sábado, 22 de setembro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Trezentos

   E o sorriso mais lindo do mundo ele encontrou quando abriu a porta de vidro do box. Somente aquilo fez com que seu coração acelerasse de uma maneira que, a falta de ar era inevitável e as pernas bambas mal o sustentavam de pé. Algo que ele sempre temeu, mas que ele já sentia tomar conta de seu coração, mesmo que não fosse extravasado pela boca, ele sabia que era amor. O início do amor.

   “Certas vezes me pergunto se eu deveria ter me deixado levar por essa relação, pois depois de uma relação conturbada como foi a minha com a Bruna, talvez eu devesse ter agido precipitadamente ao me entregar dessa maneira. Mas coração é assim, não escolhe lugar, data, hora e nem a pessoa… É algo que acontece quando você menos espera, mas sempre quando você necessita. É algo que completa, que encaixa… Cientificamente falando, como o negativo e o positivo que une de maneira magnética as extremidades de um imã… Biologicamente falando, como o cordão umbilical que une o feto com a mãe… Geograficamente falando, como os continentes que mesmo separados por milhões de quilômetros, se fossem aproximados, se encaixariam perfeitamente, como um quebra-cabeça. Palavra chave… Quebra-cabeça. Talvez o amor seja assim, você vai unindo peça a peça, até que no final ele esteja completo. Pelo caminho encontramos peças que não se encaixam. Ou até mesmo, as perdemos, mas sempre se dá um jeito, mesmo que fique faltando algo, ele está ali formado, dando as caras e te fazendo sorrir por apenas formar algo que na maioria das vezes é abstrato. Simples, mas necessário. É isso que ela me faz, me completa!”


   E foi nesse encaixe perfeito, que pensamentos foram aflorados em questão de segundos, como se agora não mais pudessem seguir adiante sozinhos. Era a dependência que dava seus primeiros passos entre os dois. O medo que atormentava a cabeça de ambos… Um oceano os separava, cultura e religiões diferentes, o preconceito… Um casamento que mesmo acabado, ainda tinha um fruto. Tantas coisas passavam pela mente, mas conseguiam ser esquecidas no momento por poderem sentir a pele alheia escorrendo de suor, devido ao prazer que os unia uma vez mais. Às sensações de proteção e o delicioso gosto de beijos que davam o toque inicial e o toque final a que se pode dizer prazer mútuo… Compartilhado. O ato de se entregar sem pensar. Yasmin parecia estar mais mole nos braços de Lucas, que teve que auxilia-la a sair do box, se enxugar e se vestir. A bebida talvez não tivesse sido a melhor opção. A pegou no colo de frente e sorriu quando ela deitou a cabeça na curvatura de seu pescoço. Como uma menininha, aliás, como sua menininha.

   - Ta tudo bem, bebê? (Lucas perguntou e ela apenas afirmou com a cabeça e continuou com a cabeça apoiada no pescoço dele)


   Ele a deitou na cama e percebeu que os olhos dela estavam repletos de lágrimas. Bem, o último estágio de embriaguez. O choro. Sorriu e acariciou a bochecha dela com carinho, e impediu que as lágrimas escorressem pela lateral de seu rosto.

   - Por que esse choro? (Lucas)
   - E-estou com vergonha… (Yasmin sussurrou com a voz embargada)
   - Vergonha do que? (Lucas)
   - De eu e-estar bêbada… Dando esse show todo, a-arrancando a roupa e me oferecendo. E-estou me sentindo u-uma vadia. (Yasmin sussurrou entre alguns soluços)
   - Ei, não fale besteiras e não precisa ter vergonha de mim. Não é porque você quis transar comigo que isso lhe transforme em uma qualquer, pelo contrário. Nós estamos juntos e não há mal nenhum nisso. (Lucas)
  - A-agora você vai ficar convencido e e-eu nem posso comparar c-com outros. (Yasmin brincou entre as lágrimas e sorriu ao terminar a frase)

   Lucas sorriu e mais uma vez acariciou com carinho o rosto dela.

   - Você já é tão importante, Yasmin. (Lucas)

   Ela engoliu em seco e sem pensar muito...

   - Eu to apaixonada por você! (Yasmin)


   Por mais que não seja um eu te amo, o estar apaixonada soa tão bem aos ouvidos de uma pessoa que está completamente envolvida com a outra. Yasmin não estava preparada pra declarar algo mais relacionado ao amor, mas a paixão já gritava forte dentro de seu coração e ela nem queria pensar que mais uma vez ele iria embora dali, tudo bem que em poucos dias ela estaria de férias no Brasil, mas um minuto já estava parecendo uma eternidade. Algo clichê talvez, mas o que realmente se sente. E pra Lucas tudo era recíproco.

