quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Oitenta e Seis.

   “Você é do tipo que acredita que com pequenos tijolos construímos edificações gigantescas? Bem… Foi uma metáfora, claro, mas algo que eu talvez não consiga descrever de maneira menos complexa. Algo como um detalhe que venha a ser despercebido ou insignificante. Às vezes não consigo me expressar, mas sei que uma chama está cada dia mais sendo acesa. Eu sei que com fogo podemos nos queimar, mas arriscar faz parte e já não é mais tão proibido!”

   Yasmin sentou no degrau da portaria com a mala ao lado. Havia saído mais cedo do trabalho pra poder conseguir arrumar suas coisas. Era sexta feira à noite e ela iria viajar. Junto com ele. Yasmin havia sugerido o Canal de Suéz, golfo que liga o Mar Mediterrâneo com o Mar Vermelho. Lugar que abrigava alguns oásis e a ligação econômica com a Europa, devido às navegações que ancoravam diariamente na região. Ficava a poucas horas do Cairo e isso deixou Lucas com uma grande vontade de tentar superar alguns traumas de Yasmin.

   - Demorei? (Lucas perguntou sorrindo e encostando-se de braços cruzados no carro)

   Yasmin sorriu levantando-se e foi ao encontro dele, sem perceber beijou a bochecha dele e o olhou percebendo que a feição dele era de uma criança desolada. Brincadeira dele, claro.

   - Que foi? (Yasmin)
   - Beijo na bochecha? (Lucas)

   - Não estou muito acostumada com isso. (Yasmin respondeu sorrindo e mordendo o lábio inferior)

   Aquilo soou tão sexy aos olhos de Lucas, que sem deixá-la reagir, a puxou pela cintura colando seus corpos e invadindo com a língua, os lábios avermelhados dela, fazendo-a ofegar. E sem perceber a apertava com uma vontade tão grande, que se passasse algum islâmico em volta, com certeza seriam condenados ao pior castigo. Bem, pelo menos Yasmin que carregava essa religião nas costas. Foi nesse pensamento que a fez voltar a si e se soltar entre respirações que beiravam a de um asmático. Lucas fechou os olhos recuperando o fôlego e tentando “esquecer” o fato de que havia se empolgado um pouquinho a mais da conta, anatomicamente falando.

   - Eu poderia ser condenada por isso. (Yasmin sussurrou tampando o rosto)
   - Desculpa, me empolguei. (Lucas)
   - Nenhum ato errado desse tipo, é feito sozinho. E não quero que você se enquadre na minha cultura, até porque eu não tenho cultura islâmica, apenas acredito em Alá e no Alcorão. Enfim, quis brincar pra disfarçar a vergonha. (Yasmin falou sorrindo)
   - Eu sabia disso. (Lucas falou abraçando-a)
   - Eu sou muito diferente do que você está acostumado. (Yasmin)
   - É isso que mais me atrai. (Lucas confessou apertando-a nos braços)

   Yasmin suspirou e desfrutou dos carinhos dele em seus cabelos. Tudo era tão confuso que ela sentia-se como uma pessoa bipolar. Num momento estava se agarrando com ele e no outro se lamentava por ser diferente? Enfim, hormônios femininos que são iguais em qualquer etnia ou religião.
Após pegar a bagagem de Yasmin e colocar no carro, Lucas entrou no lado do motorista e virou de lado olhando pra ela que arrumava o cinto de segurança.

   - Você já foi pra lá não é? (Lucas)
   - Uma vez fui com a Nana. (Yasmin)
   - Vocês foram de ônibus? (Lucas)
   - Não. Fomos com o carro do irmão dela. (Yasmin)
   - Eu peguei o guia daqui e apesar de não entender as escritas, no mapa eu consegui entender mais ou menos o caminho, mas creio que você saiba melhor. (Lucas afirmou esticando a mão na direção dela, ele segurava as chaves do carro)

   Yasmin ficou alguns segundos olhando pra ele e pra chave respectivamente. Tentava entender aonde ele queria chegar.

   - O que está querendo dizer? (Yasmin perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)
   - Vai dirigindo. (Lucas)
   - NÃO! (Yasmin exclamou de prontidão arregalando os olhos)
   - Min, uma hora você vai ter que voltar a dirigir. Eu entendo que seja difícil, mas precisa superar. (Lucas)
   - Não quero ser grossa, mas aconteceu comigo e não com você. (Yasmin atacou)

   Bem, sempre que mexiam com coisas relacionadas a esse passado, a irritavam. Não era de caso pensado. Era uma reação automática. Um forte trauma que a deixava feito uma estátua. Parada no tempo.

   - Eu sei que não aconteceu comigo, mas só podemos superar uma coisa quando a enfrentamos. Você já enfrentou tanta coisa e não pode enfrentar um carro? (Lucas)
   - Não é tão fácil. Não foi somente uma batida de carro, foi na hora que meu pai estava morrendo. Pode não parecer difícil pra você que tem pai, mas comigo não. (Yasmin)

   Outro fato a ser dito, apesar da doçura, Yasmin guardava dentro de si uma forte personalidade que às vezes era um pouco exagerada demais, ao ponto de magoar as pessoas.

   - Min, por favor… (Lucas)
   - Está de noite também e se você continuar insistindo, eu prefiro não ir. (Yasmin)

   Lucas ficou a olhando um pouco incrédulo. Nunca havia visto uma reação dela desse tipo, bem, pouco tempo convivendo, mas foi algo que o surpreendeu. Se fosse em outras ocasiões, quer dizer, com outras mulheres, certamente ele ia dar um grito e colocá-la pra fora do carro dele, mas com Yasmin ele parecia compreender o ataque. Era um trauma e não um capricho.

   - Você não quer ir? (Lucas)

   Yasmin se endireitou no banco e ficou olhando pra frente. Lucas ainda a olhava esperando uma resposta.

   - Q-quero… (Yasmin sussurrou)

   Ele pode sentir um tom meio embargado na voz dela, já que ele sabia que havia tocado numa ferida. Uma ferida que ela havia confessado pra ele, mas que ainda lhe causava dor. Foi inocente tentar ajudá-la, nada proposital, pois o que menos ele queria era magoá-la, mas talvez o magoado da história, bem, o chateado, tenha sido ele. Mas iria respeitar.

   - Eu quis te ajudar, me desculpe se isso te ofendeu. Prometo que não se repetirá. (Lucas afirmou sério)

   Colocou o cinto e calado observou o mapa, em seguida ligou o carro dando partida. Não poderiam considerar aquilo como uma briga, mas um desentendimento talvez. Não havia sido o primeiro, já que anteriormente quando Bruna apareceu no Egito, os dois acabaram tendo um afastamento, mas com um relacionamento sério, havia sido o primeiro e apesar de não ter gritos e escândalo, havia broxado bastante o inicio da viagem.

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