sábado, 5 de janeiro de 2013

A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Três.

   O suspiro de Yasmin foi tão profundo que acabou chamando a atenção de Lucas, que colocava o cinto de segurança.

   - O que foi? (Lucas)

   Yasmin ficou alguns segundos quieta. Olhando fixamente pra frente, onde via apenas algumas folhas que voavam pelos ares, apesar de calor, a ventania fazia sua presença naquela noite típica de verão.
O barulho das ondas do mar soavam num eco expressivo e enchiam o peito de Yasmin de angústia. Certas vezes ela se sentia tão patética, mas era inevitável externar para o mundo o que ela sentia. Era visível em suas expressões, em seu olhar… Até mesmo no seu tom de voz.

   - Min? (Lucas insistiu)

   Yasmin despertou e apenas virou sua mirada pra ele. Uma vontade de repente surgiu.

   - Posso… (Yasmin)
   - Pode? (Lucas)

   Yasmin engoliu as palavras e mais uma vez virou-se pra frente.

   - Autista, me conta em que planeta você mora? (Lucas perguntou sorrindo)

   Ela virou uma vez mais pra ele e deu um pequeno sorriso, ajeitando com cuidado a franja.

   - Que foi? (Lucas perguntou enterrando uma das mãos nos cabelos dela)
   - Queria pedir uma coisa, mas… (Yasmin)
   - Que coisa e por que o mas? (Lucas)
   - Medo… (Yasmin)
   - Fala pra mim. (Lucas)
   - Posso… (respirou fundo) Posso ir dirigindo? (Yasmin)

   Lucas ficou parado por alguns segundos tentando assimilar a pergunta que ela havia feito. Há pouco mais de dois dias ela quase havia o matado por ele ter tentado fazer com que ela dirigisse e agora… ela queria? Pequena vitória pra um medo…

   - Sério que você quer? (Lucas perguntou sorrindo e acariciando a bochecha dela)
   - Sério… Posso? (Yasmin murmurou)
   - Claro que pode, aliás… Deve! (Lucas exclamou abrindo a porta do carro e saindo, pra que ela fosse pro lugar do motorista)

   Yasmin por dentro do carro, sentou na frente da direção e apoiou as mãos nela. Lucas sentou no banco do passageiro e novamente colocou o cinto de segurança. Uma vez mais ela estava parada olhando pra frente.
Agora as estrelas ao fundo. O brilho e a luz que pareciam tão fortes e expressivos… Tão poéticos.

   “Estrelas são pontos pequenos perante a nossa visão terrestre, mas são gigantes em sua proporção e significado. Cientificamente são consideradas corpos que têm luz própria, mas poeticamente falando são almas que se apagaram em seus corpos físicos e hoje residem em cada uma delas. Pessoas que já se foram… Todos nós temos uma delas guardada dentro de si e quando partimos desse mundo, a deixamos brilhar… Dependendo de sua luz, ela brilha mais ou brilha menos. Dependendo do que você foi e proporcionou, ela é pequena ou gigante. São guias que percorrem nosso mesmo caminho e aquela que brilha mais pra você, é alguém especial que passou por sua vida… A que vejo ao fundo, é a minha herança… O meu pai!”

   - Posso ficar uns segundinhos pensando? (Yasmin)
   - Eu espero o tempo que precisar. (Lucas)

   Um turbilhão de sentimentos rondava Yasmin. Lucas tinha atitudes tão grandiosas perante o que ela podia sentir que o medo aumentava mais ainda. Era como se ela quisesse que ele não demonstrasse mais o ser humano apaixonante, pra assim ela não se jogar de cabeça sem pensar nas conseqüências. Nos erros…

   - Pára com isso… (Yasmin pensou alto)
   - O que? (Lucas)
   - Pára… por favor. (Yasmin)
   - Parar com o que? (Lucas)
   - Com tudo isso que você está causando dentro de mim. (Yasmin confessou)
   - To fazendo mal a você? (Lucas)
   - Não… só amor… (Yasmin)

   Lucas respirou fundo e puxou delicadamente o rosto dela pra que pudessem manter os olhos nos olhos…

   - Não fique apavorada com isso que está acontecendo… Deixe fluir. Eu não sou o cara perfeito e estou longe de ser isso. Não tenho vocação pra príncipe encantado e nem sei se sou o homem que você merece. Eu trilhei um caminho errado até pouco tempo e não sei se as conseqüências virão no futuro ou se ficarão enterradas no passado, mas a única certeza que tenho é que eu quero você do meu lado. Se o pra sempre existir, é ele que eu almejo e não prometo um mar de rosas, mas eu planejo felicidade. E proteção… (Lucas sussurrou acariciando delicadamente o queixo dela, que tremia um pouco)
   - Eu não quero que você volte pro Brasil… (Yasmin murmurou com a voz entrecortada e os olhos cheios de lágrima)
   - Não faz isso com meu coração, pequena… (Lucas falou abraçando-a)
   - Eu odeio ficar s-sozinha… (Yasmin sussurrou começando a chorar)
   - Você não está sozinha, não mais. Mesmo que eu não esteja aqui fisicamente, vou estar sempre com você. Te ligando toda hora, te mandando milhões de mensagens, e-mails… Te enchendo o saco no msn, eu vou te irritar, garanto… (Lucas falou fazendo-a sorrir entre o choro)
   - Não irrita… (Yasmin sussurrou limpando os olhos)
   - Em poucos dias vai pro Brasil não? (Lucas)
   - Daqui a dez dias eu entro de férias,aí vou correndo para lá. Quero dar um abração na minha mãe, na minha irmã... E-eu to morrendo de s-saudades delas. (Yasmin disse em meio ao choro)
   - Falta pouco tempo pra você reencontra-las. (Lucas)
   - É… (Yasmin falou limpando novamente os olhos)
   - Quero conhecer sua mãe. Preciso agradecer por ela ter colocado no mundo uma jóia. (Lucas)

   Yasmin sorriu tímida e abaixou a cabeça em sinal de vergonha.

   - Envergonhada. (Lucas brincou apertando o nariz dela)
   - Só u-um pouco… (Yasmin)
   - Sei… Quer que eu dirija? (Lucas)
   - Não! Eu vou… (Yasmin)

   “Como disse anteriormente, as estrelas são guias e ajudam os viajantes a trilharem um caminho… Ele me guiará!”

   Com as mãos grudadas no volante e uma certa tremedeira nas pernas, o barulho quase inaudível do carro se escutou e a respiração forte se fez intensa. Lucas apoiou uma das mãos no ombro direito dela e apertou delicadamente passando força pra ela não desistir.

   - Prova a minha teoria… (Lucas)
   - Que teoria? (Yasmin perguntou visivelmente nervosa)
   - De que você é a garota mais forte do mundo, que é o maior exemplo de superação… e o maior orgulho do Lucas e do Luiz. (Lucas)

   Yasmin sentiu as palavras lhe chocarem o coração e antes que ela abrisse a porta pra sair correndo, ela acelerou.

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