   Na manhã seguinte, Yasmin cambaleou pelo quarto até chegar à varanda, onde Lucas estava sentado mexendo em seu notebook. Ela esfregou os olhos e fez um biquinho pra ele que sorriu e bateu as mãos nas coxas, chamando-a. Yasmin rapidamente se jogou no colo dele, deitando a cabeça em seu ombro esquerdo.

   - Bom dia! (Lucas)
   - Bom dia… (Yasmin sussurrou com a voz mais rouca que de costume)
   - Uma ressaca por aí? (Lucas)
  - Acho que um pouco pior. Parece que fui atropelada trinta vezes por um caminhão… (Yasmin)
   - Descansa hoje o dia todo que vai melhorar isso, e a noite voltamos pro Cairo. (Lucas)

   Yasmin apenas suspirou pausadamente. Voltar ao Cairo significava voltar à rotina e logo depois, vê-lo voltar ao Brasil.



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Nove

   - Por que diz isso? (Lucas perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)
   - Sei lá, quis falar. (Yasmin respondeu sorrindo mais do que o normal)

   Era fraca pra bebida e isso podia ser visto de longe. Quem a olhasse naquele estado, teria a plena certeza de que ela havia virado garrafas de Vodka, Vinho e outros destilados, mas foi pouco mais que três copos. Seu organismo não estava acostumado e um vacilo qualquer e ela já estaria em cima de uma mesa embriagada e tirando a roupa.

  - Minha cabeça ta rodando, bebê. (Yasmin resmungou andando pela areia num zig-zag característico de sua embriaguez)
   - Eu fui um imbecil te deixando beber… (Lucas sussurrou preocupado e aproximando-se dela)

   Sem rodeios, pegou-a no colo, a fazendo rir mais uma vez.

   - Hei… Você é o bebê, então eu que tenho que te pegar no colo. (Yasmin falou sorrindo e apertando o nariz dele)
   - Bebês são pequenos e acho que a única pequena aqui, é você. (Lucas)
  - Você pode ser bem grande no tamanho, mas também é pequeno. Meu pequeno. (Yasmin sussurrou com voz de bebê)


   Lucas sorriu e continuou andando pela areia com ela no colo, que vez ou outra brincava com o cabelo dele, fazia alguma graça ou soltava aquelas pérolas que tinha falado a noite toda, depois de ter ficado bêbada. Ao chegarem no hotel, por sorte Lucas conseguiu passar por desapercebido na recepção do hotel, Yasmin cantava baixinho algumas coisas que ele não conseguia entender, mas estava arrepiado por ser praticamente um sussurro em seus ouvidos. Ele abriu a porta do quarto e com uma delicadeza indescritível, ele deitou-a na cama e a beijou na testa.

  - Quer tomar um banho pra relaxar e curar essa embriaguez ou um café forte? (Lucas perguntou sentando na cama)
   - Quero você. (Yasmin)

  Ela falou de uma maneira tão sensual, que Lucas sentiu os pêlos de seu braço arrepiar-se em frações de segundos, fora o frio no estômago.

   - Min. (Lucas)
   - Luc. (Yasmin brincou sorrindo)
   - Confesso que nunca imaginei que ia te ver bêbada. (Lucas)
   - Eu não e-estou bêbada! (Yasmin)
   - Um pouquinho alegre? (Lucas)
   - Feliz. (Yasmin)
   - É? (Lucas)
   - Muito. (Yasmin)
   - Também estou. (Lucas afirmou tocando a bochecha dela com os dedos)


  Yasmin fechou os olhos, desfrutando daquela carícia e ao virar o rosto pro lado, deu um delicado beijinho na mão dele.

   - Você precisa descansar, porque talvez amanhã não acorde muito bem. (Lucas)
   - Eu vou acordar maravilhosamente bem. (Yasmin)
   - Vai? (Lucas)
   - Vou, porque terei uma noite maravilhosamente sensual. (Yasmin)

   Lucas engoliu em seco aquelas palavras e torcendo pra que ela não levantasse daquela cama ou coisa parecida… Mentira, ele desejou isso. Yasmin empurrou-o pelo peito e levantou-se da cama. Lucas virou o pescoço pra ver o que ela pretendia com aquelas palavras e respirou fundo ao vê-la erguer o vestido e deixar à mostra a calcinha. Em seguida ela o passou pela cabeça, ficando apenas de lingerie. Ele fechou os olhos pra tentar ao máximo respeita-la, pois não era do tipo que faria sexo com ela bêbada, já havia feito com outras mulheres embriagadas, mas Yasmin era diferente. E foi nisso que sentiu o vestido voar em sua cabeça e abriu o olho rapidamente. Ela sorria sensualmente, dando uma imagem de Lolita, algo que mexeu com os instintos masculinos dele.

