domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Dança dos Sete Véus
Cento e Setenta e Oito.

   “Poucas pessoas sabem o que de fato é amor ao trabalho, eu posso não ser a funcionária mais perfeita do mundo e não suporto estar envolvida nesse monte de papelada, mas tenho certeza de uma coisa, ganhar dinheiro dançando é tudo que pedi a Alá, mesmo que tenha sido a única opção desde que cheguei aqui. Talvez eu não tenha contado ainda tudo que passei até encontrar trabalho nesse hotel. Foram exatos vinte e sete dias procurando qualquer coisa, menos algo relacionado à criminalidade e prostituição. Eu tinha no bolso apenas 100 libras e 120 pesos, que equivalem a 50 libras e o apartamento que era de meu pai… Comida? Teve dias que eu tinha que escolher entre o café da manhã, o almoço ou a janta. Teve um dia que tive que me contentar com um copo de água. Minha mãe, não pode saber disso de maneira alguma, ela havia me dado um bom dinheiro, cerca de 3.000 libras já convertidos, mas uma amiga havia precisado dessa quantia e não me neguei a emprestar, bem… Depois descobri que ela não era nada amiga, mas isso já não faz diferença em minha vida. O fato é que valorizo meu trabalho por tudo que já passei em silêncio, eu dormia por minutos, pensava durante a noite o que seria de minha vida caso não arranjasse um emprego, como voltaria pro Brasil? Como sobreviveria? Mas mais uma vez, Alá colocou sua mão sobre minha vida e eu consegui superar esse período ruim. Mas ainda alcanço mais, palavra de Yasmin!”


   - Vendo esse monte de papel, eu vejo o quanto é legal ser Odalisca. (Yasmin falou desanimada ao ajudar Anaíra com papéis de Contabilidade)
   - Pois é "nanica", dançar é bem mais fácil que conferir todos esses cálculos. (Anaíra)
   - Se me chamar de nanica, rasgo todos esses papéis e jogo dentro da sua mochila. (Yasmin)
   - Ok, estressada. (Anaíra falou rindo)
   - Brincadeira, pega essa calculadora e um lápis, por favor? (Yasmin)
   - Claro, aqui está. (Anaíra falou entregando na mão de Yasmin um lápis e uma calculadora contábil)


   Yasmin concentrou-se nos cálculos. Mas sua mente sempre se desviava em pensamentos adversos que levavam a apenas uma pessoa. Lucas!

   
“Não gosto de ficar com uma pessoa na mente, é como se eu prendesse sua alma em meu pensamento e não a libertasse nunca mais. Sei que pode parecer algo sem nexo, mas me sinto mal em não conseguir pensar em outra coisa. Parece que a vida quer jogar algo na minha cara, provar alguma coisa. Não sei, talvez um tormento, um carma. Posso estar parecendo uma louca, falando coisas totalmente sem nexo, usando e abusando de filosofia e metáforas. Desculpem-me, mas minha mente está embaralhada, milhares de coisas que parecem brincar de pega-pega na minha cabeça. Medo… Apenas isso passa claramente em minha cabeça, estou com medo do que pode tornar-se especial demais. Não posso deixar que tudo isso caminhe muito rápido, tenho que brecar antes, tenho que me desapegar e seguir em frente… Mas minha cabeça impede qualquer atitude sã.”

   - Essa desliga mesmo. (Anaíra sussurrou pra si mesma e rindo ao ver Yasmin viajando)

   Lucas na sala de reuniões analisava em silêncio a escala de folga dos funcionários. Yasmin teria folga no dia seguinte, a primeira desde que voltou de Alexandria.

   - Ela é a que folga menos. (Lucas sussurrou)

   Yasmin ainda estava concentrada ao conferir os cálculos da contabilidade. Matemática nunca fora seu forte na escola, por isso direcionava muita atenção pra essa tarefa. Sempre foi ótima aluna em Espanhol e Geografia Física.

   - Min, vou ao banheiro e já volto! (Anaíra falou levantando-se da cadeira)
   - Ok! (Yasmin)

   A franja caiu sobre seus olhos e de maneira calma a colocou para o lado. No mesmo instante em que Lucas entrou na sala. Foi inevitável, ele parou para ver o movimento que mais o enlouquecia. Como podia ser tão sexy em apenas colocar a franja de lado? Sorriu balançando a cabeça.

   - Yasmin? (Lucas)

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