sábado, 3 de março de 2012

A Dança dos Sete Véus
Duzentos e Trinta e Três.

   Yasmin já havia preparado tudo. Apenas faltava colocar os pratos na mesa, mas a campainha tocou quando esta ia pegá-los. Deu um pequeno sorriso e encaminhou-se até a porta. Abriu a porta e olhou surpresa. Bem, não pela presença de Lucas, mas pela presença de Helen, já que o convite seria recusado, segundo ele.

   - Oi. (Helen acenou sorrindo tímida)

   Yasmin devolveu o sorriso e olhou pra Lucas.

   - Oi. (Yasmin)
   - Ele me trouxe. Tudo bem não é? (Helen brincou)
   - Claro! Eu havia falado pra ele te convidar. Entrem… (Yasmin falou sorrindo e abrindo espaço para os dois entrarem em seu apartamento)

   Helen passou antes, Lucas ao passar deu uma piscadinha pra Yasmin que abaixou a cabeça tímida. Ele claro que sorriu, era o que mais encantava pra ele.

   - Vocês querem beber alguma coisa? (Yasmin)
   - Por enquanto não, obrigada. (Helen)
   - Eu também não. (Lucas)
   - Podem sentar, eu vou terminar de colocar a mesa. Fiquem à vontade. (Yasmin)

   Quando Yasmin saiu da sala, Helen olhou para o primo com uma incógnita na mente.


   - Achei que tivesse arrumado um amigo ou fosse me levar em algum restaurante. Mas na casa da Odalisca? (Helen perguntou erguendo uma de suas sobrancelhas)
   - E o que tem? (Lucas)
   - O que tem é que enquanto você está indo com a farinha, eu já voltei com o bolo pronto. (Helen)
   - Quer chegar aonde? (Lucas)
   - Eu em lugar algum, mas e você? (Helen)
   - Não estou entendendo Helen. (Lucas)
   - Pelo que o Taylor me contou, essa garota é muçulmana. Você vai permitir que ela sofra numa relação onde o que prevalece é um casamento de aparências? (Helen)
   - Do que você está falando? (Lucas)
   - Não vai enganá-la, Lucas. (Helen)
   - Você está insinuando que… (Lucas)
   - Você está tendo algo com ela, sim. Aliás, estou afirmando. (Helen o interrompeu)

   Lucas calou-se.

   - Lucas, está na hora de você tomar uma decisão na sua vida. (Helen)
   - Não acha que está falando as coisas sem saber? (Lucas)
   - Lucas, acorda pra realidade. Só isso… (Helen)

   Quando Lucas ia abrir a boca pra falar algo, Yasmin voltou.

   - Trouxe pra vocês, é um suco de lichia. (Yasmin falou entregando aos dois o copo de suco)
   - Lichia? (Lucas)
   - É! (Yasmin)
   - Esse daí tem tara por lichia. (Helen)
   - Eu adoro mesmo, minha fruta preferida. (Lucas)
   - Esse suco é uma especialidade minha, sem querer ser convencida, mas sempre fica bom. (Yasmin)
   - Tenho certeza… (Lucas falou sorrindo e deixando-a desconcertada)

   Helen olhou a cena e virou a mirada pra mesa de centro, sorriu e bateu devagar em cima de uma vela aromatizante que estava repousada ali.

   - E aí colega! (Helen)

  Yasmin ficou ainda mais desconcertada, enquanto Lucas se divertia com o jeito encabulado dela.

   - É… Vou lá, terminar… (Yasmin falou saindo da sala novamente)
   - Tadinha, você a deixou envergonhada. (Lucas)
   - Eu ou você? (Helen)
   - Você. (Lucas)
   - Nem vou te responder, conversamos depois. (Helen)
   - Ok, Helen. (Lucas)

   Yasmin não havia poupado esforços na hora de cozinhar para Lucas, bem e para Helen também. Usando e abusando de seu dom, principalmente tratando-se da culinária árabe, Yasmin preparou pequenos charutos de repolho recheados com carne. O famoso tabule e um delicioso refogado de carneiro. Tudo bem tradicional e de um grande requinte. Como bebida ainda seria o suco de lichia, conforme dito por ela mesmo, sua especialidade.