   - Min, não faz isso… Por favor! (Lucas implorou)


   Mas Yasmin parecia estar impossível àquela noite e voou um sutiã, mais uma vez na cabeça dele. E claro que o sorriso sensual apareceu novamente num lindo desenho nos lábios dela. Lucas pediu a todos os santos que o fizessem controlar-se perante àquela cena, mas estava sendo tão difícil, fora que Yasmin dificultava demais tudo.

   - Vem e prova ... Este pedacinho de mim! (Yasmin cantarolou entrando no banheiro somente de calcinha)

   Maldição. Maldição. Maldição. Lucas xingou até a vigésima geração de Yasmin nesse momento, com certeza algum faraó havia sido chamado de desgraçado. Contou até dez pra tentar conter seu entusiasmo já crescente e teve a conclusão que muçulmanas são piores do que as mulheres de outras religiões, sensualmente falando, pois elas se escondem por debaixo dos panos, no caso de Yasmin, por debaixo dos véus.

   - Vem e toma ... Uma provadinha de mim! (Yasmin cantarolou uma vez mais, num tom um pouco mais alto pra que ele pudesse escutar)

   E o barulho de chuveiro sendo ligado, ecoou no quarto. Não há ser humano que agüente.

   - Ok, não tenho sangue de barata. Desisto! Nunca fui forte mesmo, sou fraco assumido! (Lucas exclamou levantando-se da cama e andando apressadamente até ao banheiro)

   Pelo caminho, as roupas dele foram voando pelos ares.



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Oito


   “Um dia ouvi um sábio ditado que falava: "Não há mal que não se acabe e não há bem que se perdure". É como se eu pudesse refletir que nada anda constantemente, nunca sabemos o que será do hoje, do amanhã. Mas sabemos que um dia acaba, tudo! E eu consigo sentir que a energia pesada ronda e se um fraquejar durante o caminho, o outro acaba fraquejando junto. Se eu tenho força, você também terá! Se eu não tenho, você também não terá! É um imã que encaixa o positivo e o negativo, mas que se solta caso os lados se modifiquem. O elo se desfaz e apenas a força de vontade e uma grande dose de amor podem conseguir reconstruí-lo. Eu temo…”





   A noite Yasmin e Lucas estavam andando pela região do hotel. Como tradição de uma cidade praiana, tinha quiosques que vendiam alguns quitutes e bebida alcoólica, afinal ali era um ponto turístico do Egito e apesar das tradições serem contrárias ao uso do álcool, eles tinham que respeitar a cultura dos milhares de estrangeiros que por ali passavam. Yasmin, que há tempos não desfrutava de uma bebida, acabou optando por tomar uns drinks, coisa que começou a deixá-la alegre demais.

   - Sabe, há um tempão que eu não bebia nada. Tequila então, nunca mais na minha vida. (Yasmin afirmou num tom um pouco mais alto e rindo ao terminar a frase)
   - Não é bom parar então? (Lucas)
   - Não. Deixa eu tomar? Sabe, de vez em quando é bom parar de ser a santa que não bebe, não se droga e não fo… (Yasmin antes de terminar a frase, caiu na gargalhada)
   - Yasmin. (Lucas falou sorrindo)
   - Apesar que eu não posso ser santa, porque santos fazem parte da igreja católica e eu sou muçulmana. Tudo bem que eu uso decote e que às vezes minha calcinha aparece quando eu uso mini saia, mas eu sou Odalisca ora. E Odaliscas são indecentes. Você sabe o que uma Odalisca faz não é? (Yasmin)
   - Dançam? (Lucas)
   - Não. As Odaliscas na verdade… (chamando-o perto e rindo) Elas são putas. (gargalhando)

   Lucas não conseguiu segurar a risada, pois em dois minutos de bebida, Yasmin já havia mudado completamente o comportamento.

