar com ela, entendeu não é? (Lucas)

   “Queria nesse exato minuto, cavar um buraco e me jogar de cabeça. Ficar lá até o dia que eu souber que Lucas Moura é uma pessoa que não existe… Nem sei mais o que é vergonha… Ele não gosta da mulher dele?”

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