   - Você tem mãos de ouro na cozinha, está maravilhoso. (Helen afirmou degustando a comida)
   - Concordo com a Helen, está divinamente delicioso. (Lucas)
   - Shokran. (Yasmin falou sorrindo)
   - Bom, como você é educada, sei que não está me xingando. (Helen falou rindo)
   - Já falei mil vezes pra ela que shokran é obrigado, mas ela não aprende. (Lucas)
   - Se nem a minha língua eu sei direito, que dirá o árabe. (Helen brincou)
   - Com o tempo você aprende. (Yasmin)
   - Ela é na base da manivela, Min. (Lucas falou rindo)
   - Fala se ele não é folgado? (Helen)

   Yasmin sorriu observando os dois. Há um tempo já havia os observado, bem, desde o dia em que chegaram. Ela via uma relação de dois irmãos que se davam muito bem. Companheirismo. Amor. Óbvio que entre eles existia amor, mas conforme dito através de sua observação, amor de irmãos.

   Após o almoço, Yasmin preparava para eles um café, já que esse vício ela carregava. Não pela tradição árabe, já que o chá é predominante, mas por sua adolescência no Brasil. Regina, sua mãe, também sempre teve essa paixão pela cafeína, coisa que influenciou a filha. Helen
e Lucas conversavam baixo na sala.

   - Desde quando vocês… (Helen)
   - Helen, vamos conversar depois sobre isso. (Lucas pediu)
   - Ok, vou respeitar, mas… (Helen)
   - Helenzinha... (Lucas)
   - Separa logo da cobra. (Helen)
   - Por favor… (Lucas)
   - Ta bom, chato. (Helen)

   Yasmin voltou à sala com uma bandeja na mão. Nela tinham as pequenas xícaras e biscoitinhos de leite.

   - Mas essa garota é muito prendada, fico até com vergonha perto de você. Porque eu sou uma negação na cozinha. (Helen)
   - Ela tem razão. (Lucas falou rindo)
   - Eu também não era muito boa na cozinha, mas quando vim pra cá, tive que aprender na marra. (Yasmin)
   - Talvez seja esse o motivo de eu ainda morar com meus pais. (Helen falou rindo)
   - Ainda bem que nasci homem. (Lucas)
   - Viu a cabecinha dele? (Helen)
   - Mas hoje em dia têm muitos homens que cozinham, até melhor do que mulheres. (Yasmin)
   - Te garanto que esse homem não sou eu. (Lucas)
   - Ele tem razão. (Helen)

   A conversa entre os três estava rolando de uma maneira divertida, Helen às vezes soltava uma de suas, mas o clima de desconcerto se amenizava.

   - Por que veio morar no Egito, Min? (Helen)
   - Acontecimentos me fizeram tomar essa decisão. (Yasmin)
   - Mas Egito? Digo isso porque geralmente as pessoas vão trabalhar fora do país em lugares como Estados Unidos, Japão, Austrália, Inglaterra. Entendeu o que quis dizer não é? (Helen)
   - Entendi sim, na verdade não vim com o intuito de enriquecer, coisa que seria difícil num país de terceiro mundo, mas não impossível. O motivo maior é uma fuga e um conforto. Fugi da insegurança, do medo, da humilhação. E busquei o conforto nas raízes do meu pai. (Yasmin)

   Lucas apenas a observava em silêncio. Adorava o jogo que Yasmin fazia com as palavras, era culto no entendimento dele, mas tinha boas gotas de melancolia em cada palavra e principalmente na existência dela. Mas isso ele queria reverter, assim como ele via nela a sua salvação.

   - Você parece falar em códigos. Não quer tocar no assunto? (Helen)
   - Eu me enrolo nas palavras às vezes, é isso. (Yasmin respondeu sorrindo)
   - Desculpe eu perguntar essas coisas, é que sou muito curiosa e sinto dózinha de ver uma compatriota sozinha num lugar como esse. (Helen falou sorrindo)
   - Obrigada pela preocupação. (Yasmin)
   - Eu não teria coragem de vir pra outro país, sozinha. Ainda mais num país islâmico. Não estou criticando sua religião, longe de mim, mas o Oriente Médio têm guerras e aqui por mais pacifista que seja, está no meio. (Helen)
   - Eu entendo e talvez seja essa uma das revoltas com minha religião, mas aqui no Egito esses problemas com terrorismo são mínimos. Senão eu não viria morar aqui jamais. (Yasmin)

Nenhum comentário:

Postar um comentário