   - Você já pegou alguma puta? E quando digo puta, não me refiro a sua ex, me refiro as que você tem que pagar pra comer. (Yasmin despejou falando um pouco enrolando e sempre gargalhando no final de cada frase)
   - Min, eu não devia ter deixado você beber nem um gole de álcool, sério… (Lucas)
   - Qual o problema de beber? (Yasmin)
   - Faz um mal danado e ainda você fala coisas que não é muito parecido com as suas atitudes sóbrias. (Lucas)

   - Eu me escondo embaixo dos véus, coisa linda. Quer dizer, eu me escondi, mas depois eu apareci pra você e ainda fiquei pelada. (Yasmin falou alto)
   - Yasmin. (Lucas)
   - Você não pode contar pra minha mãe que eu fiquei pelada, ela me mata. Capaz de ela me mandar pro tribunal islâmico e eu apanho e ainda viro Odalisca no literal da palavra. (Yasmin)
   - Eu acho melhor nós irmos andando, assim você toma um banho gelado e eu peço um café forte pra você voltar ao normal. (Lucas afirmou levantando-se)
   - Café não, pede uma vodka. Mas ir embora agora vai ser tão chato. (Yasmin)
   - Não vai, prometo. (Lucas falou com paciência e a ajudou a levantar-se)

   Yasmin acabou dando uma cambaleada e ria sozinha com cada tropeço que dava, apesar de Lucas lhe auxiliar. Lucas acabou optando por andarem pela areia, seria mais fácil pra achar o hotel e também, mais tranqüilo devido ao estado de Yasmin.

   - Você se aproveitaria de uma mulher bêbada? (Yasmin perguntou depois de um silêncio repentino, a voz dela começava a ficar rouca e estava mais enrolada)
   - Por que essa pergunta? (Lucas)
   - Meu ex-namorado uma vez me embebedou, na verdade ele fez isso pra eu ficar bem fácil e… (Yasmin diminuiu o tom de voz e aproximou-se pra falar no ouvido dele) Ele queria me comer. (sussurrando e gargalhando)

   Lucas pôs a mão na testa, sentindo duas coisas naquele momento. Vontade de matar esse tal ex-namorado e arrependendo-se amargamente por ter deixado Yasmin beber, pois ela parecia muito desbocada com algumas gotas de álcool no sangue.

   - Mas ele não conseguiu. Eu não dei! E sabe por quê? Porque o papel de me comer, foi direcionado a você! (Yasmin exclamou gargalhando)
    - Yasmin, olha a boca. (Lucas murmurou sem saber o que fazer)
   - Pode confessar que quando você me viu pela primeira vez, ficou com vontade de me pegar de jeito. Eu sei que é assim. Você devia pensar “nossa que mulher gostosa, essa eu pego”. (Yasmin brincava com os tons de voz, fazendo com que o papo picante na verdade ficasse engraçado)

   - Meu Deus do céu, alguém raptou a Yasmin Rosa ou é impressão minha? (Lucas)
   - Ninguém raptou, eu to aqui. (Yasmin respondeu sorrindo)
   - Só no corpo. (Lucas)
   - No corpinho sexy, confesse. (Yasmin)
   - Ok, confesso. No corpinho super sexy. (Lucas falou sorrindo e beijando-a na bochecha)
   - Seu corpinho também é sexy, muito sexy. (Yasmin falou numa tentativa de assoviar, mas claro que tentativa fracassada)

   Lucas continuou sorrindo e escutando tudo que ela estava liberando, mas claro que sabia que a ressaca seria das bravas.

   - Quando eu te vi pela primeira vez, na hora pensei “esse aí é pra casar”. Mas eu descobri que você era casado, então teria que ser “esse aí é pra ver se divorciando”. (Yasmin)
   - Baixinha, você vai acabar revelando todos os seus segredos. (Lucas)
   - Não tenho segredos, eu sou super transparente. (Yasmin)
   - São segredos da sua alma. (Lucas)
  - Bebê, me bateu um sono agora. (Yasmin falou esquecendo o assunto anterior e bocejando em seguida)
   - Você precisa curar essa bebedeira, senão amanhã nem levanta. (Lucas)
   - Você deveria ter ficado bêbado também. (Yasmin)
   - Sem condições, se eu começo a beber não paro e os dois bêbados não seria recomendável. (Lucas)
   - Mas eu queria te ver bêbado. (Yasmin)
   - Oportunidades não vão faltar. (Lucas)

   E passavam alguns segundos e Yasmin voltava a tagarelar alguma coisa insana. Havia se transformado com poucos copos de bebida alcoólica, provando que era mesmo fraca pra isso, mas as coisas que ela estava soltando eram tão comprometedoras e engraçadas ao mesmo tempo que Lucas dava boas gargalhadas escutando.

