sábado, 5 de janeiro de 2013

A Dança dos Sete Véus
Trezentos e Cinco.

   “Existem seres humanos que nascem para amar e serem amados. Existem seres humanos que nascem para terem poder. Existem seres humanos irracionais e incapazes de perceber o quanto se afundam ainda mais. Não é uma ameaça, é uma promessa… Uma dívida que terei comigo mesmo. Com meus princípios e com meu orgulho de homem. Sei que percorrerei um caminho enorme por entre o Saara, mas no final o viajante do deserto, tem seu tesouro como recompensa… Não falo que nessa caso será a água, mas a vitória de ter nas mãos a vida dela…”


   Marcelo distraiu-se um pouco em pensamentos quando viu Lucas entrando na sala e o olhando sério. Endireitou-se no sofá pigarreando. Ele já sabia que seria demitido, mas receber a notícia da boca de Lucas, não seria o que ele desejaria naquele momento. Lucas era prepotente em sua visão… Petulante. Olhar de quem se julga o rei do pedaço e a face dura como a de um gladiador invencível. Não o suportava.

   - Eu não gosto muito de rodeios… Então creio que pra facilitar tanto a sua vida quanto à minha, vou ser bem direto. Está demitido! (Lucas exclamou)

   Marcelo ergueu uma de suas sobrancelhas e permaneceu intacto, sem expressão no rosto.

   - O meu pai não quer te denunciar, talvez seja por pena, mas o que eu mais queria fazer é isso. Pra mim você é um verme, não por ter feito o que faz constantemente com sua esposa, mas por ter a petulância de inventar algo sobre garotas inocentes. (Lucas)

   Ah, claro… Yasmin Rosa. Óbvio que a implicância de Lucas com Marcelo era por causa dela, e isso tirava do sério o espanhol.

   - Yasmin Rosa. (Marcelo afirmou sorrindo)


   Lucas cruzou os braços e a expressão séria intensificou-se ainda mais.


   - É tudo pra defendê-la não? (Marcelo)
   - Não é a Yasmin, é você… E não toque no nome dela. (Lucas afirmou irritado)
   - Pelo jeito, já foi pra sua cama. (Marcelo provocou)

   Os olhos castanhos de Lucas dilataram-se e uma névoa foi identificada em suas pupilas: ódio… Sem pensar muito, pegou Marcelo pelo colarinho e o prensou na parede.

   - Preste atenção em uma coisa… Não admito que fale um a da Yasmin. Pouco me importa se você acha que temos algo ou não, você pra mim é o mesmo que um lixo… Mas te deixo um aviso, fica longe dela. Eu sei que você a persegue, não precisa ninguém contar pra mim, muito menos ela… Eu vejo as coisas e cara, isso me irrita. (Lucas falou ainda o segurando pelo colarinho)
   - Tem como me soltar? (Marcelo perguntou calmo)

   Aquela tranqüilidade elevava a ira de Lucas. Era um cinismo barato misturado com uma covardia impagável. Se fosse tão homem quanto mostrava nas agressões a sua esposa, certamente resolveria a altura aquela situação, usando força física caso fosse preciso.
Mas o que Lucas não sabia, era que Marcelo não passava de uma cobra criada, que sorrateiramente sondava seus passos e quando menos se esperava, ele dava o bote.

   - Você tem toda razão… Não devo me meter em nada que não diga respeito a mim. Sobre minha demissão eu receberei algum direito ou consideraram justa causa? (Marcelo)

Lucas riu em sinal de nervoso… Mais do que cínico, ele era um louco sem sentimentos. Uma aberração.


   - Terá seus direitos, será como esmola. Passe no RH pra assinar os documentos e pegue suas coisas já. (Lucas)
   - Ok. (Marcelo)

   Uma troca de olhares aconteceu. Olhares gélidos, perversos e transparecendo um forte sentimento de ira. Era como se naquele momento tivesse iniciado uma guerra, onde não havia nenhum território em jogo, apenas uma garota…

   - Mande lembranças pra Yasmin! (Marcelo)

   Em seguida saiu da sala. Lucas sentiu um forte arrepio na espinha, mas conteve-se… Como tinha vontade de correr atrás daquele cara e enchê-lo de socos. Era óbvio, ele era apaixonado por Yasmin e pelo que percebera, dentro daquele ser humano sentimentos bons não nasceriam nunca, logo ele sabia que ela poderia estar em perigo. Não sabia em qual intensidade ou situação, mas a sensação sinistra pairava no ar.

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