   - Posso prever uma coisa? (Yasmin)
   - Que coisa? (Lucas)
   - Você vai ser o cara mais bem sucedido do mundo, mas vai chorar. (Yasmin)

   O tom de voz que Yasmin havia falado foi tão sério, que Lucas acabou sentindo um arrepio percorrer toda sua coluna. Yasmin às vezes o assustava, sendo com atitudes ou palavras que surgiam do nada, quando ele menos esperava.




A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Sete

   Em São Paulo, o clima começaria a esquentar pela visita que Fátima tinha recebido. Suspirou ao ver a ex-nora sentada no espaçoso sofá repleto de almofadas. Bruna, teria que enfrentá-la, pois sabia que se ela estava ali, pra falar coisa boa que não era.

   - Bruna. (Fátima falou suavemente e se aproximou pra cumprimentá-la) 
   - Olá. (Bruna respondeu seca)

   Sempre fora assim, então era algo que Fátima até ignorava.

   - Como está meu netinho? (Fátima perguntou sentando-se no sofá)
   - Bem… (Bruna)
   - Que bom! Quer beber algo? (Fátima)
   - Não. Quero ir direto ao ponto, porque vamos ser sinceras, você não gosta de mim e isso é recíproco. Então sem cerimônias ok? (Bruna)

   Fátima respirou fundo, se não fosse o fato de Bruna estar grávida de um neto dela, com certeza estaria sendo colocada pra fora aos tapas.

   - Ok! (Fátima)

   - Já está sabendo da grande novidade? (Bruna perguntou debochando)
   - Não disse que ia direto ao ponto? (Fátima)
   - É que acabei pensando bem e acho que é melhor eu ir aos poucos, afinal de contas você já não é mais tão jovem, logo poderia ter um ataque do coração e confesso que não gosto desse tipo de cena. (Bruna)
   - Sempre tão gentil e educada. (Fátima debochou)
   - Claro! (Bruna)
   - Fale logo o que quer… (Fátima)
   - Já conheceu sua nova norinha? (Bruna)
   - Que? (Fátima)
   - Como eu imaginava. O Lucas é bem ingrato mesmo, nem pra contar pra mãezinha querida dele que já arranjou uma namorada. (Bruna)
   - Namorada? (Fátima perguntou surpresa)
   - Sim, e com alguns pontos pra começar. Trabalha no hotel do Egito, é uma Odalisca. Sabe o que significa Odalisca não é? Pois é, fora que ouvi falar que naquele hotel tem muita prostituição, principalmente com as que dançam. Fora que deve ser bem interessante você pegar o patrão. Aquela história de golpe sabe? Bem, eu fui chamada de golpista, então pelo jeito tenho uma sucessora. (Bruna envenenou e levantou-se do sofá)

   Fátima estava calada, tentando absorver tudo.

   - E se duvida, aqui estão algumas cenas românticas. (Bruna falou jogando em cima de Fátima as fotos que tinham cenas de Yasmin e Lucas)

   Sorriu de canto e saiu da casa. Fátima respirou fundo tentando digerir todas aquelas palavras ditas por Bruna. Foi um bombardeio de uma só vez. Levantou uma das fotos e suspirou vendo que ela estava falando a verdade. Era Lucas com uma jovem, bastante bonita e ele a abraçava. A jovem sorria de uma maneira que demonstrava felicidade. Pegou outra foto e um beijo. Tudo estava começando outra vez?



A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Seis

   Sentiu um pânico enorme tomar conta de seus sentidos. Como se suas artérias tivessem fechado ao mesmo tempo, o deixando sem forças pra respirar. Sempre tinha pânico quando alguém o pegava fazendo algo errado. Letícia respirou fundo, indignada. Odiava ver qualquer tipo de violência, mais ainda contra uma mulher. Uma mulher indefesa… Aliás, todas as mulheres são indefesas perante um homem, por mais corajosas que fossem, seria impossível debater na força física com um homem, apenas as que eram lutadoras. Conclusão, a raiva lhe consumiu.

   A esposa de Marcelo, sem querer deu uma soluçada alta, chamando ainda mais a atenção de Letícia. Ela estava no chão, chorando e pela expressão, envergonhada. Deus do céu, Letícia se revoltou ainda mais.

   - Quero que você saia dessa sala, agora! (Letícia)
   - Eu tenho como expli… (Marcelo tentou se defender)
   - AGORA! (Letícia)

   Marcelo engoliu uma vez mais o orgulho, agora ainda mais por ter que abaixar a cabeça pra uma mulher. Saiu da sala batendo com força a porta, fazendo Letícia fechar os olhos e apertá-los devido ao barulho. Acertaria as contas com Marcelo, na presença de algum homem, pois sabendo sua fragilidade, não teria como enfrentá-lo sozinho, apesar de tudo. Ajoelhou-se na frente daquela pobre moça. A aparência angelical, parecia cansada e envelhecida. Os olhos que passavam uma dor profunda. Teve que morder o lábio pra não chorar com aquela criatura a sua frente.

   - Fala português não é? (Letícia)
   - S-sim… (a esposa murmurou fungando o nariz)
   - Qual seu nome? (Letícia)

   - B-bárbara… (Bárbara)
   - Como ele pôde? Ah que ódio disso… (Letícia resmungou irritada ao ver um vermelhão na bochecha direita dela)
   - E-eu não sei… (Bárbara sussurrou chorando)
   - Há quanto tempo ele faz isso com você? (Letícia)

   Letícia não obteve resposta, concluindo que há tempos ele já fazia isso.

   - Querida, eu sinto muito! (Letícia)

   E buscando um consolo, Bárbara acabou deitando a cabeça no colo de Letícia e caiu num choro ainda mais desconsolável. Letícia arregalou os belos olhos, totalmente surpresa com a reação de Bárbara, mas depois acabou sentindo algumas lágrimas embaçando sua visão por ver a tristeza estampada naquela mulher. Sentiu uma grande pena…

   - Vai ficar tudo bem… (Letícia consolou-a)
   - N-não vai… (Bárbara sussurrou)
   - Vai sim, Deus existe e vai te ajudar! E você tem que se separar desse cafajeste. (Letícia)
  - Eu não posso me separar d-dele, a-agora mais ainda. (Bárbara falou chorando compulsivamente)
   - Claro que pode. Nós mulheres devemos ser guerreiras e lutar contra a violência que sofremos. Não pode continuar com um crápula desses. (Letícia)
   - Meus f-filhos, não tenho como c-cuidar deles com m-meu dinheiro. E agora e-eu to grávida de novo… Vim f-falar isso pro Marcelo. (Bárbara confessou aos prantos)
   - Ai meu Deus! Como grávida? (Letícia)

   Mais um choro forte foi dado por Bárbara e ao não responder, Letícia acabou entendendo o motivo. Sua revolta chegou a picos altos de fúria. Era muita maldade reunida em um só ser humano.

   - Eu vou denunciar esse cara! (Letícia exclamou decidida e levantando-se do chão)
   - NÃO! N-não pode fazer isso… (Bárbara)
   - Não só posso como vou, ele te violentou e ainda te agride… Se você não denuncia as coisas vão piorar cada vez mais. (Letícia falou séria)
   - Estamos n-num país islâmico, o-onde nada disso importa… (Bárbara)
   - Vou à embaixada então. Ainda vou demitir esse mau caráter. (Letícia)
   - O-os meus filhos… (Bárbara)
   - Eu vou te ajudar, se acalme. (Letícia)

   Letícia tirou o iphone de seu bolso e discou pra um número, a fim de resolver de uma vez por todas aquela situação. Não iria interromper os dias que Lucas havia pegado pra viajar, iria tentar contato com Taylor e Jorge, ou então, mesmo temendo uma reação de Marcelo, ela teria que enfrentá-lo.
A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Cinco

   - A traição é bem complicada. (Yasmin)
   - Eu sempre tomo na cabeça, literalmente falando. Não tenho sorte pra essas coisas. (Lucas)
   - Eu não vou trair você. (Yasmin)
   - Eu acredito, baixinha. (Lucas falou sorrindo)


   No Cairo, Letícia observava de longe as atitudes de Marcelo. Ora inquieto, ora calmo, ora tempestivo. Bipolar talvez? Ou um psicopata? Ela apesar da má fama de limitada a certas coisas, tinha um grande conhecimento sobre pessoas que tinham sérios problemas psicológicos. Sua irmã, Daniele, era formada em Psiquiatria e com a convivência, ela acabou pegando alguns conhecimentos. Em pouco tempo já havia percebido a forte obsessão que ele tinha por Yasmin. Na maneira como a olhava, nos ataques, na perseguição. Não era amor reprimido, era um amor fatal, se é que poderia ser considerado amor. Mas ele guardava dentro de si algo que pra Letícia era indecifrável, uma incógnita. E odiava quando não conseguia desvendar as coisas, apesar de já ter feito muito por esse caso. Foi pensando nisso que viu uma mulher de aparência jovem, mas com um rosto sofrido. Ela conversava com Marcelo e ele não parecia tão confortável com a presença dela. Letícia o viu puxá-la pelo braço e sair dali. Ela sem pensar duas vezes, levantou-se e seguiu o mesmo caminho por entre os corredores do hotel. Encostou com cuidado a cabeça na porta e escutou algo relacionado a um choro. Choro feminino. Segurou-se pra não arrombar a porta, na verdade não teria força pra isso, mas a vontade lhe fazia transformar-se em Hulk e quebrar tudo pela frente. Havia pegado uma raiva grande de Marcelo e ver que uma mulher chorava na presença dele, era motivo suficiente pra matá-lo, mesmo não sabendo o motivo do choro.

   Do lado de dentro.

   - Por que veio? (Marcelo perguntou com raiva)

   Sua esposa havia ido atrás dele, apesar de todas as humilhações que sofria, não tinha pra onde correr. Desde cedo se virava sozinha, mas os filhos pequenos a faziam pensar duas vezes pra cometer uma loucura. Não iria conseguir sustentá-los e conhecendo a índole de Marcelo, com certeza perderia a guarda deles. Algo não citado é a forma como ela se sustentava. Não era uma prostituta, mas trabalhava em um bordel como garçonete, lugar onde pra sua desgraça, falando claro, conheceu Marcelo. Ele sempre que podia jogava essas coisas na cara dela, como se ela tivesse feito parte do grupo das prostitutas.

   - E-eu… (ela tentava falar, mas não conseguia)
   - Vai embora daqui, sua presença não é agradável. Fora que existem pessoas aqui que freqüentavam o lugar onde você trabalhava e não é bom pra minha imagem ser casado com uma piranha. (Marcelo despejou sem dó)
   - NÃO SOU NADA DISSO. (ela gritou com raiva)

   E nesse momento, o forte estalo da mão dele foi de encontro ao rosto dela. Um tapa que a fez desequilibrar-se e quase ir ao chão. E pra sorte dela, apesar de tudo, a porta havia sido aberta naquele instante e Letícia havia visto tudo. E algo que ela não admitiria nunca, violência contra uma mulher e estando no ambiente de trabalho era motivo suficiente pra colocá-lo pra fora dali.

   Marcelo arregalou os olhos ao ver Letícia parada na porta.

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Noventa e Quatro

   As fotos eram abertas no notebook e os olhos cheios de ódio direcionavam olhares de repulsa. Inveja! Não poderia pensar que havia sido trocada por uma simples funcionária dos hotéis cujo dono era seu sogro, e que morava num país medíocre. Empregada que deveria implorar por míseros trocados, caso contrário morreria de fome, enquanto Bruna com o mesmo valor nem abastecia o tanque de sua BMW. Nem sua calcinha mais vagabunda custava tão pouco. Yasmin? A mera Odalisca que não era nada, ninguém! Seu orgulho explodia de raiva. Não admitia tal coisa, se fosse uma mulher da alta sociedade, que a desbancasse tudo bem, mas ela? Ah, teria que mudar certas coisas e sabia bem onde atingir.

   O Sol despontou irradiante naquele dia. O céu parecia mais azul que o de costume e nuvens não existiam. Um dia perfeito? Se não fosse perfeito, com certeza chegaria bem perto, ainda mais que resquício de briga no dia anterior, havia ficado pra ontem literalmente. Yasmin vestia um biquíni branco liso, contrastando com seu tom de pele natural, que era mais bronzeado e um short jeans. Os cabelos presos num rabo de cavalo alto e descalça, já que tinha uma filosofia quanto aos pés no chão. “Energia ruim desce pelos pés e vai pra terra. Energia boa da natureza sobe pelos pés!” Não era de sua religião, apenas algo que ela particularmente acreditava.

   - É engraçado ver uma muçulmana de biquíni. (Lucas falou aproximando-se e sorrindo)

   Yasmin virou dando um sorriso cúmplice e o olhou de cima a baixo. A barba por fazer, sem camisa e com uma bermuda branca. Os óculos escuros e aquela pinta de galã que era sua marca.

   - Sou a ovelha negra do Islamismo, não tem jeito. (Yasmin concluiu rindo)
   - Não, você é exclusiva e isso me soa bem interessante. (Lucas falou puxando-a pra um abraço)
   - Bom saber disso… (Yasmin)
   - Sugere algum lugar que tenha conhecido e que queira me mostrar? (Lucas)
   - Tem um lugar que eu fui e que me encantou. Acho que você também vai gostar. (Yasmin)
   - Então vamos. (Lucas)

   O penhasco ficava à beira do mar. A altura proporcionava uma vista deslumbrante de toda a extensão do Canal de Suéz.

   - Que lindo! (Lucas falou assoviando)
   - Muito lindo e ainda revitaliza energias. (Yasmin falou sentando-se no chão)

   Ficou quieta mirando atentamente as ondas baterem na parte de baixo do penhasco. A natureza daquele lugar lhe fazia lembrar de toda sua vida anterior ao Egito. Havia ido ali quando acabara de se mudar pro Cairo e recordava o quanto havia chorado naquele mesmo pedaço em que agora estava sentada.

   - Você desliga às vezes. (Lucas falou sentando ao lado dela)
   - Reflexões apenas. (Yasmin)
   - Não quer compartilhar? (Lucas)
   - Eu já te encho demais. (Yasmin falou sorrindo)
   - Pode falar, eu gosto de escutar suas histórias, são aprendizados de vida. (Lucas)
   - Sabe, você e a Nana são as únicas pessoas que eu consigo falar tudo, desabafar. Até com minha mãe tenho um pouco de receio de falar, mas com vocês não. (Yasmin)
   - Isso me faz importante não? (Lucas)
   - Bastante. (Yasmin)
   - Então já que sou tão importante assim, fala o que passa dentro dessa cabecinha. (Lucas)

   Yasmin olhou novamente o mar e começou a falar.

   - Eu vim aqui, quando me mudei pro Cairo. Tinha passado por dores irreparáveis a tão pouco tempo. (Yasmin)
   - Posso perguntar uma coisa? (Lucas)
   - Pode. (Yasmin)
   - O que dói mais em você, a perda de seu pai ou a história com seu tio? (Lucas)

   Yasmin respirou fundo, entrar em detalhes nessas duas histórias cutucavam as feridas que ainda estavam em carne viva dentro de sua alma, mas ela precisava cada vez mais se libertar disso.

   - O meu pai. Se ele estivesse vivo, eu estaria pouco me importando com tentativa de estupro ou não. (Yasmin respondeu melancólica)
   - Sente muita falta dele não é? (Lucas)
   - Demais. Ele e eu tínhamos uma relação perfeita, nunca brigamos. É até surpreendente algo assim, mas é verdade. Ele nunca se opôs ao meu jeito mais revolucionário, coisa que pra um muçulmano é difícil de aceitar. Ele várias vezes me defendeu por isso, perante à família e fora o jeito que ele me tratava, que ele me acolhia. (Yasmin)
   - Eu sinto muito por ter o perdido e juro que queria ter o conhecido, pois ele fez algo muito especial, que foi ter sido pai de uma garota tão incrível como você. (Lucas sussurrou dedilhando o rosto dela)

   Yasmin sorriu abaixando a cabeça e respirando fundo, segurando-se pra não desabafar com lágrimas. Bem, sempre fora chorona e falar de seu pai, escutando essas doces palavras de Lucas, era um motivo certeiro.

   - Eu sempre falo de minhas coisas, mas você sempre fala por cima. Me conta alguma coisa. (Yasmin)
   - O que quer saber sobre mim? (Lucas)
   - Ah não sei, fala algo que não tenha me contado. (Yasmin)
   - Não sei o que falar. (Lucas)
   - Fala de suas ex-namoradas, sei lá. (Yasmin)
   - Ok, vou confessar uma coisa. (Lucas)
   - Confesse. (Yasmin)
   - Eu já namorei a Let. (Lucas)
   - Sério? (Yasmin perguntou surpresa)
   - Sim. Na verdade nem podemos considerar um namoro já que foi pouco tempo, mas tive uma relação com ela. (Lucas)
   - E por que acabou? (Yasmin)
   - Ela me traiu. (Lucas respondeu rindo)
   - E você ri? (Yasmin)
   - Dou risada hoje em dia porque a Let não deixa de ser uma diabinha, mas na época fiquei mal. (Lucas)
   - Então significa que se não tivesse a traição, vocês estariam até hoje juntos? (Yasmin)

   Seria muita ilusão da parte de Lucas ou realmente ele havia percebido um pouco de ciúmes da pergunta?

   - Não estaríamos, era pra ser assim. Apesar de adorar a Let, nós dois temos personalidades muito diferentes e no nosso caso não funciona aquilo de os opostos se atraem. Fora que ela sempre foi bastante adepta da traição e isso pra mim é inaceitável. (Lucas)